Ambrosia Críticas Raspútin: Fé, poder e o declínio dos Románov

Raspútin: Fé, poder e o declínio dos Románov

Raspútin é um dos nomes russos mais lembrados tanto historicamente quanto culturalmente. A figura ganhou alcunhas diversas, como o Diabo Santo, o Monge Louco; o sátiro insaciável; o curandeiro que enfeitiçou uma imperatriz, entre outros.

Raspútin, cujo conselho enlouquecido destruiu um império, segundo muitos historiadores da época,  ganhou uma nova biografia, bem substancial e meticulosamente pesquisada para exorcizar muito do que pensávamos sobre a figura histórica.

Raspútin: fé, poder e o declínio dos Romanov escrita pelo premiado historiador Douglas Smith, publicado pela Companhia das Letras, com suas mais de 900 páginas, traz um olhar menos sensacionalista e bem mais interessante, pelos detalhes e minúcias pesquisados desse nome que não passa inalterado em qualquer trabalho sobre a Rússia czarista.

Um camponês da remota e fria Sibéria, casado e com filhos, que de repente decidiu dedicar-se à vida messiânica em uma jornada que o levaria ao palácio dos Romanov. Como uma figura de uma narrativa de Dostoiévski, o controverso personagem causou furor em seu entorno, em especial por ter sido um dos motivos da derrocada de uma das mais longevas dinastias do mundo. Mas afinal, bruxo? Santo? Monge? Louco? 

Smith, autor da mais completa biografia sobre o mito, reconta a trajetória do personagem de maneira magistral e bastante detalhista. Mas vai além, o historiador apresenta vários aspectos da cultura russa pré-guerra, analisando a família Romanov, o clero ortodoxo, a reação camponesa, a aristocracia russa, o fascínio pelo ocultismo, etc.

Como o próprio diz em sua introdução: ”A história de Rasputin é uma tragédia, e não apenas de um homem, mas de uma nação inteira, pois em sua vida – com suas lutas complicadas sobre fé e moralidade, sobre prazer e pecado, sobre tradição e mudança, sobre dever e poder e seus limites – e em seu final sangrento e violento, podemos discernir a história da própria Rússia no início do século XX.”.

O autor não repete o que outras obras fizeram e apresenta um retrato mais completo e complexo de Grigorii Rasputin-Novy, amparado em novas fontes e documentos não examinados. Assim, explica, por exemplo, como ele se tornou um stranniki, um peregrino que era muito comum ao longo dos séculos XVIII e XIX, e como o biografado foi possivelmente levado a seguir à ideia de peregrinar a locais sagrados, algo amplamente difundida entre ricos e pobres.

Smith nos faz perceber que o papel de Rasputin era comum, não exclusivo, ele apenas jogou melhor que outros, seus anos de peregrinação foram sua formação superior e onde desenvolveu um amplo conhecimento da ordem social russa e um forte entendimento da psicologia humana.

A aura espiritual de homem santo levou a São Petersburgo, onde foi seduzido pelos salões e seus frequentadores que corriam atrás de místicos. Em 1905, a Rússia estava tomada pela revolução e foi nesse momento que Rasputin conheceu a família imperial. Em poucos dias, de acordo com uma carta desenterrada por Smith, já se dirigia ao czar sobre questões de política nacional.

A intimidade e a confiança da família imperial o levou a cuidar do filho hemofílico. E os boatos começaram a se infiltrar no público: Rasputin interferia em questões estatais e estava seduzindo sistematicamente diversas mulheres da alta sociedade russa.

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, os rumores aumentam, que o czar está seguindo seus conselhos em assuntos militares, que a Imperatriz Alexandra esteja em situações obscenas com Rasputin. E algumas pessoas em altos postos já sussurravam que deveria ser eliminado e o que ocorre após alguns atentados. 

Smith fez uma pesquisa árdua em arquivos diversos, procurando documentos antes que o mito de Rasputin tivesse tomado forma. O autor percorreu sete países, da Sibéria e da Rússia, por toda a Europa, à Grã-Bretanha e, finalmente, aos Estados Unidos, buscando toda informação que colocasse Rasputin diretamente em seu entorno: onde ele estava em qualquer dia, o que ele estava fazendo, quem ele conheceu, o que eles discutiam.  Um mergulho na vida cotidiana, que fornece tantos detalhes sobre as “banalidades da vida” que muitas páginas são apenas isso – banais.

A extensa pesquisa é surpreendente, seguindo os passos deste verdadeiro Rasputin, Smith procura não apenas escrever uma biografia abrangente de Grigori Y. Rasputin, mas separar os mitos dos fatos concretos, explicando muito do que chegou aos nossos dias, como o famigerado apetite sexual, ou a hipnótica persuasão do tal Monge Louco. Concluindo na discussão sobre a investigação do assassinato de Rasputin, explorando o colapso da dinastia Romanov, que resultou em uma onda de propaganda retratando Rasputin como a encarnação do mal e que o povo russo foi finalmente libertado.

Por fim, Smith faz o seu trabalho de historiador, limpa os exageros, as mentiras, os adornos do mito, para desenhar um retrato que se aproxima da realidade. Livro recomendadíssimo, apesar de suas novecentas e tantas páginas, merece sua leitura. 

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