Em conversa com o site sobre as cinco décadas do lendário quinteto, o pianista e compositor comenta bastidores, analisa a fusão de gêneros e reflete sobre o cenário musical atual
Quando a década de 1970 fervilhava no Brasil, um grupo de jovens instrumentistas decidiu colocar o choro erudito de Ernesto Nazareth e Jacob do Bandolim no mesmo espaço de criação que a energia cósmica de The Who, Yes e Jethro Tull. O resultado dessa mistura improvável foi A Cor do Som, formação que nasceu no convívio comunitário dos Novos Baianos e acabou se tornando um dos capítulos mais originais da música brasileira.
A semente da banda começou a germinar quando o grupo servia de apoio para Moraes Moreira em sua carreira solo a partir de 1975. Dois anos depois, sob a liderança dos irmãos Dadi e Mú Carvalho, ao lado de Armandinho Macêdo, Gustavo Schroeter e Ary Dias, o conjunto ganhou autonomia artística e batismo definitivo sugerido por Caetano Veloso.
Esse o meio século de caminhada do quinteto é repassado por Mú no livro Memórias Sintetizadas, que está sendo lançado pela editora Memorabília. “Moraes Moreira foi muito importante para a nossa história”, relembra o pianista, tecladista e compositor, em conversa com a Ambrosia. “Além de ter sido um grande parceiro, compus algumas músicas com ele que são hits definitivos, como ‘Swingue Menina’ e ‘Semente do Amor’.”

Essa capacidade de aliar virtuosismo instrumental e apelo popular rapidamente chamou a atenção dos grandes nomes da Tropicália. Se em 1977 o grupo já causava espanto no I Festival Nacional do Choro com a elétrica “Espírito Infantil”, os anos seguintes consolidaram a transição para as paradas de sucesso de todo o país, muito em função dos “presentes” recebidos de seus mentores.
“Caetano nos deu ‘Beleza Pura’ e ‘Menino Deus’, assim como Gilberto Gil nos deu ‘Abri a Porta’ — essa com Dominguinhos — e ‘Palco’. São todas músicas definitivas no setlist d’A Cor do Som”, destaca o músico.
A sonoridade única do grupo não demorou a romper fronteiras. Em 1978, A Cor do Som tornou-se o primeiro grupo brasileiro a se apresentar no prestigiado Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, gerando um disco ao vivo histórico. Essa liberdade para circular entre o erudito, o regional e o rock pesado foi a grande marca registrada da banda – um verdadeiro milagre de arranjos e ecletismo em uma época de intensa efervescência cultural.
Ao olhar para trás e tentar explicar como influências tão distintas conseguiram coexistir sem soarem artificiais, Mú é categórico: “Foi mesmo algo mágico entre os integrantes da banda. As influências dessas bandas de rock, assim como o choro, Gilberto Gil e Moraes… a gente colocou tudo isso no liquidificador. Somos um blend desses ícones da música mundial.”
Mesmo após décadas de projetos paralelos e uma sólida carreira de Mú como produtor de trilhas sonoras para a televisão e o cinema, o frescor do quinteto se provou atemporal. Em 2021, a gravação do autoral Álbum Rosa rendeu ao grupo o reconhecimento internacional com a conquista do Grammy Latino de Melhor Álbum de Rock ou Música Alternativa em Língua Portuguesa.
Apesar das celebrações e do orgulho por fazer parte dessa história, o tecladista não esconde certo ceticismo com a velocidade da indústria fonográfica atual. Ao comparar o ambiente criativo dos anos 1970 com a produção contemporânea, o músico reforça seu apego à identidade orgânica que consagrou seu trabalho:
“Eu sou vintage. Amo o que rolava nos anos 70, acho que foi uma década em que a liberdade e a criatividade eram algo único. Vejo o momento atual cheio de fórmulas, receitas de bolo, tudo muito parecido. Sinto falta de boas melodias. Mas é claro que, nesse cenário, também tem gente maravilhosa; só que precisa garimpar, porque nem sempre estão no mainstream.”

Entre memórias inéditas e o orgulho de um legado que influenciou gerações do pop e do rock nacional, a história de Mú Carvalho e A Cor do Som – sacramentados como testemunhas vivas de uma era em que a liberdade e a ousadia eram os principais ingredientes da música brasileira – é revisitada nas páginas de Memórias Sintetizadas.
