em

Rage Against the Machine e o maior problema do 1° dia do SWU: a interpretação

Já eram dez horas e dezessete minutos quando o alarme soou e a estrela vermelha de cinco pontas começou a subir no telão. O público, que ultrapassou os 47 mil, vibrou na mesma frequência que posteriormente as ondas sonoras produzidas pelos solos inconfundíveis de Tom Morello viajaram. E foi diante do testemunho de uma massa única de fãs fervorosos que a incomparável apresentação, ainda inédita em toda a América Latina, de Rage Against the Machine teve início. A canção de abertura? Testify. Qual outra?

Nem o frio cortante, que causava constantes tremidos involuntários sobre os membros dos corpos menos agasalhados desanimou o público – não por culpa da baixa temperatura, calcula-se que ela se manteve por volta dos 12 °C, mas os fortes ventos faziam com que a sensação térmica chegasse aos sete. Todos pulavam e berravam no mesmo tom que Zack de la Rocha, pronunciando os versos das canções politicamente engajadas que traduzem o caráter peculiar da banda quase como um sermão.

Os que não estavam dispostos a se unir e se entregar ao vibrar pulsante da multidão logo descobririam que o melhor lugar para assistir o show seria em uma área que se interpunha entre os dois palcos. Nem a área Premium fora tão segura àquela noite. Já ao final da primeira música era possível perceber o empurra-empurra que gerou a desordem que resultou em um conflito com os seguranças do evento, além de ferir alguns outros fãs não tão acostumados aos movimentos caóticos e revoltosos dos demais. Ao final da quarta música a apresentação foi interrompida, e Zack pediu aos fãs da pista Comum que tentavam invadir a área Premium que recuassem, alardeando para que todos preservassem a integridade de seus semelhantes. A ideia de invasão veio de um tópico na maior comunidade de RATM do Orkut, onde alguns fãs combinaram – desnorteados e confusos por ideais tão avançados e complexos de serem assimilados, como o comunismo e o anarquismo – de invadir a área VIP, que ficava mais próxima ao palco. Bela luta por igualdade. Interpretação: cada vez mais me convenço que este, na verdade, é o maior problema da humanidade.

Diante de letras que expressam tamanha fúria para com o sistema capitalista, incentivos à rebeldia e movimentos revolucionários, o Rage continuou sua sinfonia caótica, mostrando que o grupo ainda possui harmonia. Tom Morello deixou bem claro sobre o motivo de ser conhecido como um dos maiores guitarristas de todos os tempos, e Zack incendiou ainda mais o público com sua performance deveras energética. Após abrir com duas de suas mais famosas canções, Testify e Bombtrack, a banda dedicou People of the Sun ao MST, mostrando conhecimento acerca do movimento político-social mais forte do país; posteriormente, já ao final do show, Morello usou o clássico boné vermelho com a bandeira dos Sem Terra. A apresentação perdurou até que a limitação técnica não mais o permitisse; o som foi cortado no meio de duas canções, deixando os músicos tocando em um vácuo sonoro que impedia a apreciação do publico, uma das muitas causas que nos faz concluir que o evento foi mal administrado e desorganizado, além de ter uma proposta extremamente hipócrita – ei de discutir todos os pontos que concernem especificamente ao evento posteriormente, em outro post.

Apesar de todos estes impasses, Rage Against the Machine fez um show épico, e com certeza fez jus ao título de uma das melhores bandas de rock dos anos 90. Afinal, eles não têm culpa de tocarem em um evento desorganizado, ou de possuírem fãs tão… confusos?

Abaixo segue a setlist do show:

1.Testify
2.Bombtrack
3.People Of The Sun
4.Know Your Enemy
5.Bulls On Parade
6.Township Rebellion
7.Bullet In The Head
8.Calm Like A Bomb
9.Guerrilla Radio
10.Sleep Now In The Fire
11.Wake Up

Encore:

12.Freedom
13.Killing In The Name

3 opinaram!

Deixe sua opinião!
  1. Confusos? Eu teria outro nome para fãs tão fracos em interpretação, mas prefiro não cometer o mesmo erro que seus companheiros de idolatria raivosos e escolho acreditar que as ações da massa naquela noite têm uma justificativa além do que eu possa compreender. De onde eu estava – uma área que se interpunha entre os dois palcos, talvez tenha te visto lá… -, o show pareceu um excelente espetáculo de arte e uma ótima amostra de performances épicas de artistas genuínos, perturbados por fãs que distorceram seus ideais e uma produção – SIM, paradoxalmente – capitalista. RATM tem mesmo letras muito complexas, mas o som pesado pode facilmente levar os mais desatentos a interpretações errôneas das críticas por eles apresentadas.

    Muito boa review. menino robô!

Deixe sua opinião

O cinema de carne de Cronenberg

Festival do Rio: Como Esquecer e sua natureza russa