Yakecan, novo álbum de Viégas, chega às plataformas como uma obra sonora que não busca conforto nem conciliação. O disco nasce de uma pesquisa profunda sobre as matrizes que conformam a música brasileira, entendida aqui em sentido expandido — atravessada por heranças afro-diaspóricas, indígenas e ibéricas — para, a partir delas, construir uma leitura crítica e brutal do Brasil contemporâneo.
Essas referências não aparecem como citação, resgate ou homenagem. Em Yakecan, elas operam como matéria viva, tensionada, distorcida e reorganizada dentro de uma linguagem própria, marcada por instabilidade, fricção e ruptura. A música assume o papel de campo de conflito, refletindo a violência estrutural, o esvaziamento simbólico e a sensação constante de colapso que atravessam o presente.
O álbum é atravessado diretamente pela experiência vivida por Viégas durante o dilúvio que atingiu o Rio Grande do Sul, evento que impregna o disco de uma sensação permanente de insegurança, suspensão do futuro e ausência de horizonte. Inserido no contexto do Antropoceno, YAKECAN reflete um mundo em que a catástrofe deixa de ser exceção e passa a constituir o cotidiano — uma realidade marcada pelo colapso ambiental, social e subjetivo.
Nesse território sonoro, a violência não é apenas tema, mas força formal. Ela se manifesta na textura dos sons, nas estruturas instáveis, na exaustão rítmica e na sensação de sufocamento que atravessa o disco. Não há promessa de resolução. O que se impõe é a experiência crua de um mundo sem abrigo possível, onde corpos, territórios e tempos são atravessados por uma tormenta contínua.
É desse estado que emerge YAKECAN, nome que remete ao ciclone subtropical que atingiu o sul do Brasil. Aqui, o termo se desloca de seu sentido meteorológico para operar como imagem-síntese de um colapso permanente: uma força instável, violenta e recorrente, que não passa — apenas se difunde.
Sobre Viégas
A trajetória musical de Guilherme Viégas tem início em 2019, ainda sob o pseudônimo Cruell, com o lançamento do single “Meu Lindo Girassol”. Esse primeiro momento marca uma fase experimental e de inserção na cena independente, que serviria de base para o desenvolvimento de sua linguagem autoral.
Desde o início, Viégas atua de forma totalmente independente, assumindo todas as etapas de sua produção musical: composição, produção, gravação e mixagem. Essa autonomia técnica e criativa permite ao artista transitar por diferentes estéticas e referências sem abrir mão de uma identidade própria, marcada pela tensão entre tradição e experimentação.
A partir de 2020, passa a atuar sob o nome Viégas, consolidando uma identidade musical que dialoga com o rock alternativo e com referências regionais do sul do Brasil, especialmente da região platina e do pampa gaúcho. Essa fusão se torna um eixo central de sua obra.
Em 2022 e 2023, Viégas participa do Festival Rock e Poesia, em Camaquã (RS), evento de relevância no cenário musical regional, que já recebeu nomes como Os Replicantes e Acústicos & Valvulados. As participações reforçam sua inserção na cena cultural do estado.
Em 22 de setembro de 2023, lança seu primeiro álbum, Mal-Fatti, trabalho de caráter intrapessoal que aborda temas como trauma, sexualidade e cotidiano, acompanhado do videoclipe do single “Homostase”. O disco consolida sua estética singular, unindo rock alternativo e referências culturais do pampa.
Em 2024, Viégas muda-se para Porto Alegre, ampliando sua atuação na cena musical e concentrando-se na produção de YAKECAN, seu segundo álbum. Atualmente, o artista segue em atividade, realizando apresentações no interior e na capital do estado, enquanto desenvolve novos projetos.
Repertório
(todas as músicas são de Viégas)
Yakecan
Tremetreme
Sempre foi hostil
Karkará
Ya’luzia
Tumtuyutí
Parte o equinócio
Rasgo meu pulso
Venid a sospirar
Khamsin
Hadeano
Ficha técnica
Concepção artística, composição, letras, arranjos, instrumentação, produção e mixagem: Guilherme Viégas
Gravação:
Realizada majoritariamente no apartamento do artista, logo após as enchentes no Rio Grande do Sul.
Captações adicionais no Estúdio ALA B.
Masterização: Estúdio ALA B
Arte de capa: Matthe Dias
Lançamento: Independente
Assessoria de imprensa: Débora Venturini









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