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Big Gilson, ícone do blues brasileiro, comemora 30 anos de carreira

O blues brasileiro nunca teve o mesmo espaço na mídia que outros ritmos como a bossa nova, o pagode ou o sertanejo. Pode até ser que o som criado nas plantações de algodão do Sul dos Estados Unidos no século XIX não seja visto como algo natural para o brasileiro. Mas um país que já teve (e tem) artistas do calibre de Celso Blues Boy, Baseado em Blues, Blues Etílicos e Big Gilson não pode relegar a qualidade da música produzida por essas bandas.
Gilson Szrajbman, o Big Gilson, guitarrista, cantor, compositor e um dos maiores nomes do gênero do Brasil, já tendo tocado e recebido elogios do mestre B.B. King, que disse: “Quando vejo um jovem tocando blues tão bem assim e tão longe da América, sinto que minha missão nesta vida está cumprida”, completa 30 anos de estrada com uma série de shows e um disco autoral. Fundador do grupo Big Alambik, responsável por ótimos trabalhos como Blues special reserve (1993) e Black Coffee (1995) — que infelizmente estão perdidos, já que não estão disponíveis no formato físico ou nos serviços de streaming —, Big Gilson se apresenta no Blue Note RJ, nessa sexta-feira (dia 18 de maio). O show mescla canções do seu 13º disco, o ótimo XXX, e sucessos da carreira solo.

Movido a desafios

Big Gilson, que além do Blue Note, também sobe no palco do Rio das Ostras Jazz & Blues Festival, no dia 31, segue o conselho de Muddy Waters e está sempre em movimento para não deixar o limo crescer.
– Não gosto de seguir a maré. Sou movido a desafios. Estou preparando um DVD desse show, que gravei no Mississippi Delta Blues Festival (em Caxias do Sul, RS), no fim do ano passado. As apresentações do Blue Note e do Rio das Ostras Jazz & Blues Festival (no fim de maio) serão praticamente prévias desse DVD, com algumas músicas extras. O bom dessas apresentações é que eu já sei quais músicas funcionam ao vivo, deixando o setlist bastante poderoso. Há algumas canções clássicas que faço versões que as deixam com a minha cara, soando praticamente novas – explica o guitarrista.

Sempre repaginado, sempre renovando

Gilson é daqueles músicos que muitas vezes é mais reconhecido lá fora que no Brasil, já tendo tocado com alguns dos maiores nomes do blues.
– Faço muitos shows lá fora e até já tive convites para morar no exterior. Tive a sorte de viver grandes momentos, mas, pra mim, o highlight da minha carreira foi quando fui convidado para abrir o show do Johnny Winter, que é o meu mentor guitarrístico, que foi quem me inspirou a empunhar uma guitarra, e tocar com ele. Também foi inesquecível tocar com o Mick Taylor, subir no palco do clube do Buddy Guy – com ele na plateia – e abrir shows do Chuck Berry, no B.B. King Club, em Nova York (infelizmente recém-fechado) – conta.
Com as mudanças na indústria da fonográfica, viver de música no Brasil não é fácil. Viver tocando blues é mais difícil ainda, já que o estilo fica fora da grande mídia.
– O mercado, tanto lá fora quanto aqui está difícil. Blues nunca foi fácil, mas tem uma característica muito interessante: o público é fiel. Aqui no Brasil estão acontecendo muitos festivais e até mesmo os eventos de Food Truck travestidos de festivais ajudam a mostrar a música para um público diferente. O problema maior é mesmo a renovação do público. Por isso os festivais são importantes – diz Gilson, que acredita na renovação do estilo.
– O Joe Bonamassa é o top do momento, mas vira e mexe aparece alguém de quem eu nunca tinha ouvido falar e que arrebenta. Infelizmente, nem tudo chega ao nosso alcance. O próprio John Meyer, que é o Eric Clapton da atualidade, misturando o blues, o pop e o rock, tudo muito bem, ajuda a manter acesa a chama do blues. Quem gosta de música boa, gosta de música boa. Não adianta – sentencia.

O disco

XXX é o 13º disco de Big Gilson e mostra que o bluseiro caprichou na comemoração de seus 30 anos de carreira. Cantado totalmente em português (embora com alguns números instrumentais), XXX é explosivo, misturando rock e blues, como na faixa de abertura (Hey Você) e na também roqueira Xamã do Raul.
– Parti do zero nas composições para este disco. Tudo nele é material inteiramente novo. Seria muito mais fácil fazer um Best of ou regravar clássicos do blues, mas queria algo novo para mim e para o meu público– conta Gilson.
Mas o CD é eclético. Há até baladas (Canto), mas sempre baseadas em ótimos riffs de guitarra. A produção de Bacalhau Baca (ex-baterista dos Autoramas e Planet Hemp), as letras do parceiro Leão Leibovich e os convidados especiais – Jefferson Gonçalves (gaita), Sergio Rocha (guitarra) e do produtor Bacalhau Baca (bateria), entre outros – dá mais peso ainda a celebração musical de Big Gilson.
Disponível nas plataformas musicais e em algumas das ainda existentes lojas que vendem CD, XXX é daquelas obras que merecem ser ouvidas, seja pela excelência na execução, seja pelo momento histórico da carreira de um músico que pode ser considerado um orgulho nacional.

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