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Coletividade do projeto SUPERHEAVY aponta para melodias viciantes

Coletividade do projeto SUPERHEAVY aponta para melodias viciantes | Música | Revista Ambrosia

Impossível não cair no clichê do verso “a união faz a força” ao falar de SuperHeavy, projeto musical que rendeu um dos melhores CDs do ano. Projeto que foi mantido em segredo por mais de um ano, é a união de feras de nova e da velha música mundial, com temperos rítmicos (e até étnicos) diferentes mas nem por isso dissonantes, como comprovamos já na primeira ouvida do álbum.

Dave Stewart, ex-Eurythmics, teve a ideia de unir sonoridades num amplo trabalho coletivo e procurou por Mick Jagger, que se entusiasmou com a proposta e deram partida a aparente complexidade dos termos. A eles se uniram a cantora britânica Joss Stone, o cantor de reggae Damien Marley e o compositor A R Rahman (cujo trabalho mais notável foi a deliciosa trilha de Quem Quer Ser Milionário?).

Apesar de tudo soar superlativo no projeto (quase 30 dias em estúdio, dois anos de mixagens e um preciosismo na arte da capa, feita por Shepard Fairey, que vem a ser o criador do famoso cartaz “HOPE” de Barack Obama) o resultado sonoro é de uma simplicidade e organicidade melódica ímpar.

Ainda que, particularmente, eu tenha certa resistência com o reggae e a busca sonora indiana de Rahman por vezes fique na linha tênue com o folclórico, a mistura de tudo resulta num caldo de bastante personalidade, vide o vigor vocal de Joss, o cosmopolitismo de Stewart e o viés icônico de Jagger.

Coletividade do projeto SUPERHEAVY aponta para melodias viciantes | Música | Revista Ambrosia

O disco abre com a maravilhosa faixa homônima que serve como um arrojado cartão de visitas em letra ritmada que grita “On the rise and fall like the storm, We stand on jah man, we set the bar, because were heavy, superheavy”. A letra, descompromissada, e o som, que parte do épico para uma cadência prazerosamente grudenta, fazem da música a melhor representação da (se houver) pretensão do quinteto. Deveria ser a música de trabalho e não o reggae (apenas correto) Miracle Worker, que vem sendo trabalhada na mídia com o advento de um bem produzido clipe.

Energy, um misto da modernidade crônica de Stewart com o expertise de Jagger é uma rockzinho delicioso, que denota que o grupo se divertiu muito nessa produção. E One Day One Night mostra o líder dos Rolling Stones vívido como nos bons álbuns lisérgicos da banda na década de 70.

É curioso notar como cada um deles exerceu o seu melhor no decorrer das 16 faixas do cd. Joss Stone é o esteio na catártica Beautiful People, o rebento de Bob Marley influenciou iminentemente na faixa de trabalho, o astro indiano universalizou a “estética de seu povo” na idiossincrática (e persuasiva) Mahiya, Dave Stewart traz um quê psicodélico a I don’t mind e Jagger… Bem, ele é o bom e velho Mick Jagger na “rollingstoniana” I can’t take it no more. Mas é divertido identificar o quão consistente esse liquidificador pode ficar em faixas como a irresistível Commom Ground, cujo resultado alcança uma particularidade que dificilmente veríamos em seus trabalhos solos.

A grandeza da despretensão de Superheavy é que a junção ali não está a serviço de um acumulo de referências, mas sim de uma (muito) bem azeitada customização de estilos que, dentro da propriedade de seus elementos, desaguam numa uniformidade tão legítima quanto implacável aos nossos ouvidos. É de viciar.

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Publicação Renan de Andrade