Música

Deep Purple faz show dentro das expectativas no Solid Rock

Houve um tempo em que os gigantes caminhavam sobre a Terra. Tratava-se das bandas que tiveram seu auge nos anos 60 e 70 e influenciaram tudo que se fez no rock até hoje. Talvez por saber que os dinossauros estão prestes a se extinguir (uns estão morrendo, outros estão no outono/inverno de suas vidas), festivais juntando essa turma das antigas têm se tornado constante. Celebrar os pilares do rock enquanto eles ainda estão por aqui é a palavra de ordem. Daqui a alguns anos, em um futuro distópico, a maior banda do mundo será o Coldplay. Desert Trip, São Paulo Trip e o Solid Rock, que teve sua etapa carioca na última sexta-feira (dia 15/12), cumprem a tarefa de nos dar os últimos momentos desses artistas do chamado Classic Rock. No palco da Jeunesse Arena, se sucederam, na ordem, Tesla, Cheap Trick e a atração principal, o Deep Purple, em sua turnê de despedida (até segunda ordem).

Como toda atração de abertura, os californianos do Tesla foram prejudicados pelo horário e pela ausência de seu público. Na verdade, seu público no Brasil é ínfimo. Porém marcou presença no gargarejo. Em uma apresentação de aproximadamente 50 minutos, desfiaram seu rock básico de raiz, cheio de bossa Rythm & Blues e folk e forte acento setentista. Formada em 1981 o Tesla debutou em 1986 e a canção de maior execução por aqui foi ‘Signs’. O público que aos poucos chegava à arena recebeu positivamente.

Com a casa bem mais cheia subiu ao palco o Cheap Trick. Apesar de não ser banda de abertura e sim co-headliner, a tarefa do quarteto americano foi tão ingrata quanto a do Tesla. Eles vieram em substituição do Lynyrd Skynyrd, que cancelou a vinda à América Latina devido à saúde da filha do vocalista. Bem menos popular no Brasil do que os autores de ‘Sweet Home Alabama’, o Cheap Trick tinha como grande trunfo no repertório apenas o tema da série “That’s Seventies Show” (‘In The Street’) e o maior clássico da banda, ‘Surrender’. Mas também recorreu a covers de Lou Reed a Fat Domino. Para ganhar a plateia, chuva de palhetas patrocinada pelo guitarrista Rick Nielsen. Show honesto, mas não memorável.

Mas estava todo mundo ali para assistir a última atração. Logo após o telão exibir uma imagem com a cara dos integrantes esculpidas em uma montanha gelada (em referência ao álbum “In Rock”), adentram no palco os cinco integrantes executando logo de cara o clássico energético ‘Highway Star’ do essencial “Machine Head”. Ainda do álbum de 1972 veio a segunda música, ‘Pictures of Home’. A primeira do álbum “In Rock” foi Bloodsucker, seguida de ‘Strange Kind of Woman’ do disco “Fireball”.

Dando uma pausa nos clássicos, veio ‘Uncommon Man’. A faixa do álbum “Now What?” de 2013 é uma homenagem ao lendário tecladista John Lord, que imprimiu uma significante identidade à sonoridade do Purple e faleceu em 2012. Depois de um momento virtuose do tecladista Dan Airey fazendo um longo solo (com direito à música brasileira e tudo), foi apresentada ‘Birds of Prey’, única música do último álbum “inFinite”, lançado nesse ano. Duas faixas do disco “Perfect Strangers” (1984) se sucederam (com um solo de teclado no meio): ‘Knocking at Your Backdoor’ e a faixa-título.

Encerrando o tempo regulamentar, ‘Space Trucking’ e o clássico absoluto ‘Smoke on the Water’, com o guitarrista do Cheap Trick Rick Nielsen voltando ao palco. Sua guitarra em nada acrescentou à música, mas o clima de festa fez valer a pena. No bis (que não demorou quase nada para acontecer) foram executados o cover de Joe South ‘Hush’ e a saideira da noite, a clássica ‘Black Night’.

Essa foi provavelmente a última chance do público brasileiro de conferir um dos vértices da santíssima trindade. O Black Sabbath se despediu há um ano, e uma volta do Led Zeppelin está ficando cada vez mais improvável. No palco John Lord faz bastante falta, embora Airey esteja fazendo um belo trabalho. No mais, a cozinha de Ian Pace e Roger Glover continua afiadíssima. Steve Morse segue confirmando ser um substituto à altura de Richie Blackmore. Já Ian Gillan ainda consegue atingir muitas notas agudas, mas de forma bastante comedida. Afinal, já não é mais um garoto (completou 72 anos em agosto).

Um show sob medida dentro da expectativa do público, foi o que o Deep Purple entregou. As várias gerações de roqueiros presentes na arena da Barra da Tijuca saíram cientes de ter assistido a um importante fragmento da História do rock.

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