Lynyrd Skynyrd abraça o tributo com resiliência e orgulho

Saiba sobre o show do Lynyrd Skynyrd no Rio de Janeiro. Saiba como a banda honrou Ronnie Van Zant e Gary Rossington em uma noite histórica de clássicos e resiliência.


Lynyrd Skynyrd Rio

Com homenagem emocionante a Gary Rossington e ‘dueto’ entre os irmãos Van Zant, lenda do Southern Rock celebra seu legado em noite de casa cheia no Rio de Janeiro

O Lynyrd Skynyrd é uma banda marcada por uma tragédia. É impossível ouvir o nome — uma brincadeira com um professor de educação física rigoroso de uma escola na Flórida, Leonard Skinner, que punia alunos de cabelos compridos — sem que venha imediatamente à mente o acidente aéreo de 1977, que ceifou a vida do vocalista e líder Ronnie Van Zant, do guitarrista Steve Gaines e da backing vocal — e irmã de Steve — Cassie Gaines. Tudo isso apenas três dias após o lançamento de seu quinto álbum.

Quem foi assistir a uma das maiores referências do rock sulista estadunidense no Qualistage, no Rio de Janeiro, na noite deste domingo de Páscoa (5), sabia que encontraria algo próximo de uma banda tributo, uma vez que, além das vítimas do trágico voo, outros membros também foram partindo ao longo dos anos. Essa encarnação do grupo, que ressurgiu em 1987 — dez anos após o que parecia ser o fim definitivo — e que tem Johnny Van Zant, irmão de Ronnie, à frente, perdeu o baixista original Leon Wilkeson, de causas naturais, em 2001; o guitarrista Hughie Thomasson, em 2007; o tecladista original Billy Powell, em 2009; o baixista Ean Evans, também em 2009, vítima de câncer; e, por fim, Gary Rossington, em 2023. Desta forma, não há mais nenhum membro original vivo. A única ligação mais direta com a fase clássica é representada pelo guitarrista Rickey Medlocke, que chegou a integrar a banda brevemente como baterista, mas nunca gravou discos de estúdio.

Mas o rock clássico vive, cada vez mais, de saudade e celebração. O público que aprecia a música de outras décadas abraça tanto bandas tributo quanto instituições que seguem ativas preservando esse legado. E o Lynyrd Skynyrd assume, sem rodeios, que seu papel em 2026 é defender a obra construída nos anos 1970 — com apenas uma faixa da fase posterior no repertório, ‘Still Unbroken’ (2009). O show, precedido pelas bandas Jayler e Dirty Honey, começou pontualmente às 21h30 com ‘Workin’ for MCA’, do álbum Second Helping (1974), cuja letra aborda de forma direta e irônica a relação da banda com a indústria musical. Em seguida, veio o primeiro grande hit da noite com ‘What’s Your Name’.

Com ‘That Smell’, presença constante nas rádios de rock, a plateia já estava completamente nas mãos do Skynyrd. Em sua estreia em solo carioca, Johnny Van Zant aproveitou para conquistar o público, dedicando ‘I Need You’ — ausente do repertório desde 2015 — às brasileiras presentes.

O que poderia soar como uma celebração protocolar do passado ganhou contornos mais emocionais na metade do show, com a homenagem a Gary Rossington. Durante ‘Tuesday’s Gone’, imagens do guitarrista foram exibidas no telão, acompanhadas da mensagem: “Para nosso líder, nosso irmão, nosso Free Bird”. Ao final, a frase “seu legado é eterno” reforçou o tom de despedida. Em seguida, o vocalista pediu que a plateia acendesse as luzes dos celulares para acompanhar ‘Simple Man’, outro dos momentos mais aguardados.

Como esperado, os maiores clássicos ficaram para o final. O hino southern rock ‘Sweet Home Alabama’ encerrou o set principal com coro massivo do público. No bis, uma estátua de pássaro posicionada sobre o piano já antecipava o desfecho: ‘Free Bird’. Antes de sua execução, o telão exibiu uma entrevista de Ronnie Van Zant nos anos 1970, intercalada com imagens da banda antes da tragédia. Na segunda estrofe, Johnny se afasta do microfone — adornado com chapéu, bandanas e bandeiras — e o vocal passa a ser conduzido por Ronnie, em imagem e som remasterizados, acompanhado pela banda ao vivo. Um recurso semelhante ao utilizado por Paul McCartney ao lado de John Lennon em “I’ve Got a Feeling”. Um momento capaz de comover até o mais cético dos presentes. A apoteose veio com o famoso solo final, executado pelo trio de guitarristas (embora as guitarras pudessem estar um pouco mais altas na mixagem).

Como banda, o Lynyrd Skynyrd segue funcionando com eficiência, apesar das perdas. Os guitarristas Mark Matejka e Damon Johnson (substituto de Rossington desde 2021) formam um trio coeso com Medlocke. O pianista e gaitista Peter Keys chama atenção com um visual que mistura Tio Sam e Dr. John, enquanto a cozinha formada por Robbie Harrington e Michael Cartellone mantém tudo sólido. Destaque também para as backing vocals. Onde se esperava duas jovens trajando vestidinho preto estão Carol Chase e Stacy Michelle, duas mulheres maduras e extremamente competentes.

É com essa formação que o Lynyrd Skynyrd segue sustentando a longevidade de seu repertório, garantindo que o rock tradicional continue relevante. Pelo entusiasmo e pelo público presente no show, ainda deve levar um bom tempo até que essa chama se apague.

Setlist:

  1. Workin’ for MCA
  2. What’s Your Name
  3. That Smell
  4. I Need You
  5. Gimme Back My Bullets
  6. Down South Jukin’
  7. Saturday Night Special
  8. Still Unbroken
  9. The Needle and the Spoon
  10. Tuesday’s Gone
  11. Simple Man
  12. Gimme Three Steps
  13. Call Me the Breeze (J.J. Cale cover)
  14. Sweet Home Alabama (com intro de “Red, White & Blue”)
  15. Free Bird (Bis)