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Planet Hemp e Autoramas agitam o Circo Voador em noite de rock beneficente

Fotos: Patrícia Moura

O Hardcuore Fest foi um evento realizado na última quinta feira (dia 5/5), no Circo Voador,no Rio, que uniu dois dos maiores nomes do underground nacional dos anos 90: o Autoramas, com sua nova formação, e o Planet Hemp, que segue em uma gloriosa série de shows após sua reunião em 2012. A causa era nobre. A irmã de Gabriel Thomaz do Autoramas, a estilista Layana Thomaz, é portadora de um problema cardíaco congênito que demandou um caríssimo tratamento em um sistema de saúde longe de ser justo. Toda a renda do show foi revertida para o tratamento de Layana, inclusive as bandas abriram mão do cachê, apenas os técnicos receberam, e não houve lista VIP nem lista amiga.

A bela ação entre amigos não deixou de ter um cunho saudosista da época efervescente do rock de garagem. No início dos anos 1990, o rock nacional se encontrava de ressaca das vendas vultosas dos anos 80, com as principais bandas do mainstream refesteladas sobre os louros do establishment, e as grandes gravadoras queriam investir apenas no que havia dado certo. Para quem estava começando, a saída eram os selos independentes, e eventos que reuniam bandas, fanzineiros e afins em lugares como o próprio Circo (que em 1996 foi fechado pelo prefeito Cesar Maia) e o Garage, na rua Ceará, perto da Vila Mimosa, famosa zona de meretrício carioca. O Planet e os Autoramas se destacavam nessa cena, que também contava com nomes como Zumbi do mato, Tubarões Voadores, Gangrena Gasosa, Suínos Tesudos, Acabo La Tequila e outros.

MCsHCs
MCsHCs

A noite começou com os sumidos do MCsHCs, banda carioca que nos anos 90 se chamava Chatos e Chatolins. A apresentação serviu como volta do conjunto. Entre os shows, o DJ Marcelinho da Lua comandava as carrapetas com o melhor do rock, rap, soul, música boa em geral. O show dos Autoramas, com sua nova configuração de quarteto (a banda sempre foi um power trio), privilegiou as músicas do novo álbum “O Futuro dos Autoramas”.

Autoramas
Autoramas

A nova formação conta com Gabriel, único remanescente da formação original, que fica a cargo da guitarra e voz; no baixo Melvin, a ex-Penélope Érika Martins na guitarra e teclado e o ex-Raimundos Fred Castro na bateria. As músicas do novo trabalho como ‘Quando A Policia Chegar’, ‘Problema Seu’ e ‘O Que Você Quer?’ funcionaram ao vivo e foram bem recebidas pela plateia que já começava a lotar o espaço. Gabriel agradeceu a todos pelo suporte ao evento beneficente, e não deixou de lembrar a clássica ‘1, 2, 3, 4’ de sua antiga banda, Little Quail, além de clássicos da primeira fase do Autoramas como ‘Você Sabe’ e ‘Fale Mal de Mim’.

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A última atração subiu ao palco faltando três minutos para a meia noite e fez um show energético, politizado e, é claro, defendendo a bandeira da legalização da maconha. O Planet une a malandragem do samba carioca à La Bezerra da Silva com a cultura rap americana e o peso do punk, fazendo uma bem azeitada mistura de hip hop e hardcore com alguns contornos de partido alto levada no gogó por Marcelo D2 e B-Negão, que são apoiados pelo baixo preciso de Formigão, por Pedro Garcia na bateria e o novato Nobru Pederneiras na guitarra.

Assistindo ao show, nem parece que se passaram 20 anos do lançamento do primeiro disco, “Usuário”, pois as letras de protesto cabem perfeitamente no contexto atual, e muito menos que a banda ficou quase dez anos parada. Como enfatizavam D2 e B-Negão, shows no Circo têm uma atmosfera diferente, pois ali é como tocar em casa. O espaço viu a banda crescer e tomar o mainstream de assalto, inclusive os abrigou quando estavam proibidos de fazer shows em várias outras casas por conta de sua apologia à marijuana.

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Ao longo da carreira de três discos de estúdio, acumularam hits como ‘Legalize Já’, ‘Dezdasseis/Dig Dig Dig (Hempa)’, ‘Ex-quadrilha da Fumaça’, ‘Fazendo A Cabeça’ e ‘Queimando Tudo’ todos acompanhados pela plateia, apesar de serem verdadeiros trava-línguas. No calor do atual momento político, o posicionamento do Planet não podia ficar de lado. Os jovens que ocupam escolas e a Assembléia Legislativa foram lembrados, assim como o presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, afastado do mandato pelo STF na manhã do dia do show, a quem B-Negão dedicou um sonoro “vai tomar no c*”. Na letra da música Contexto, o nome do político foi colocado no lugar da palavra “lobo”, O aumento do teto salarial dos deputados estaduais do Rio de janeiro também foi citado, e ao deputado Jair Bolsonaro foi dedicada a música ‘Porcos Fardados’.

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O caráter beneficente do show também não foi esquecido e Layana foi chamada ao palco para agradecer pessoalmente às bandas, à plateia e a B-Negão, que foi o idealizador do evento. Também foram lembrados o Ratos de Porão com ‘A Crise é Geral’ Chico Science em ‘Samba Massoka’. O show foi encerrado com o hino ‘Mantenha O Respeito’, do primeiro disco.

O Planet Hemp mostrou ao vivo que continua tão relevante quanto há 20 anos, pois infelizmente as mazelas que combatem em suas letras ainda estão longe de arrefecer. Ao se despedir, B-Negão recomendou “usem camisinha e cuidado com a polícia, não necessariamente nessa ordem”. Parafraseando o título do segundo álbum da banda, os cães ladram, mas a caravana não para.

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