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25 anos de “Nevermind”, o álbum do Nirvana que redefiniu o rock

Os discos mais esperados do segundo semestre em 1991 eram: “Use Your Illusion” do Guns n’ Roses, “Achtung Baby” do U2 e “Dangerous” do Michael Jackson. O que ninguém sabia era que o segundo álbum de uma quase desconhecida banda da chuvosa e cinzenta Seattle iria, não só vender mais do que os três, mas também redefinir os rumos do rock daquela década em diante. “Nevermind” do Nirvana chegou ao mercado quase que na surdina, em 24 de setembro de 1991, uma semana após o frenesi causado nas lojas de discos pelo álbum duplo do Guns. Pode parecer esquisito para você que tem menos de 35 anos, mas, naquela época, as pessoas faziam fila nas lojas de discos, assim como hoje ocorre nas Apple Stores quando é lançado um novo modelo de iPhone.

A banda já tinha fãs, sobretudo em sua cidade, que contribuíram muito para deflagrar o fenômeno. Em 1991 o rock americano estava dominado pelo chamado hair metal (aqui no Brasil chamado de “metal farofa”). Mas o gênero, em alta desde a década anterior, já começava a dar sinais de desgaste nas vendas, nas rádios e na MTV. A ascensão do R.E.M, campeão de vendas, execução nas rádios e grande vencedor do VMA daquele ano já prenunciavam que o caminho a ser seguido era o alternativo. Mas o que fez de “Nevermind” tão especial?

O disco tem uma força primal, pulsante nas doze faixas, que totalizam 42 minutos e 38 segundos de audição. É impossível não pular batendo cabeça ao ouvir ‘Smells Like Teen Spirit’, a faixa que abre o disco e escolhida para ser o primeiro single. Ela sintetiza perfeitamente o espírito do álbum. Era algo bem diferente do que se estava habituado até então. Uma voz desafinada berrando em desespero um refrão que até os nativos da língua inglesa tinham dificuldade de entender, uma guitarra igualmente desafinada mas com contundência cortante, um baixo que soa como uma saraivada e socos em um saco de areia e uma bateria que poderia fazer despertar espíritos silvícolas ancestrais.

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Por trás desse dadaísmo sonoro estavam o hoje Foo Fighter Dave Grohl, Kris Novoselic e Kurt Cobain, produzidos por Butch Vig. Kurt Cobain foi logo alçado a porta-voz da geração x, aqueles nascidos entre o fim dos anos 60 e inicio dos 80, que chegavam à idade adulta sem saber exatamente o que queriam do mundo. As letras de Cobain eram o perfeito reflexo desse ponto de interrogação que pairava  sobre aqueles jovens. Petardos como ‘Come As You Are’, ‘Breed’, ‘Territorial Pissings’, ‘On A Plain’ se tornaram hinos. E a já conservadora MTV americana teve que se curvar diante daquela revolução.

O Nirvana em nada se parecia com os astros do hard rock vigente. Muito pelo contrário. Os integrantes não tinham nenhum traço do glamour dos cabeludos cheios de lantejoulas e extravagância. Eram desgrenhados, usavam camisa de flanela e jeans rasgados. E isso se tornou logo um uniforme daquela geração.

Depois de Nevermind, o rock alternativo passou a ditar as regras e a cena rock de Seattle ganhou as atenções do mundo todo, com seis anos de atraso. A ponto de bandas migrarem para lá a fim de ganhar notoriedade, e bandas de outras partes do país serem catapultadas para o mainstream por fazerem um som semelhante. Até a inglesa Bush ganhou destaque por destoar do nascente brit pop (que iria sacudir o mundo na segunda metade daquela década) e adotar uma sonoridade semelhante à do Pearl Jam.

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Na sequência, ainda sob os holofotes da midia, o Nirvana lançaria mais dois discos: a compilação de raridades “Incesticide”, “In Utero”, além do “Unplugged”. O formato acústico da MTV já estava consolidado, mas o Nirvana fez dele algo ainda maior. E logo em seguida veio o suicídio de Kurt Cobain. Depois, várias bandas seguiriam os passos do Nirvana. O punk voltou a ser a ordem do dia e o alternativo era a bola da vez. Para muitos, Nevermind foi o último disco realmente relevante da história do rock.

A verdade é que, após esse um quarto de século, o disco não datou. Continua agressivo, perigoso e tortuoso. E a capa trazendo o bebê Spencer em uma piscina, atraído por uma nota de dolar (a ideia inicial era de uma mulher dando à luz na água, mas foi rejeitada pela gravadora) continua sendo um ícone da cultura pop. Cogitar como seria se Kurt Cobain ainda estivesse vivo e a banda fizesse uma turnê de reunião para comemorar a data seria injusto demais, embora seja irresistível. O mais justo é revisitar o álbum e ficar com a última frase de ‘Smells Like Teen Spirit’ ressoando da mente: a denial! a denial! a denial! (em tradução livre, “uma negação”).

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Publicado por Cesar Monteiro

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