As dez gravações que deixaram sua marca no mundo da música
Marianne Faithfull morreu há exatamente um ano, em 30 de janeiro de 2025, aos 78 anos. Na vida pessoal, ficou conhecida por ter namorado Mick Jagger nos anos 60, e se tornaram o casal símolo da Swinging London. “You Can’t Always Get What You Want” e “Wild Horses” são duas das canções com letras inspiradas nela. Daí ficou conhecida como a “musa dos Stones”, já que também teve um relacionamento com Brian Jones, antes de mesmo de sua história com Jagger, e um breve envolvimento com Keith Richards (para se vingar da traição do vocalista com a então namorada do guitarrista). Mas Marianne também deixou um legado de composições e versões gravadas ao longo de quase seis décadas. Aqui você confere as mais emblemáticas.
Morning Sun (1965)
As músicas lançadas por Marianne Faithfull nos anos 1960 foram inconsistentes, provavelmente porque os produtores não sabiam bem que direção dar à sua música. Ela alternava entre canções folk suaves, como Cockleshells e What Have They Done to the Rain, e versões pop menos eficazes, como Is This What I Get for Loving You?. No entanto, em alguns momentos, ela conseguia ir além dessas limitações, infundindo sua voz refinada com uma melancolia profunda. Morning Sun, o lado B de This Little Bird, é uma canção delicada com uma harpa ecoante, mas a interpretação de Faithfull a transforma em algo profundamente emocional, tornando sua tristeza surpreendentemente real.
Sister Morphine (1969)
Escrita em parceria com Keith Richards e Mick Jagger, ‘Sister Morphine’ praticamente encerrou a carreira musical de Marianne Faithfull. Lançada como lado B do single ‘Something Better’ em 1969, a canção sobre dependência de opiáceos chocou tanto a gravadora que levou ao cancelamento do projeto. Parte do impacto veio de sua sonoridade crua e decadente: um country-rock instável, com a voz trêmula de Faithfull oscilando entre súplica e entorpecimento. Embora tenha regravado a música nos anos 70, a versão original permanece a mais marcante. A faixa aparece no álbum de 1971 dos Stones, “Sticky Finger”.
Broken English (1979)
O álbum Broken English não foi apenas um aguardado retorno, mas uma reinvenção completa. Seu som refletia as tendências do momento, como a New-Wave, distanciando-se da era que a tornou famosa. Faithfull parecia disposta a enterrar a nostalgia dos anos 60, narrando com certa satisfação como os excessos daquela época levaram à dependência, incluindo a sua própria. Na faixa-título, ela justapõe o idealismo político ao terrorismo, fazendo referência indireta ao grupo Baader-Meinhof – uma versão sombria de ‘Street Fighting Man’, dos Stones, com sua voz áspera sobre uma base eletrônica minimalista e guitarras marcantes.
The Ballad of Lucy Jordan (1979)
The Ballad of Lucy Jordan já circulava fazia um tempo, contando a história de uma dona de casa deprimida e possivelmente suicida. A canção foi gravada por Lee Hazlewood, Johnny Darrell e, mais notoriamente, pela banda Dr. Hook, colaboradora frequente do autor Shel Silverstein. No entanto, com uma base eletrônica minimalista criada por Steve Winwood, a versão de Marianne Faithfull eclipsou todas as anteriores. Enquanto Dr. Hook abordava a personagem com piedade, Faithfull transmitia uma empatia profunda. Mesmo sem experiência como dona de casa, ela conhecia bem a sensação de estar sem saída e ter desperdiçado o potencial da juventude.
She’s Got a Problem (1983)
Nem “Dangerous Acquaintances” (1981) nem “A Child’s Adventure” (1983) chegaram próximo do impacto de Broken English, embora tragam momentos marcantes, como ‘For Beauty’s Sake’, ‘Sweetheart’ e ‘The Blue Millionaire’. O destaque, porém, é a faixa de encerramento de ‘A Child’s Adventure’, ‘She’s Got a Problem’. Começa como uma canção de desamor suave, com violão, piano elétrico e baixo fretless, mas logo se revela um relato sobre o alcoolismo: “Will I see whiskey as a mother in the end… will I smash my brains with drinking?” Sem surpresa, não há final feliz, apenas uma aceitação resignada do destino.
Boulevard of Broken Dreams (1987)
Diante do fracasso comercial de seus álbuns anteriores, “Strange Weather”, produzido por Hal Willner, trouxe Marianne Faithfull se reinventando, agora como uma cantora melancólica interpretando canções de outros artistas. O álbum inclui standards, blues de Lead Belly, uma faixa escrita por Tom Waits e uma sombria regravação de ‘As Tears Go By’. O risco valeu a pena. Mas o destaque vai mesmo para ‘Boulevard of Broken Dreams’, já gravada por Tony Bennett e Bing Crosby, que ganhou um tom mais melancólico, como se viesse do palco de um clube noturno decadente.
She (1995)
Uma espécie de segundo ato de sua carreira solo, Marianne Faithfull confirmou sua habilidade de se unir a colaboradores de elite. Seu primeiro álbum de canções originais em 12 anos, “A Secret Life” foi uma colaboração com o compositor de trilha sonora preferido de David Lynch, Angelo Badalamenti, e também contou com contribuições líricas do dramaturgo Frank McGuinness. A canção She, o contraste entre o foco suave de Badalamenti e o arranjo orquestral muito fílmico – épico o suficiente para apoiar um solo de bandolim! – e a voz áspera da cantora empresta à adorável melodia e letra da música sobre um protagonista cujo exterior duro esconde uma necessidade desesperada de companheirismo um impacto emocional real.
Kissin Time ft Blur (2002)
Mais uma vez (e não a última), uma série de grandes nomes fizeram fila para trabalhar com Faithfull no Kissin Time: Beck, Jarvis Cocker, Billy Corgan, Dave Stewart. Os resultados foram notavelmente consistentes – parece um álbum, não um conjunto diversificado de colaborações – mas a joia é a faixa-título, justamente porque não soa como qualquer coisa que Faithfull tivesse gravado antes. A banda de apoio é nada menos que o Blur, e a música compartilha um pouco da sensação experimental daquele álbum, com baixo informado em partes iguais por dub e Krautrock, uma parte de guitarra hipnótica, backing vocals fantasmagóricos. É possível até identificar a voz de Damon Albarn ao fundo.
Crazy Love (2004)
Albarn apareceu novamente em “Before the Poison”, de 2004, mas é em grande parte um álbum dividido entre colaborações com PJ Harvey e Nick Cave, ambos em excelente forma. Cave co-escreveu a requintada ‘Crazy Love’ com Faithfull. Ostensivamente uma música sobre uma corrida romântica vertiginosa, ela atrai uma estranha incerteza nas mãos de Faithfull: a maneira como ela canta “Eu sei que de alguma forma você me encontrará” faz a frase parecer menos otimista do que desesperada e condenada.
No Moon in Paris (2018)
Esse não foi seu último álbum – o derradeiro trabalho foi “She Walks in Beauty”, de 2021 em colaboração com o multi-instrumentista australiano Warren Ellis, sua gravação foi interrompida por seu encontro quase fatal com Covid – mas, mesmo assim, “Negative Capability” tinha um senso de fim da linha e abandono. Apresentava Faithfull revisitando canções de toda sua carreira e refletindo sobre o tema mortalidade (em parte provocada pela morte de sua amiga Anita Pallenberg) e o envelhecimento. DIvidindo autoria com Ed Harcourt, ‘No Moon in Paris’ é de uma melancolia aguda, e reflete sobre memórias desbotadas e amores perdidos. Com uma voz quase agonizante ela canta “Tudo passa, tudo muda… é solitário.”









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