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Crítica: Jack White se mantém alheio a modismos em Lazaretto

Foi antes até do que se esperava. Não havia data certa para um novo lançamento de Jack White, mas ele mais uma vez surpreendeu a todos em abril, anunciando junto com uma faixa inédita, que seu segundo trabalho solo, Lazaretto (Columbia / Sony Music Entertainment / Third Man Records, 2014) sairia em junho. Com muita personalidade, o ex-líder do duo White Stripes e da banda The Rancounteurs – talvez não possamos dizer ex, pois não é impensável White volte aos projetos um dia, continua fazendo ouvidos moucos ao mercado fonográfico e à atual cena rock pasteurizada. No seu estojo? Rock da melhor qualidade, seguindo fielmente a cartilha ensinada por Allman Brothers, The Faces e Led Zeppelin. E de quebra, já é lançamento em vinil mais vendido nos EUA dos últimos 20 anos. Desde Vitology do Pearl Jam que um lançamento no formato não vendia tanto.

Felizmente, apesar de aparentemente estar batendo na mesma tecla, White não soa repetitivo e nem ‘cover’. Seu som, até devido à honestidade com que é produzido, tem cara própria e é facilmente identificável. E traz até mesmo algumas novidades, como por exemplo, a quarta faixa, Would You Fight For My Love que mostra arranjos que fogem ao que estamos acostumados na sonoridade do compositor e guitarrista.

A primeira faixa a ser divulgada havia sido High Ball Stepper, um instrumental baseado em guitarras, overdubs e outros efeitos, cheio de texturas, mostrando a faceta experimental do artista. Three Women, a faixa título, e Temporary Ground, que abrem o disco, servem de cartão de visitas para o cantor, não fugindo nem uma nota do que White costuma apresentar.

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Just One Drink, a sexta faixa, se reveste de um power rock devastador e garageiro mas com interessantes nuances country, e destaque para o violino de Lillie Mae Rische. Já a faixa seguinte, Alone In My Home, é uma composição “beatlesque” daquelas criadas por Paul McCartney, e lembra também o estilo que o ex-Beatle seguiu adotando em sua carreira solo, principalmente nos primeiros discos. A letra também apresenta o viés lúdico similar ao de McCartney (“I’m becoming a ghost/ Becoming a ghost/ So nobody can know me” – “Estou virando fantasma/ Virando fantasma/ Então ninguém pode me conhecer” ), além de valorizar uma vultuosidade melódica, mesmo inserida em uma estrutura simples.

Também vale destacar Entitlement, um delicioso folk rock, à la Stones ali pelo início dos anos 70, na fase “Sticky Fingers” e “Exile On Main Street”, uma levada sonora que lhe é muito cara. Inclusive, não por acaso, White subiu ao palco no show dos ingleses em 2006 para tocar junto com eles uma faixa de Exile, Loving Cup. A performance foi registrada pelas lentes de Martin Scorcese no show-documentário “Shine A Light”. Black Bat Licorice é uma parente próxima de Blue Orchid, do álbum de 2005 dos Stripes, Get Behind Me, Satan.

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A trinca final do álbum, constituída das baladas I Think I Found A Culprit e Want and Able, é o módulo menos inspirado, sem comprometer o resultado da obra como um todo, apenas não acompanha o grau de excelência das faixas anteriores. O curioso é que os temas e letras das músicas de Lazaretto foram tiradas de contos que White escreveu aos 19 anos.

Em última análise, o que temos aqui é o artista bem amparado por uma ótima banda de apoio, e é, claro, uma produção impecável, mas nada disso surtiria efeito se White não estivesse maduro e à vontade em seu papel de músico solo, o que procede totalmente, visto que suas bandas anteriores estavam se tornando pequenas para acomodar sua criatividade. Seu primeiro álbum solo, Blundebuss, já evidenciava isso.

Por ora torcemos para que Jack White continue sua jornada na contramão do pop rock americano atual, onde ainda se ouvem ecos da geração Seattle diluídos em uma massa insossa, e bebendo no que o passado proporcionou de melhor para o gênero. O resultado é a prova de que reciclagem nem sempre significa falta de criatividade ou frescor. Se for bem feita, soa atual e relevante.

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Publicado por Cesar Monteiro