Tieko Irii transforma memórias familiares em autoficção

A escrita de “As ruas sem nome” (Editora Patuá, 2025) nasce de um encontro inesperado com o passado. Ao ter acesso à autobiografia nunca publicada de seu pai, Hisashi Irii, a escritora e artista visual Tieko Irii inicia um percurso literário que a leva a revisitar não apenas a história de sua família, mas também…


Foto 01 @nilton.fukuda

A escrita de “As ruas sem nome” (Editora Patuá, 2025) nasce de um encontro inesperado com o passado. Ao ter acesso à autobiografia nunca publicada de seu pai, Hisashi Irii, a escritora e artista visual Tieko Irii inicia um percurso literário que a leva a revisitar não apenas a história de sua família, mas também as marcas deixadas pela imigração japonesa no Brasil. O livro combina memória, investigação histórica e relato pessoal para discutir temas como deslocamento, identidade e silêncio.

A trajetória do pai, que deixou o Japão devastado pela guerra, percorreu o país em fuga e mais tarde migrou para o Brasil, funciona como eixo narrativo da obra. A partir dela, Tieko constrói um texto que amplia o olhar para além do âmbito familiar. Ao longo do livro, a autora reflete sobre estereótipos raciais, expectativas impostas à comunidade nipo-brasileira e as contradições de conceitos como o da “minoria modelo” e do soft power japonês, articulando essas ideias à sua própria experiência como mulher, artista e filha de imigrantes.

Dividida em quatro partes, a narrativa alterna fragmentos do relato paterno com episódios da vida da autora — da infância e juventude em São Paulo à temporada vivida no Japão no fim dos anos 1980. Longe de idealizações, essa vivência no país de origem de sua família revela tensões, estranhamentos e a frustração de não encontrar ali o pertencimento esperado. O resultado é um livro que se move entre o íntimo e o político, expondo como heranças culturais e estruturas sociais moldam subjetividades.

Artista visual, diretora de arte e escritora, Tieko Irii formou-se em cinema pela FAAP em 1988 e construiu uma carreira de 25 anos no audiovisual e na publicidade. Participou de produções marcantes como Os Matadores (1987), O Menino Maluquinho 2 (1998), Castelo Rá-Tim-Bum (1999) e da série Retrato Falado, da Rede Globo. Autora de três livros infantis, “As ruas sem nome” é sua estreia na escrita autobiográfica. Na entrevista a seguir, Tieko comenta os desafios de transformar memórias familiares em literatura e de dar forma narrativa a uma história atravessada por apagamentos, afetos e rupturas.

Como foi o processo de escrita de “As ruas sem nome”? 

Quando comecei a escrever esse livro fui obrigada a abrir o baú do esquecimento. Foi muito difícil usar a primeira pessoa e assumir as dores e o mal-estar de um corpo que nunca esteve satisfeito consigo mesmo. Ao revirar as memórias que sobreviveram ao tempo, constatei que a maioria delas eram as que mais desejava esquecer. Reviver o preconceito, os estereótipos, as violências cotidianas, a falta de pertencimento, a raiva, as negações, as transgressões e as culpas. Até as experiências boas, as alegrias e as descobertas pareciam ter apenas um valor pessoal. Para os japoneses o importante é o coletivo, não há espaço para o individualismo, considerado um traço egoísta e de alguma maneira carregava isso comigo, como se as emoções e os sentimentos não tivessem valor nenhum.

Realizei que para construção desse eu-personagem, para além dos fatores pessoais, era necessário desvelar as várias camadas históricas, sociais e culturais das vivências pelas quais passei e que me determinaram.  Uma investigação que permitiu discriminar e nomear as minhas experiências e entender a pessoa que sou hoje. Foi um processo no qual desconstruí a ideia de que eu era dona de minha história, que faço parte de uma história coletiva. Victor Hugo escreveu: “Ninguém tem o privilégio de ter uma história só sua”. Foi libertador sair do meu exílio. 

Foi um resgate étnico identitário, mas não um lugar único e fixo. Somos feitos de múltiplas camadas. Ao mesmo tempo, foi uma tarefa árdua assumir minha história individual e principalmente validar as minhas escolhas. Esse deslocamento me fez perceber a minha eterna busca de aceitação. A rejeição foi a força motriz que me fez desejar descobrir quem eu era e meu salvo conduto para a vida. 

Quais os principais temas abordados em “As ruas sem nome” e de que maneira eles são trabalhados? 

A escolha dos temas não foi planejada. Eles foram surgindo de forma orgânica conforme eu investigava as histórias familiares  e a minha própria trajetória como uma asiática amarela. O silêncio sempre foi uma presença constante na minha família. Era muito difícil conseguir fazer com que meus tios contassem alguma coisa significativa, havia um misto de constrangimento e vergonha e eles pouco sabiam sobre os meus avós, nem as razões pelas quais eles estavam aqui. Tinham muita resistência em contar os momentos difíceis, particularmente durante a Segunda Guerra e fui percebendo que eles não sabiam direito o contexto social que viveram, assim como eu. Quando me debrucei sobre minha própria história, eu compreendi que eu também não queria tocar nas feridas, ao mesmo tempo, eu  queria saber o porquê das coisas e fui descobrindo o quanto a história, a cultura, a sociedade, a ancestralidade, o saber, o não saber nos determinam como pessoa e sujeitos de nossa história. É bom saber. 

Na época, eu me surpreendi que existiam tantos pesquisadores, intelectuais e grupos na internet que estudavam e discutiam sobre a experiência de ser um asiático amarelo no Brasil, que me deram a base para a sustentação do livro. Foi surpreendente compreender que de alguma forma tudo estava ligado às minhas experiências, de que fazemos parte da história do mundo.  Foi um processo muito doloroso descobrir os apagamentos e violências pelos quais os imigrantes sofreram e ainda sofremos como asiáticos. A cada passo que eu dava na construção do livro, as peças iam se encaixando, formando um grande mosaico.  A história do Japão, da imigração japonesa, as relações com o fim da escravatura, o projeto de branqueamento da “raça” brasileira, os movimentos políticos contra a imigração dos japoneses e asiáticos desde a era Vargas até a Segunda Guerra, as relações com o racismo estrutural e o orientalismo. A mudança do modo como éramos vistos, do perigo amarelo à minoria modelo, reforçado pelo soft power japonês. Quando eu era pequena as pessoas tinham nojo de peixe cru e de repente era sofisticado comer sashimi. Os processos sociais e culturais nos quais estava inserida e a herança cultural que eu carregava. Como a história de nossos antepassados influenciaram na formação da cultura nipo-brasileira e as consequências disso entre os descendentes. No meio desse processo, fui convidada a participar de um coletivo de Escritoras Asiáticas Brasileiras, que me ajudou a legitimar o meu trabalho. Fiquei surpresa que até hoje a maioria das autoras sofrem com os mesmos estereótipos, preconceitos e fetiches, que passei durante a minha juventude, seja porque tem o fenótipo amarelo ou são mestiças, estas sofrem preconceito até dentro da comunidade  japonesa  Pela primeira vez me senti parte de um grupo. 

Até o lançamento do livro, me sentia constrangida em dizer que o livro se tratava sobre mim, como se escrever a nossa própria história fosse uma coisa menor, sobretudo a história de uma garota nikkei, afinal são séculos de opressão do patriarcado. Mesmo com toda a pesquisa, achava a minha história banal e pensava como meu pai: Quem se interessaria por isso? Mas essa é a beleza do livro, é a minha história, mas poderia ser a história de qualquer garota em busca de um lugar ao sol.

Em sua análise, quais as principais mensagens que podem ser transmitidas pelo livro “As ruas sem nome”?

O livro aborda as questões sobre racismo e identidade, de como precisamos do olhar do outro para nos sentirmos pertencentes. O mesmo que nos oprime e que ao mesmo tempo o quanto desejamos esse olhar e fazemos de tudo para sermos aceitos. O quanto o racismo nos coloca em caixinhas pré estabelecidas e nos tira a humanidade. Muitas vezes respondemos inconscientemente aos estereótipos e as idealizações que são feitas sobre nós e sobre nossos corpos, não só na sociedade brasileira, mas também dentro da colônia japonesa. Entender nosso lugar dentro do racismo estrutural brasileiro; que o mito da democracia racial não existe, que não somos percebidos como brasileiros, no entanto, mesmo sofrendo discriminação racial, somos colocados em um lugar de privilégio que reforça ainda mais a hierarquização das cores que compõe esse cenário. Entender a violência dos processos migratórios, que todos os imigrantes não são desejados em seus países de origem, que no fundo somos um país de excluídos. 

A busca pela identidade que me levou ao Japão, onde eu descobri que eu não era nem brasileira, nem japonesa. Aqui seria sempre uma “japa” e no Japão uma estrangeira qualquer. Percebi a beleza e a riqueza da cultura diaspórica do Brasil e descobri o quanto a cultura, a arte e as tradições japonesas estavam enraizadas em mim. Ao mesmo tempo,  desmistifico um Japão idealizado. De como a sociedade japonesa sofre e é afetada por essas tradições e paradigmas cultivados pelos próprios japoneses, e, de como todo esse legado histórico e social nos afetam e fazem parte da formação dos nipo descendentes.

Acho que a principal mensagem do livro é que nós, mulheres asiáticas, passamos por experiências semelhantes e fazemos parte de uma história coletiva, mas também somos protagonistas de nossas histórias, temos a nossa própria singularidade. É a recusa de um não lugar e quando ele passa a ser um lugar entre. A beleza de ser brasileiro, tudo junto e misturado. Somos bossa nova, rock, soul e sushi.

O livro é uma história de desejos desejados por mim e por todos que vieram antes de mim e o que nos move, que é justamente o que nos falta e o que fazemos com isso. Esse não lugar, a falta de identidade, de pertencimento me levou a construir a minha história.  

Você publicou três livros infantis antes de se dedicar à “As ruas sem nome”, sua primeira obra autobiográfica. Como a bagagem dos livros anteriores ajudou na construção desta obra? 

Os livros do Tibi nasceram durante a licença maternidade do meu primeiro filho. Eu queria desenvolver um outro tipo de trabalho, mais autoral, que pudesse ficar mais em casa. 

Tibi, que significa pequeninho em japonês, foi um personagem que surgiu nos cantos dos cadernos, quando eu morava no Japão. Era uma espécie de alter ego, onde eu expressava minhas angústias, meus desejos e sonhos. Dar voz a ele, era dar voz a mim mesma. De alguma forma todo o meu trabalho, seja como artista ou escritora, é uma busca para entender o que eu sou.

Quais são as suas principais influências artísticas e como elas influenciaram diretamente a construção de “As ruas sem nome”?

Acho que minha principal influência foi o livro “Eu também sou brasileira” da Marilia Kubota. Foi a primeira vez que vi uma nipo-brasileira contar sobre suas experiências e me senti autorizada a contar a minha história. 

Costumo dizer que não escrevi esse livro sozinha, tomei emprestado os saberes de vários autores, pensadores e pesquisadores que foram fundamentais para embasar o livro. 

Os que mais me impactaram foram: Grada Kilomba com “Memórias da plantação” que me deu uma visão sobre os processos de racialização, violências e dores das mulheres pretas do ponto de vista psicanalítico que foi revelador para compreender as minhas experiências. Victor Hugo Keebe, Doutor em Antropologia Social e Estudos Japoneses. O psicanalista Christian Dunker foi fundamental para embasar meus sentimentos e compreender os processos conscientes e inconscientes que nos levam a viver essa aventura maravilhosa que é a vida. A Rosa Monteiro, sobre o que é uma escrita de autoficção para ela, os limites da verdade e a realidade e me ajudaram a legitimar o meu processo de escrita, assim como a Annie Ernaux, Nobel de literatura, que conheci na época em que o mercado foi inundado com suas obras, que envolvia historiografia, antropologia e autoficção. Eu já estava fazendo isso, a meu modo e ajudou  a validar internamente o meu projeto. 

Como começou a sua relação com a escrita? 

Desde pequena escrevo diários, a escrita sempre foi um modo de me organizar, elaborar, entender os conflitos e as coisas que aconteciam comigo. Isso era muito importante.  Uma ferramenta terapêutica que usei ao longo da vida. Eu acho que para mim, mesmo como artista visual, o princípio sempre foi o verbo, um desejo de desvendar os meus mistérios. Por isso tenho uma dificuldade enorme em me definir como artista e escritora, no fundo, o meu trabalho é uma investigação pessoal para descobrir o que eu sou. 

Você tem projetos futuros que deseja trabalhar na área de literatura? 

O meu único objetivo era publicar a história do meu pai, foi uma espécie de chamado e fiz isso com todas as minhas forças, que me consumiu demais, foi um mergulho muito intenso e profundo na minha história e nas histórias familiares. Uma introspecção e uma exposição tremenda. Tenho a impressão que tudo que tinha a dizer está no livro. 

Como tudo que fiz na vida, preciso me apaixonar e ver sentido no que estou fazendo. Acredito que em algum momento isso irá acontecer. Talvez eu sinta um outro chamado. Eu aprendi muito com o livro e continuo aprendendo com ele, com os retornos que estou recebendo e sem dúvida todo o processo do livro me abre para novas perguntas, para entender um pouco mais o que eu sou e vou tentar responder de alguma forma. Uma delas é até que ponto precisamos do olhar do outro para nos sentir acolhidos e quando se dá a escolha de nos sentirmos pertencentes, independente disso. Lembro da fala do meu pai, que voltou para o Japão após 50 anos e quando retornou  para o Brasil percebeu que aqui era o seu lugar de paz.


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