A Rio 2C reuniu em um painel três figuras lendárias da arte da gravação em estúdio: o americano Ed Cherney, que tem no currículo álbuns dos Rolling Stones entre 1998 e 2006 (os discos de estúdio “Bridges to Babylon” e “A Bigger Bang” e os ao vivo No Security e Four Flicks, além da cletânea 1971-2006),  Geoff Emerick, que trabalhou com os Beatles na fase mais audaciosa do fab four, em obras essenciais como “Revolver” e “Sgt Pepper’s”, e Moogie Canazio, que foi engenheiro de som de João Gilberto. Eles estiveram presentes sob a mediação do compositor e cantor Zé Ricardo e falaram sobre o ofício, que muita gente não conhece bem. O engenheiro de som é o responsável pela técnica da gravação, manipulação, mixagem e masterização do som. Ou seja, o artista cria, o produtor molda e o engenheiro usa sua técnica para viabilizar toda a mágica. 

Geoff começou sua carreira na música clássica e foi para o estúdio gravar com os Beatles em quatro canais. A abordagem era de amor à música e não tanto técnica. Ele diz que os rapazes mergulhavam na criação. Sua tarefa era permitir que as ideias tomassem forma como em ‘Tomorrow Never Knows’, no álbum “Revolver” em que John Lennon pediu que sua voz soasse como se fosse Dalai Lama cantando do alto de uma montanha, o que foi conseguido com loopings (Paul McCartney gravou uma fita dando o efeito), colocando o microfone próximo ao baixo.

Os três deram pequenas amostras de seus trabalhos no painel, executadas no impecável sistema de som da sala Petrobras da Cidade das Artes. Ed mostrou a música ‘I Can’t Make You Love Me’, canção escrita por Mike Reid e Allen Shamblin e interpretada por Bonnie Raitt em seu álbum de 1991 “Lucky of the Drawn”. Moogie apresentou um comercial de pianos Yamaha. Já Geoff veio com ‘The End’, do álbum “Abbey Road” dos Beatles. É irresistível abrir um pequeno espaço no texto para dizer o quanto esse beatlemaníaco que vos escreve se arrepiou ao ouvir o clássico com um som tão perfeito. Logo depois ele explicou como foi gravado o solo de guitarra. Foi George Harrison, John e Paul em um take só.

Geoff Emerick, engenheiro de som dos Beatles

Perguntado sobre como eram os rapazes de Liverpool no estúdio ele revelou que Ringo Starr tocava 12 horas se fosse preciso, John se contentava com 95% dos resultados e Paul era exigente, queria 110%. Também revelou que naquele período o líder criativo era mesmo Paul.

Sobre gravar com os Stones, Ed contou que o melhor a se fazer é ficar invisível e capturar o que eles fazem. Eles passam um tempo no estúdio, uma ou duas horas, tocando blues de Chicago. Muito material acaba saindo daí. Também lembrou da mixagem do show da praia de Copacabana e do show no Madison Square Garden. Na ocasião eram duas noites e ele achava que com o trabalho da primeira, daria para “tirar uma folga” na segunda. Só que no segundo show, a apresentação foi completamente diferente.

Moogie Canazzio, engenheiro de som de João Gilberto

Moogie lembrou sua experiência de gravar com João Gilberto, que ele define como o cara mais generoso e disciplinado com quem ele já trabalhou. A fama de maluco do baiano se dá muito pelo fato de ele querer fazer sempre  melhor. “João é preocupado com cada nota que ele coloca no violão. Ele tem absoluto controle desses detalhes. Não abre mão disso. É por isso que ele é tão admirado e gente como Eric Clapton quer gravar com ele.”

Sobre as novas tecnologias Ed disse que é bênção e uma maldição. Segundo ele, você pode ter todo um aparato tecnológico, mas isso não vai fazer uma coisa ruim se tornar boa. Moogie  que da new technique que ele tem usado, de new não tem nada. Ele tem lutado para manter o convívio musical no estúdio. A tecnologia criou um processo de isolamento, pois é possível gravar os instrumentos em casa. Quando se encontram para mixar nem sempre tem a simbiose que precisa ter. Geoff salientou que o foco deve ser no que você mesmo cria.

Ed Cherney, engenheiro de som dos Rolling Stones

Perguntado quanto ao futuro da estética sonora, Geoff afirma ser da turma do analógico. Quando começou a usar o digital parecia uma coisa alienígena. Parecia que tinha algo diferente, que tinha perdido a emoção, a profundidade e as tonalidades que se tem no analógico. Eu entendo como isso pode fazer uma diferença hoje em dia, mas nós às vezes temos que bater o pé:’não, é analógico e custa tanto’. E, mais uma vez, eu entendo a pressão que se tem, mas eu gosto é do analógico. E na hora da mixagem a gente consegue ver a diferença. A gente compara um com o outro e é absurda a diferença.”

Já Ed trabalha com a combinação do análogo com o digital. “Sem querer discordar do Geoff, mas já discordando, a tecnologia de hoje já traz recursos que nos permite algo bem próximo do analógico. Antigamente a gente tinha conversores muito ruins, hoje são bem melhores.” ressaltou.