Sol Invictus é o melhor trabalho do Faith No More em 23 anos

Um ano antes do estouro grunge de Seattle, a MTV exibia constantemente o videoclipe de uma banda que não estava nas paradas de sucesso, mas imediatamente cativou a todos. Era o Faith No More e o videoclipe era ‘Epic’, primeiro single do álbum The Real Thing, que acabou de ganhar uma edição de luxo. A…


Cd faith no more sol invictus

Um ano antes do estouro grunge de Seattle, a MTV exibia constantemente o videoclipe de uma banda que não estava nas paradas de sucesso, mas imediatamente cativou a todos. Era o Faith No More e o videoclipe era ‘Epic’, primeiro single do álbum The Real Thing, que acabou de ganhar uma edição de luxo. A banda chamava atenção com sua sonoridade que entrelaçava punk, metal, funk e hip hop, o que serviu de influência, mais tarde, para bandas como 311, Rage Against The Machine, que posteriormente influenciaram as bandas nü metal. O Faith No More foi criado em 1985, mas só chegou ao sucesso em 90, após a entrada do vocalista Mike Patton. Após 18 anos sem lançar um disco de inéditas, a banda de San Francisco está de volta com Soul Invictus (Reclamation Records/2015).

Ao ouvir um vocal soturno forjado por Mike Patton na primeira faixa, que leva o título do álbum, já é possível perceber qual é o tom que vai permear as 10 faixas espalhadas em 39 minutos. É aquele mesmo Faith No More que em Angel Dust virou as costas para o mainstream e endossou o feito já no título do álbum seguinte King For a Day Fool For a Lifetime (rei por um dia tolo para toda a vida). Digamos que o sucesso de The Real Thing tenha sido um acidente de percurso, pois de lá para cá fizeram questão de se manter à margem da crista da onda. Isso também fica explícito na segunda faixa ‘Sunny Side Up’ em que temos o característico crossover de funk com punk. Em seguida vem o rock vigoroso ‘Super Hero’. Cheio de guitarras agressivas e com destaque para o piano que também é uma marca registrada do FNM, a faixa remete instantaneamente ao estilo que ficou marcado com clássicos como ‘The Real Thing’, ‘Out of Nowhere’ e ‘Epic’.

Na soturna ‘Separation Anxiety’ temos a sensação de estar ouvindo a alguma sobra de estúdio de algum álbum de meados dos anos 90, daquele período pós-grunge em que as bandas flertavam com o industrial. Ao contrário das faixas de Chinese Democracy do Guns, que foram concebidas mais ou menos nessa época, a música consegue não soar datada. E o clima soturno se mantém na faixa seguinte ‘Cone of Shame’. A sexta faixa ‘Rise of the Fall’ traz um forte acento funk ao mesmo tempo acenando para o reggae, mas as guitarras não dão trégua, na cadência estranha para dizer o mínimo. Se bem que o que é estranho em se tratando de Mike Patton e companhia? O rockão ‘Black Friday’ faz crítica mordaz ao consumismo da data –“All the zombies walk on Black Friday” (Todos os zumbis caminham na Black Friday) – do jeito peculiar da banda, com guitarras distorcidas e bateria selvagem. O disco se encerra com uma trinca de músicas estranhas: ‘Motherfucker’, a épica ‘Matador’ e a derradeira ‘From the Dead’ , que com contornos teatrais é talvez a mais melódica do álbum.

O hiato de 18 anos não fez mal à banda. No estúdio, mostram entrosamento completo, como se o último álbum tivesse sido gravado há uns três anos. A guitarra de Jim Martin continua fazendo falta, mas John Hudson faz um trabalho competente. O baterista Mike Bordin e o tecladista Roddy Bottum, outros vértices da banda continuam brilhando, e Mike Patton, é claro, com seu vocal inconfundível indo a estranheza à técnica. Soul Invictus definitivamente não é um disco que irá ganhar as FMs brasileiras. O FNM enveredou por um viés mais alternativo depois do estouro e preferiu se manter em um quase anonimato por alguns anos, para agora ressurgir como lenda. A banda mudou e o mundo também. Não há mais lugar para eles nem mesmo nas rádios rock, não há uma faixa sequer com potencial de se tornar hit, mas isso não é nem de longe um demérito.

Soul Invictus, álbum que trará o Faith No More de volta ao Brasil depois de quatro anos (a última vez foi no SWU) é certamente o melhor trabalho desde Angel Dust, contribuindo de forma relevante ao legado da banda.