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AutoralLiteratura

Trechos de “É Vida Que Segue!” de Daniela Yuri Uchino 

Daniela Yuri Uchino é paulistana, graduada, mestra e doutora em Letras pela USP. Antes mesmo de aprender a escrever, já criava histórias, inventava brincadeiras e imaginava diálogos, inclinação criativa que, ao longo dos anos, foi sendo direcionada para a escrita de narrativas literárias que retratam situações comuns do cotidiano de maneira bem-humorada e provocativa. É autora de “Somos Todos Malas” (2021) e “O Natal dos Malas” (2022). Também participou de diversas antologias, entre as quais se destacam “Nós – textos de autoria feminina” (2023, Selo Off Flip), “Prêmio Off Flip – Conto” (2024, Selo Off Flip) e “Contos para ler quando o amanhã chegar” (2025, Editora Oito e Meio). Mãe de duas adolescentes, Daniela vive em São Paulo, onde concilia a escrita com o ritmo intenso da metrópole. “É Vida Que Segue! – Memórias póstumas de gente como a gente” chega ao público durante a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, em setembro.

Trecho 01

Depois da minha crise existencial, resolvo que vou recomeçar. 

Vou encarar de frente essa nova forma de viver.
Essa decisão me deixa até com o coração em paz. Fico um pouco mais confiante no futuro. 

Encontrei essa paz agora?! Vixeee… Quis muito isso na Terra e não rolou. Foi só agora. Mas nunca é tarde para recomeços ou para se reinventar, onde quer que a gente esteja. 

Aqui, do lado de fora do hospital, já dá para ver o povo! Todos vestidos de forma igual! É a moda do camisolão pós-vida? Assim, não dá inveja em ninguém. Um não quer o que o outro tem, porque ele tem igual. Mas deve haver algo não material que todo mundo quer. Será elevação espiritual?

Eu vou continuar a exploração do lugar, é o que tenho para fazer por enquanto.

Estou caminhando por aqui e vendo o movimento. Já percebi que esse pessoal não descansa de jeito algum. São atarefados e rápidos! E eu achava que eram muitos vagando por aí tranquilamente, sem nada para fazer.

Logo à frente, vejo uma placa e vou até lá para ler.

Bem-vindo ao Além!

Leia as regras e instruções:

1. Você despertou no hospital espiritual. Para morrer, basta estar vivo, e para viver aqui, basta estar morto. Não se desespere;

2. Para uma melhor adaptação, procure por seus mentores espirituais, eles darão as orientações necessárias para você iniciar a sua trajetória neste plano;

3. Não perambule por aí à toa, não grite e nem entre em desespero, a revolta não irá fazê-lo voltar para a sua vida na Terra;

4. É estritamente proibido perturbar os moradores do local com aparições de surpresa, lamúrias e reclamações de qualquer tipo;

5. Em caso de aparições indesejadas, não tenha medo, estão todos do mesmo lado;

6. Não queira se prender às coisas terrenas ou às pessoas na Terra, deixe tudo lá e aceite que agora você pertence a esse outro lado;

7. Não procure desesperadamente pelos seus entes queridos neste plano, todos têm suas ocupações e tudo que tiver que acontecer irá seguir seu rumo no tempo certo; 

8. Seja breve ao ser atendido na terapia espiritual, você não é o único que precisa de ajuda; 

9. Aceite que aqui se trabalha e há uma escala a ser cumprida por cada um, isso irá ajudá-lo na sua adaptação; 

10. Faça a escolha da sua função e candidate-se até conseguir a vaga, procure desempenhar-se com vontade e determinação. 

Trecho 02

Ao me formar advogado e me tornar um adulto, a minha mente se ocupava e se preocupava mais no dia a dia com o trabalho e responsabilidades profissionais. Mas uma das minhas principais provações eram os meus pais envelhecendo, ficando cada vez mais briguentos e com mais doideiras! Eu nunca sabia quando e qual seria a próxima que eles iam querer aprontar. Eu apenas tinha certeza de que viria e eu teria de segurar a tempo! Podiam ser viagens mais distantes, com custos altos e excessivos. Além de que, com a saúde comprometida, eles não iriam aguentar. Fora outros gastos desnecessários que eles pudessem inventar, e até tentativas de golpes nas quais eles pudessem cair. 

Passei por muitas noites que foram uma angústia para dormir. Mas, em compensação, um de meus sonhos foi um divisor de águas para as dúvidas que sempre rondaram a minha cabeça. 

Em uma noite de sexta-feira, sonhei com uma imagem turva de um homem, cuja voz eu já havia escutado em outros sonhos. 

O homem disse: 

— A sua condição para voltar à Terra foi nascer uma pessoa diferente nessa família, dar conta dela e ter no inconsciente a lembrança de algumas vivências antigas de outras vidas…

Acordei no sábado cedo com a revelação desse sonho na memória.

Aquelas palavras foram significativas e me marcaram. Eis o meu desafio nesta existência. Isso tornou claro o que eu não entendia e me perguntava desde sempre: o que estou fazendo nessa família? E qual o motivo desses sonhos que se parecem com lembranças de outros tempos?

O meu resgate são os meus próprios pais. E junto vieram algumas memórias de outras vidas, difusas no inconsciente através dos sonhos.

Eu tinha mais revelações para pensar. Sentado na cama, percebi como essa conexão entre sonhos e identidade, por mais perturbadora e misteriosa que fosse, me revelava e me fortalecia como um indivíduo em busca de si mesmo, nos resgates da própria existência. Absorvido por esses pensamentos, tomei uma decisão: viajar para rever a antiga casa de minha avó. Finalmente ter um reencontro com o meu passado.

Nesse dia, me senti muito bem, como há muito não experienciava.

Ao cair da tarde, o pôr do sol invadiu a varanda. Senti uma leveza e a minha mente estava em paz. Olhei para o horizonte, como a um chamado da natureza nos raios alaranjados do sol irradiados no céu. Essa luz incidia sobre minhas lembranças, que me levavam até a minha avó. Para mim, ela estava ali e consagrou esse dia. Até com a presença de um aroma de bolo quente de laranja vindo da cozinha.

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