WhatsApp Image 2025 01 20 at 22.06.21
AutoralLiteratura

Terceira idade: quando a vulnerabilidade se torna fazer poético

Por Vicente Humberto*

A poesia é um elemento vivo — um componente essencial da arte de viver, independentemente da idade. Não existe essa coisa de “idoso” quando se fala de poesia. A poesia transcende o tempo, é feita de sentimentos, de percepção, de aura, de luz. Ela se conecta com a existência humana de forma profunda, como um exercício de espiritualidade que se renova com cada verso escrito.

Na verdade, não existe vida sem poesia. E não existe a criatura humana sem poesia. Ela é o que perpetua, ao longo da nossa jornada, nossas emoções, nossos cantos, nossas lágrimas, nossas dores e nossas lutas. Por isso, mais do que linguagem ou forma, ela é parte intrínseca da essência do viver, e seu exercício é vital em todas as fases da vida.

À medida que envelhecemos, nos deparamos com uma crescente relação de solidão e reflexão, o que torna o ato de escrever poesia ainda mais transformador. Envelhecer é também exercer um contato profundo com as perdas e com os vazios que elas geram. O acúmulo de experiências e a convivência com o tempo trazem uma nova percepção do mundo, e a vulnerabilidade que surge com a idade só fortalece a necessidade de expressar e ressignificar esses sentimentos.

Na terceira idade, a poesia adquire uma força renovada. Ela se torna um instrumento de reflexão, uma forma de lidar com a passagem do tempo, de olhar para o passado e trazer à tona as emoções que o marcaram. Ao mesmo tempo, a poesia ajuda a transformar a fragilidade em um ato criativo e curador. Nessa fase da vida, mais do que nunca, as emoções se tornam mais intensas, mais fortes, e o ontem se torna um presente que pode ser revisitado a qualquer momento, como se tudo fosse agora.

Essa vulnerabilidade traz consigo uma nova sensibilidade para a percepção do mundo. A visão do que nos cerca, das coisas simples, dos objetos do dia a dia, muda. O que antes parecia corriqueiro se transforma em algo de grande significado. Uma parede deixa de ser só uma parede. O gorjeio de um pássaro deixa de ser só um som. O vento, apenas vento. A mosca, apenas uma mosca. Na terceira idade, a poesia faz a vida pulsar mais forte, revelando uma beleza que só o tempo e a experiência podem proporcionar.

Essa transformação da percepção das coisas está ligada a um tipo mais sóbrio de sensibilidade. A maturidade permite que o olhar sobre a vida se torne mais atento, mais reflexivo, mais profundo. A poesia, assim, se revela como um meio único de acessar e transformar essa percepção, revelando nuances e significados ocultos em momentos que antes poderiam passar despercebidos.

O que é realmente encantador nesta fase da vida é que a poesia traz uma nova visão sobre a realidade, com uma delicadeza e uma profundidade que nem a juventude nem a adolescência são capazes de alcançar. É a poesia não só como um reflexo da vida, mas como uma maneira de vê-la de uma forma mais completa, mais humana, mais verdadeira. Ela emerge em sua plenitude quando o tempo já ensinou a ver o mundo de outra forma. E talvez seja isso o que a torna ainda mais preciosa: ela traz a capacidade de perceber o mundo de uma maneira única e repleta de sensibilidade.

A poesia, assim, não se limita a ser uma forma de expressão pessoal. Ela se torna um exercício de vida, uma maneira de exercer a humanidade em sua forma mais pura e refinada. Na terceira idade, ela é uma forma de ressignificar memórias, de refletir sobre a trajetória percorrida e, acima de tudo, de reafirmar a presença no mundo. Cada verso escrito é uma reafirmação do ser, uma maneira de registrar a continuidade da vida e da experiência humana.

Escrever, portanto, se torna um ato de resistência. O exercício da poesia é uma maneira de lidar com a vulnerabilidade e de encontrar, na fragilidade, um caminho de cura. Ao escrever, o poeta da terceira idade não só revisita o passado, mas transforma o seu presente e, quem sabe, deixa um legado para aqueles que virão. A poesia, então, é um abrigo, um consolo, uma oração. Ela nunca se faz em vão.

Deixe um comentário

Sugeridos
Carolina Chalita em Eu matei Sherazade, confissões de uma árabe em fúria - Crédito fotográfico Juliana Chalita
AgendaLiteraturaTeatro

“Eu matei Sherazade, confissões de uma árabe em fúria” chega ao CCPJ

Indicada ao Prêmio APTR, Carolina Chalita faz tour da peça que mergulha...

Os livros marcantes de Zuenir Ventura
ListasLiteratura

Os livros marcantes de Zuenir Ventura

Ao longo de sua trajetória como jornalista e escritor, Zuenir Ventura (1931–2026)...

Zuenir Ventura
AstrosLiteraturaNotícias

Memória brasileira e a trajetória de Zuenir Ventura

Existe um tipo raro de jornalista que consegue transformar a pressa do...

HN12428
Literatura

E se um romance fosse construído como um jogo?

E se conceitos usados para criar jogos pudessem ser aplicados à construção...

PHOTO 2026 08 05 19 48 55 (1) (1)
AutoralLiteratura

Trechos de “É Vida Que Segue!” de Daniela Yuri Uchino 

Daniela Yuri Uchino é paulistana, graduada, mestra e doutora em Letras pela...

Ivy
AgendaLiteratura

Ivy Menon lança “Ratos e estrelas habitam o mesmo universo” na Bienal do Livro de São Paulo

Romance de autora de 68 anos, ex-boia-fria, advogada, jornalista e teóloga, aborda...

Capa não volte sem ele
Literatura

Cinco autores nordestinos

A literatura nordestina contemporânea não cabe em uma única chave temática. Ao...

PHOTO 2026 08 05 19 48 55 (1)
LançamentosLiteratura

Além com filas, terapia e agência de empregos para almas em “É Vida Que Segue!”

Lançamento na Bienal Internacional do Livro de São Paulo, novo livro da...

IMG
LançamentosLiteratura

Escritor Douglas Robberts lança “Meninos avessos, duendes travessos”

Nova obra de Douglas Robberts apresenta o encontro inesperado entre dois meninos...

Christian araujo autor
LançamentosLiteratura

Christian Araújo leva personagens trans a uma Belém distópica em Não Sou um Diário

Escritor e cineasta paraense mistura poesia, ficção científica e cultura pop em...

Foto Ana Moura
LançamentosLiteratura

Romance premiado sobre violência contra a mulher percorre Sesc RJ

Selecionado pelo Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar, “Açougueira”, de Marina Monteiro,...

1
AgendaLiteratura

Maneco Magnesio lança fotolivro em festivais em Itanhaém e na Vila de Paranapiacaba

Na obra “Vida que segue”, Maneco Magnesio Guimarães cruza fotografia urbana e...