O que há por trás do épico de Bob Dylan ‘Murder Most Foul’ | Lançamentos | Revista Ambrosia
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O que há por trás do épico de Bob Dylan ‘Murder Most Foul’

Canção de 17 minutos é a primeira do artista em oito anos

Não é qualquer artista que lança uma música que é reverenciada como se fosse um álbum. Há de ser um artista da estatura de Bob Dylan. O trovador americano lançou nessa semana a faixa ‘Murder Most Foul’, um verdadeiro épico cheio de metáforas e referências históricas. Uma espécie de continuação espiritual de ‘Like a Rolling Stone’ e ‘Hurricane’.

Na tradução literal Um Assassinato Muito Sujo’ – claramente se refere à morte de John F. Kennedy, alvo de um atirador em 1963 – é a primeira música lançada por Dylan desde 2012, quando seu último álbum, “Tempest”, veio a público. São 1.376 palavras ao longo de 17 minutos (16 minutos e 56 segundos em contagem precisa), a música mais longa de sua carreira, um acinte em uma época de música descartável consumida gratuitamente via streaming (parece que até o outrora revolucionário download já é algo obsoleto).

‘Murder Most Foul’ é um verdadeiro desafio em tempos tão imediatistas. Dylan convida um ouvinte a acompanhar uma saga que tem o o assassinato do presidente Kennedy desencadeador, e faz um retrato um tanto obscuro de uma determinada época, apontando como salvadores – luzes no fim de um túnel sombrio – os Beatles, o John Lee Hooker, Patsy Cline, Woodstock.

A música é a salvação, na mitologia proposta por Dylan. Há referências ao The Who (mais precisamente a música ‘Acid Queen’ da ópera rock “Tommy”) e ao Festival Altamont, organizado pelos Rolling Stones e que terminou em confusão e até um assassinato pelos “seguranças” contratados, os Hell’s Angels.

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“Era um dia sombrio em Dallas, novembro de 63./ Um dia que viverá na infâmia. / O Presidente Kennedy estava no alto /. Um bom dia para viver e um bom dia para morrer”) e então ele recorda grandes acontecimentos da época, desenhando uma dramática história do declínio do Ocidente, exemplificada em seu país, os Estados Unidos. “Liberdade, oh liberdade. / Liberdade da necessidade. / Eu odeio dizer isso, mas apenas homens mortos são livres. / Envie-me um pouco de amor, não me diga mentiras”

Os versos são de arrepiar. A música tem um viés revisionista, mas também a constatação do fim de uma era. Pode ser sentido nos versos uma resignação de quem pode ser encarado como um fóssil, um elemento anacrônico, mas fazendo questão de ressaltar a importância daquele período para a formação cultural de hoje. Muito mais didático que nostálgico.

Um autêntico talking blues, estilo que sempre fora caro a Dylan, e que dialoga com seu contemporâneo Leonard Cohen, falecido em 2016. Uma gravação sofisticada, que não se sabe quando exatamente foi realizada, mas não deve ter muito tempo, e que foi uma grata surpresa. Poderia ter sido um álbum temático, alinhavando a história ao longo de 11 faixas, mas ele preferiu voltar aos holofotes dessa maneira inusitada, certamente já prevendo o impacto.

Próximo de completar 80 anos (faz 79 em maio) Bob Dylan não tem mais o que provar. Mas mostra que ainda é capaz de surpreender.

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