Literatura

Resenha: O Inimigo do Mundo

O Inimigo do Mundo, Editora Jambô. 360 páginas, capa brochura, P&B ─ R$ 45,00. Nota 5/6
O Inimigo do Mundo, Editora Jambô. 360 páginas, capa brochura, P&B ─ R$ 45,00.

Por muito tempo, contaram a todos nós que Arton era um mundo “colorido”, uma fábula juvenil à Harry Potter, com heróis inspiradores e vilões abjetos. Mas o mundo não era como nos contaram, ou, pelo menos, não foi como contaram que era para Leonel Caldela. O Inimigo do Mundo, primeiro romance ambientado no cenário nacional de RPG Tormenta, poderia ser considerado um “rap literário”, pois assim como as letras deste estilo musical ele nos faz encarar a realidade de um mundo que pensávamos ser muito diferente.

Após o Albino, um ser impiedoso e inicialmente inculto cujo processo de aprendizagem é um dos pontos altos do livro, massacrar uma família no reino de Petrynia, a única sobrevivente contrata o grupo de Vallen Allond para matar o criminoso e cumprir a sua vingança. Assim começa uma jornada dolorosa e cruel, cujo desfecho afetará profundamente o destino do mundo.

Entrecortando a narrativa da jornada há capítulos dedicados à uma trama paralela que apresenta os deuses, muitíssimo bem caracterizados (e com algumas das frases mais marcantes do livro, as restantes pertencem a Vallen e ao paladino mais cool de Arton, Gregor Vahn), como personagens. As ações divinas vistas nestes capítulos são diretamente responsáveis pelo destino final do grupo de Vallen Allond. Um aviso, se você é fã de Tenebra, a Deusa das Trevas, recomendo profundamente que ignore o capítulo onde ela aparece junto de Ragnar, o Deus da Morte (ou então vá tirar satisfações com o autor, mas cuidado, que ele é meio grande…).

Fãs do cenário irão delirar com a aparição de alguns personagens notórios. Mestre Arsenal surge em diversos pontos do livro com toda a sua imponência. A sua conversa com Keen, o Deus da Guerra, demonstra claramente o orgulho de um dos mais poderosos homens de Arton. Mitkov, o príncipe de Yuden, também tem uma curta aparição pela qual ele, se ainda não estava lá, entra para a coleção dos vilões que todos adoramos odiar. No entanto, nem tudo são flores, a rápida cena com o artefato Helladorion, sumo-sacerdote de Tanna-Toh, Deusa do Conhecimento, não serviu para deixar o personagem mais interessante, na verdade, é uma das passagens mais enfadonhas do livro.

Apesar de um ou outro escorregão, uma das grandes qualidades do livro são os seus personagens marcantes. O teimoso e carismático Vallen, o despreocupado Gregor, o fracassado Rufus e tantos outros, possuem histórias de vida verossímeis. Mesmo sendo personagens de fantasia, os acontecimentos mais banais e os sentimentos mais “humanos” demonstrados por eles os aproximam muito mais da realidade do que dos heróis míticos e indestrutíveis a que estamos acostumados no gênero.

Apesar de toda a qualidade da narrativa, o livro apresenta, sim, os seus defeitos. A começar pela letra miúda, que foi necessária para diminuir o número de páginas e o preço. E mesmo com essa medida continua alto se comparado a outros livros semelhantes como as Crônicas de Dragonlance e a trilogia do Vento Gélido. Tudo bem que há de se defender que a tiragem destes últimos deve ter sido bem maior, já que Dragonlance é um best-seller do New York Times e Forgotten é o cenário oficial de D&D, mas um esforço maior nessa questão teria sido bem-vindo.

Também a presença de clichês inicialmente pode decepcionar alguns. Por mais que Leonel seja hábil em torcê-las no inuito de transformá-las em algo um tanto fora dos moldes, as convenções mais tradicionais da fantasia mevieval ainda se fazem presentes: o vilão errante, o grupo unido, as constantes viagens, o uso de artefatos mágicos como ponto determinante para a vitória. Por outro lado, é justamente essa familiariedade e a expectativa de encontrar “mais do mesmo” que torna ainda mais eficiente o choque do leitor ao ver, nos últimos capítulos, que a história trata muito mais de uma jornada trágica e dolorosa do que de uma aventura épica e heróica.

No fim das contas, O Inimigo do Mundo é, essencialmente, uma grande estréia para um escritor de muito talento e uma grande chance de comprovar que Tormenta tem ainda mais facetas do que todos imaginavam.

Por Nume Finório e J.M. Trevisan, adaptado da resenha originalmente publicada na revista Dragonslayer nº11.

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