Após anos atuando na Aldo, The Band, dupla que fundou com o irmão André em 2013 e escolhida para abrir para o Radiohead no Brasil em 2018, Murilo Faria (Mura) apresenta o seu projeto solo Heal Mura. E, para celebrar em grande estilo a nova etapa, no dia 24 de janeiro, lança seu álbum de estreia The Limited Repetition Of Pleasure.
Resultado de uma pesquisa aprofundada de ritmos, melodias e samples de diferentes procedências globais – ainda que sempre conectadas às raízes eletrônicas e brasileiras do músico – o álbum surpreende a cada faixa. Para criá-lo, Mura baseou-se nas suas experiências psicodélicas, viagens pela Ásia e no seu processo pessoal com um curandeiro brasilero.
“O disco e o projeto são inspirados pelas minhas experiências psicodélicas de cura e ressignificação após algumas imersões intensas com um misterioso xamã brasileiro completamente maluco e fora desse plano, pelo budismo theravada, por algumas viagens pela Ásia que fiz ao longo dos anos”, conta Mura.
A concepção e a produção de The Limited Repetition Of Pleasure envolveu o estudo de ritmos, instrumentos e estilos pouco conhecidos no mainstream, mas que possuem um profundo significado espiritual para os seus respectivos povos. Nas faixas “Neti Neti” e “Heal”, por exemplo, há elementos da música usada pelos Bwiti em rituais de Iboga no Gabão. A investigação de samples também alcançou tesouros secretos da música brasileira, como “Danado Cantador”, do paraibano Fernando Falcão, citada em sample de “Nimitta”.
“Wu Wei” foi o single de estreia, em julho de 2024, pelo badalado selo alemão Traum Schallplatten, responsável por lançar artistas como Max Cooper e Nathan Fake. Em outubro, Mura apresentou para o público a canção “Thong Len”. E “Tantrum” ganhou uma versão, ainda inédita, do icônico DJ e produtor musical Renato Cohen.
“Digamos que esse disco tem essa segunda camada: grande parte dele foi concebida para ser ouvida em um estado alterado de consciência. Ouví-lo em fone de ouvido deixa a experiência mais imersiva… Eu usei bastantes texturas binaurais e fui atrás das técnicas de alguns artistas que sempre me levaram para esse lugar (Brian Eno, Aphex Twin, Chemical Brothers, Moderat, Four Tet, Jon Hopkins)”.
FAIXA A FAIXA POR HEAL MURA
1. More Pillows Than Heads
Essa foi a primeira música a ficar pronta e a letra foi inspirada parte no Tom Zé (Defeito de Fabricação) e parte em uma frase de uma pessoa que foi CEO da AT&T – Robert Greenleaf. Até hoje eu não sei como cheguei nessa frase e não sei como uma pessoa capaz de fazer uma frase dessas tenha sido CEO da At&T, mas para mim, foi o mantra que me acompanha até hoje (é muito longo para colocar aqui).
2. Neti Neti
Essa música foi inspirada na música Bwiti (disciplina espiritual seguido por povos que residem na grande maioria no Gabão na África), tocada em rituais de Iboga na região. Eu nunca tinha ouvido nenhum ritmo próximo disso. Me lembrou quando ouvi J. Dilla e Flying Lotus pela primeira vez… Daí me veio a ideia: e se a música Bwiti tivesse o beat do J. Dilla ou doFlying Lotus? Produzir como esses dois já é uma tarefa difícil, mas incluir a música bwiti no meio foi um dos maiores desafios da minha vida. Entender e reproduzir esse ritmo e colocar em um contexto eletrônico foi uma tarefa árdua.
3. Wu Wei
As redes sociais criaram seres humanos que falam e amplificam muita merda. Essa música teve como inspiração “influencers” que sempre falam muito e não dizem nada.
4. Sloopy
O Four Tet veio tocar no Brasil quando ele ainda era relativamente desconhecido. Não tinha muita gente no lugar, mas quem estava, não esquece do que ouviu.
5. Tide
A principal inspiração dessa música é Philip Glass.
6. Awake
Homenagem ao nascimento da minha, que trouxe a resposta para todas as minhas perguntas.
7. Tantrum
Sou muito fã do Renato Cohen e ele já tinha feito alguns remixes pro Aldo. Tive ele como inspiração e, ironicamente, ele escolheu essa música para remixá-la
8. Thong Len
Eu amo a psicodelia do Brian Jonestow Massacre e a fase psicodélica dos Beatles. “Tomorrow Never Knows” está no meu top 5 de melhores músicas do mundo. Quando o Aldo abriu para o Radiohead, o Flying Lotus estava no line up e depois foi discotecar em um inferninho de SP e fui na caravana. Eu fiquei em choque com aquele som naquele lugar. A música dele é cósmica (talvez por ter sido Sobrinho-neto da Alice Coltrane) e a forma como ele consegue inserir a psicodelia nos beats quebrados á la J Dilla ficaram comigo desde aquela noite (da qual acho que estou me recuperando até agora).
9. Nimitta
Essa música tem um sample do Fernando Falcão (música “Danado Cantador”) que me pegou de primeira. Ela é a base para adicionar uma cacofonia insuportável. Nimitta é um termo budista na língua pali e diz respeito a um estado meditativo em que imagens de uma luz clara começam a aparecer na tela mental. Daí veio a pergunta: será que alguém que mora em uma cidade caótica, barulhenta e perigosa como São Paulo já conseguiu ter o mínimo de paz e chegar nesse estado?
10. Aiming High
Quando o Aldo tocou em Liverpool, nós passamos por Manchester. Só de passar pela cidade eu fique impregnado pela história musical do lugar
11. Heal
Mais uma inspirada no transe que a música Bwiti gera.
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