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The Graveyard Book: Como deixar seus filhos mais góticos

“One and all will hear and stay
Come and dance the Macabray”

graveyard-bookJá se passou muito tempo desde que comprei o último livro de Neil Gaiman, The Graveyard Book, confesso que enrolei para lê-lo não só por falta de tempo, mas também pelo fato dele ser uma história infanto-juvenil, como Coraline. Meu problema com Coraline (além de ser um dos poucos textos traduzidos do Gaiman que eu tenho, pois o autor é de longe muito melhor em sua língua original) é que ainda que eu tenha apreciado a história, ela não me tocou muito na época. Confesso que descartei um pouco a coisa tendo em vista as demais obras do autor que sao bem mais interessantes, e semelhança com Lewis Caroll.

Mais uma vez, Neil Gaiman opta por se espelhar em uma publicação infantil, no caso “The Jungle Book” de Rudyard Kipling (que ficou mais conhecido por aqui na sua versão pouco fiel e animada da Disney: “Mogli, o menino lobo”). A premissa é bastante interessante, ao invés da história de um garoto criado na selva por bichos, temos um garoto criado em um cemitério por fantasmas (fora outros seres sobrenaturais como a professora Lupescu e o guardião Silas).

graveyard2rO livro me prendeu bem mais do que Coraline, e acredito que ele até seja capaz de se tornar uma animação melhor (já que a do primeiro é excelente). Claro que existe um lado Gótico muito forte em mim, que me faz apreciar naturalmente este tipo de estética e de clima (bastante semelhante as animações de Tim Burtom). Não apenas a história me pareceu mais interessante, mas o clima como um todo me chamou mais atenção. A obra é tipicamente um conto de Gaiman, o protagonista é inteiramente explorado e bem desenvolvido, as vezes até em detrimento dos demais aspectos do mundo. Como autor sempre reconhece ele prefere mistérios à respostas, portanto muita coisa acontece sem maiores explicações. O fio condutor é sempre Nobody Owens, ainda que ele deixe rastros bastante tangíveis de pequenas soluções para o universo apresentado (como por exemplo, o tipo de criatura que Silas é, nunca afirmado, mas explicitado de forma sutil no decorrer do texto). Ou seja, por mais intrigante e interessante que é a mitologia por trás do Jack e sua ordem, ou a cripta mais antiga do cemitério, ou mesmo a história dos Guardiões de Bod (o apelido de Nobody), nada disso ganha muita ênfase ou explicação no livro. O que é uma pena, mas apesar de ser um defeito chato, ele não retira a mágica da história.

O livro, apesar de ter recebido os mais importantes prêmio literários de sua categoria, chegou a revoltar alguns pais, pelo tom gótico e em teoria sinistro de seu tema. Convenhamos, o primeiro capítulo é realmente pouco usual para um texto infanto-juvenil. A primeira frase “There was a hand in the Darkness, and it held a Knife” (Havia uma mão na escuridão, e ela segurava uma faca), é sucedida por uma rápida seqüência onde Jack -of-all-trades, o assassino, percorre a casa da família durante a noite e assassina o pai, a mãe e a irmã de sete anos do protagonista. O Bebê, que acaba escapando, vai parar no cemitério da cidade, onde é adotado pelos fantasmas locais. Lá Nobody Owens (seu primeiro nome é Ninguém, bem ao estilo Odisseu) ganha a liberdade do cemitério, uma espécie de passe livre para o mundo dos mortos, seus poderes e percepções. E enquanto vai crescendo, ele também vai desenvolvendo suas habilidades como fantasma (esvanecer, cavalgar sonhos, assombrar, etc…), assim como seu conhecimento dos lugares sombrios do mundo (a cidade de Ghûlheim, terra dos Ghouls, derivados dos ġūl islâmicos, espíritos malignos que espreitam cemitérios e se alimentam de corpos). Tudo isso, enquanto ainda tentam protegê-lo do assassino e do misterioso grupo por trás do mesmo, que ainda deseja a morte do garoto.

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Os capítulos do livro assumem a forma de episódios. Eles são quase que pequenos contos por si mesmos, algo bastante diferente da escrita tradicional de Gaiman. Praticamente a cada capítulo somos levados a um novo ano na vida de Bod Owens, ou uma nova situação. Podemos observar o crescimento gradual do protagonista, de bebê até um jovem confuso com o mundo normal. E essa transgressão do tempo a cada capítulo impõe um ritmo interessante a trama. O estilo fraturado de narrativa também parece obrigar Gaiman a colocar um pequeno clímax a cada capítulo, todos bastante distintos.

graveyard3Outro detalhe que devo citar são as ilustrações de Dave Mckean (sempre ele). Bastante climáticas, elas são esguias e levemente sombrias. Existe um certo melancolismo assim como um pouco de tédio nelas. Acho que elas cumprem bem o papel de representar o cemitério em toda a sua atmosfera para uma criança. Um lugar de saudades, de despedidas, lúgubre e às vezes tedioso.

“The Graveyard book” é mais um excelente trabalho do sempre brilhante Neil Gaiman. Entretanto, vale lembrar a todos para não esperar um Sandman, ou mesmo um “American Gods” do livro, na medida em que ele é como Coraline, direcionado ao público infanto-juvenil. Ainda sim, é uma leitura divertida, leve e descompromissada. E se existe um lado um pouco mais gótico em você, será ainda mais interessante.

Vale citar também que os Fãs de RPGs da White Wolf, vão pensar que o livro não só pode facilmente ser adaptado para o World of Darkness, como o personagem principal é um ótimo exemplo para uma nova linha do jogo, ainda que agora ela possa ficar bastante semelhante com Geist. Pensem só, é uma criança criada em um cemitério que aprende a usar as Núminas de Fantasmas, dava para pelo menos fazer um mérito que permitisse isso. Hahahaha.

21 opinaram!

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    • Izze, ainda não, o livro foi lançado há alguns meses lá fora. Mas ele com certeza vai ser traduzido dentro de pouco tempo, quase tudo que o Gaiman escreve sai em português….

  1. MUITO legal, além de adorar literatura infanto-juvenil, pois acho que o autor tem de ter muita habilidade e audácia para lidar com o público mais jovem, Neil Gaiman é sensacional.

  2. Ah, e achei que faltou falar da origem do livro no artigo… 🙂

    A idéia dele surgiu do fato do Gaiman levar seu filho para brincar em um cemitério ao invés de um parquinho (segundo o autor, ele fazia isso porque não tinha nenhum próximo, mas acho isso meio suspeito :p). O livro foi deixado de lado várias vezes, até que ele, acho que por pedido da sua filha mais nova, retomou de vez o tema. Talvez isso seja ajudado para a sensação de cada capítulo ser um conto. Bem ou mal, eles não foram escritos em ordem e as diferentes idéias foram vindo ao longo de anos.

  3. uia, ficou meio estranho o comentário. enfim, o que quis postar foi:

    “‘felizmente’? mas o texto não é o mesmo? se a diferença for só a ilustração, acho que ‘felizmente’ seria ter os dois, né?”

    =P

    • Sim, a diferença está apenas nas ilustrações….

      Acho que a vantagem é você se sentir menos acanhado para comprar/ler na rua um livro infantil 🙂

    • é talvez… Mas é por que eu sou muito fã do Mckean… fiquei feliz por ter a edição dele…

      Achei estranho que no site oficial do livro, também só tenha as ilustrações do Mckean…

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