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Marit Larsen, a princesa nórdica do pop

A cantora e compositora, que explodiu mundialmente com o duo M2M e hoje possui sua própria gravadora, tem uma ótima discografia que merece uma boa escuta.

Uma princesa nascida no distante e gelado Reino da Noruega, vinda de berço esplêndido musical, indicada ao seu primeiro grande prêmio quando tinha apenas doze anos e tendo em seu currículo, aos catorze anos, um contrato com a gigante Atlantic Records, a carreira de Marit Larsen daria um filme. E dos bons.
Sua primeira banda foi aos oito anos, com sua melhor amiga, Marion Ravn. Quatro anos depois, foram indicadas ao Spellemannprisen (uma espécie de Grammy norueguês) pelo disco de músicas infantis que gravaram. Mais dois anos, contrato com a Atlantic Records e o primeiro hit mundial, Don’t Say You Love Me, trilha do primeiro longa do Pokémon. O disco de estreia do duo pop M2M, Shades of Purple, foi sucesso imediato, de crítica e público.

A princesa nórdica adolescente viajou o mundo em turnê, tocou na Disney, rodou os Estados Unidos abrindo shows para o Hanson (teve até um breve romance com o mais velho deles), depois voltou pro estúdio com sua amiga Marion e gravaram o segundo disco, The Big Room, ainda mais aclamado pela crítica do que o anterior. Entretanto, foi praticamente ignorado pelo público. O duo teve sua turnê junto da Jewel interrompida, a gravadora cancelou o terceiro disco e dispensou Marit, assinando um novo contrato milionário apenas com Marion, quem consideravam a real potência do duo. A amiga ficou com o contrato milionário e ela decidiu voltar a estudar e dar um tempo.
Aí que a história começa a ficar mais interessante. Ou melhor, a música, pois Marit Larsen é muito melhor sozinha do que acompanhada. Sua veia folk e seu pop orgânico não caberiam no M2M. Dizem as más línguas que o término do duo inspirou a excelente Don’t Save Me, seu primeiro hit número um em sua terra natal, já com a EMI anos depois. Uma bela de uma volta por cima.

Coincidência ou não, o primeiro disco solo de Marit, Under the Surface, fala muito de términos e, especialmente, de inseguranças. De fato, o tema insegurança permeia a maioria das músicas, inclusive a intrincada faixa-título – que a própria autora confessou ser autobiográfica. Vale mencionar que ela escreveu as onze músicas do álbum, assinando sozinha a autoria de sete delas. Além disso, fez os arranjos junto de seu produtor e tocou a maioria dos instrumentos. Foi responsável até pelo design da capa do disco. O resultado não foi nada menos do que espetacular.
Under the Surface é uma pérola da música pop. Uma pena que não tenha sido conhecido mundialmente como devia, embora tenha sido muito aclamado na Noruega. Marit, hábil ourives musical, lapidou estas canções com esmero e dedicação. Tem um estilo de composição sofisticado, refinado, orgânico. Seus arranjos são ricos e bem pensados, de complexidade delicada. É uma exímia melodista e talvez esse seja o seu ponto mais forte. Seus vocais frágeis trazem ainda mais humanidade a suas canções, que por si só já são potentes liricamente. Marit não tem medo de mostrar toda sua vulnerabilidade. É um disco despretensioso, honesto, aberto, confessional e, justamente por estas características, recheado de momentos de brilhantismo musical. É considerado, na Noruega, o segundo melhor disco da década de 2000, sendo responsável por torná-la a artista mais tocada no país em 2006.
Dois anos depois, veio o ótimo The Chase, que trouxe à Marit mais um hit número um não só na Noruega, mas também na Alemanha e na Áustria. If a Song Could Get Me You, de melodia vocal inspirada, um arranjo de adoçar os ouvidos e uma das mais belas pontes que já ouvi em canções pop, é seu maior sucesso internacional até hoje.
Esse disco é mais maduro que o anterior e mostra uma Marit mais segura, maliciosa e levemente vingativa. Além disso, é o disco de sonoridade mais doce e colorida em toda sua discografia. Marit tem uma gigantesca habilidade de fazer frases sombrias soarem leves, graças ao tratamento musical que dá às suas letras. É uma característica muito interessante neste disco, quase que um otimismo instrumental para contrabalancear algumas passagens de suas letras.
Todas as músicas são de sua autoria, apenas três entre as dez compostas em parceria. Este trabalho rendeu uma participação na premiação do Nobel da Paz, onde conheceu Jason Mraz, que a convidou pra participar de sua turnê por toda Europa. This Is Me, This Is You foi até tema de uma novela da Rede Globo e Addicted, uma improvável mistura de pop, folk, country e disco, rendeu comparações justas ao ABBA.

Após o sucesso estrondoso de If a Song Would Get Me You, que resultou em exaustivas turnês por vários países da Europa, Marit estava transbordando canções novas que não pôde terminar enquanto viajava. Tirou férias, pegou suas coisas e foi pra Nova York, onde passou vários meses sozinha apenas escrevendo canções.
Assim nasceu Spark, lançado em 2011. A solidão da megalópole provavelmente influenciou a atmosfera do disco. Spark é bem mais intimista. Não tem todo aquele otimismo colorido de seu antecessor, nem seu brilhantismo tímbrico. É um disco de transição, pois ainda há algumas músicas que lembram os trabalhos anteriores, como a radiante Don’t Move. Entretanto, What If traz uma sonoridade mais melancólica do que seus trabalhos anteriores. Já a composição em parceria com Teitur, I Can’t Love You Anymore, é considerada por ela a canção mais triste que já escreveu. Além de sucesso de crítica, também foi sucesso de público. Coming Home e Last Night renderam-lhe dois hits número um nas Filipinas, que é um lugar onde ela faz muito, mas muito sucesso. Aliás, vários países do sudeste asiático têm não somente um grande público apaixonado por Marit Larsen, mas também profundos devotos do M2M até hoje.
Em busca de uma sonoridade mais próxima de muitos dos discos que amava, ela foi para Nashville gravar seu quarto disco, When the Morning Comes, lançado em 2015. Deixou pra trás toda a equipe que a acompanhava até então, tomando a decisão de passar por mais um recomeço na carreira. Procurou novos parceiros para compor e assinou, pela primeira vez, a produção de seu trabalho. Este é o primeiro disco em que todas as composições são feitas em parceria. O resultado foi um álbum pop mais valvulado, com guitarras mais proeminentes e menos arranjos de cordas, mais minimalista ainda do que Spark. Marit saiu-se bem em seu desafio, inclusive sendo esse seu primeiro disco solo lançado nos Estados Unidos. Dentro da Noruega, sucesso de público. Nos Estados Unidos e em várias partes da Europa, definitivo sucesso de crítica. Todos os discos de Marit Larsen são sucessos de crítica em todo canto e de público na Noruega. When the Morning Comes ainda foi indicado a dois Spellemannprisen.
Ainda adolescente, enquanto fazia sucesso no mundo inteiro com o M2M, a princesa pop do Reino da Noruega ganhou três discos da rainha folk Joni Mitchell: Blue, Court and Spark e Ladies of the Canyon. O trabalho de Joni causou-lhe grande impressão e a seguiu pelos altos e baixos da vida, suas canções soando-lhe aos ouvidos como conselhos de uma irmã mais velha. Exerceu seu livre arbítrio e, muitas vezes, afastou-se desses conselhos apenas para perceber que Joni estava certa, no fim das contas. Joni Was Right, volumes I e II, foram EPs conceituais, cujas composições baseiam-se livremente na linguagem musical característica da compositora que a inspirou. Lançados em 2016, marcam uma profunda mudança em seu trabalho. Para manter maior controle criativo e livrar-se do incômodo bloqueio geográfico da gravadora, Marit lançou seu próprio selo. Estes EPs foram seus primeiros lançamentos mundiais.
Marit Larsen, a princesa nórdica do pop | Críticas | Revista AmbrosiaMarit Larsen, a princesa nórdica do pop | Críticas | Revista Ambrosia
Marit Larsen é uma artesã da música pop. Seu brilhantismo melódico, lírico e harmônico é admirável. Sua estruturação e arranjo musicais, impecáveis. Ela é uma artista que mantém o mérito de nunca haver se repetido em nenhum de seus discos. É considerada, na Noruega, uma pequena autoridade musical. Em todo seu trabalho, nota-se com clareza sua fidelidade ao som mais acústico e orgânico possível. Ela chegou a dizer que o som sintetizado tira a alma das coisas. E ela está certa, é claro. Cada artista tem a liberdade de criar a sua própria verdade.

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