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A casta dos Metabarões de Jodorowsky e Giménez

A Casta dos metabarões é uma série de quadrinhos composta por oito álbuns editados entre 1998 e 2003 pela Les Humanoïdes Associés. Alejandro Jodorowsky e Juan Giménez estão à frente da série. Leitura obrigatória para qualquer fã da nona arte, os oito álbuns que compõem a coleção oferecem um entretenimento visual e uma composição textual que edifica como uma das melhores graphic novels que já li, e que não poderia, como entusiasta do gênero, deixar de recomendá-la.

O protagonista icônico da obra, o Metabarão, foi um personagem coadjuvante de O Incal, a singular obra-prima que reuniu o célebre Moebius, falecido em março, e Jodorowsky. Na história era o último Metabarão que aparecia nas páginas das aventuras espaciais de John Defool. Como em O Incal, Alejandro Jodorowsky dispôs a Moebius a torrente de ideias reaproveitadas da tentativa que fez para adaptar a saga literária de Duna. Aqui o chileno faz do ponto de partida para o projeto da série as oito páginas em que o Metabarão aparece em Os mistérios do Incal. A partir daqueles desenhos de Moebius, Giménez, recriou e ampliou o personagem, estabelecendo a base de uma história sobre a dinastia dos Castaka.

O clã familiar e seus feitos são narrados historicamente por um robô, que conta em cada capítulo o relevo geracional que inicia com Othon e Honorata, os trisavós; Aghnar e Oda, os bisavós; Cabeça de Ferro e Dona Vicente Gabriela de Rokha, os avôs, Aghora, o pai-mãe e até o Sem Nome, o último Metabarão.

È notório a dedicação bélica e a crueldade dessa linhagem de guerreiros. Os Castaka seguem rigorosamente o código Bushitaka, um protocolo físico e mental que conduz seu comportamento a um cenário de batalha, convertendo-lhes em guerreiros implacáveis e impiedosos, porem capazes de atos nobres e apaixonados. Vivem em Mármola, um planeta que lhe permite explorar seus ricos depósitos de mármore, tendo sua economia baseada na exploração da rocha. Entretanto, a paz que gozavam em seu planeta natal foi perturbada quando foram alvos de uma invasão. O Império descobriu que o planeta dos Castaka esconde uma incrível substancia, a Epifita, imbuída da capacidade antigravitacional. Esta guerra dizima a linhagem Castaka, obrigando ao primeiro Metabarão negociar a paz com o Império, dando início a uma turbulenta relação entre o poderoso e o clã de guerreiros.

O contínuo destino trágico dos Castakas e suas esposas, o confronto com um dos filhos para que a casta tenha continuidade, as abundantes cenas de mutilações, suicídios, incestos, ressurreições, parricídios, clonagens e extermínios colocam a saga como um representantes antípodas da ficção-científica. Um contraponto bem interessante, para não dizer escatológico, a tanto sangue, tanta destruição e tanta tecnomitologia é a narrativa dos dois robôs, Tonto e Lothar, claros reminiscentes das HQs, homenagem aos sidekicks de O Cavaleiro Solitário e Mandrake, que contam a história dos metabarões. Admirando a condição suprahumana de seus criadores e recorrendo à tradição das belas histórias orais versam uma abordagem poética onde a física se mistura com o surreal tecnológico para produzir uma epopéia digna de Dante em sua Divina Comédia.omo já foi dito há claros ecos de Duna nestes Metabarões que semelham com os Harkonnen da série de Frank Herbert, e elementos como as monjas, a busca do hermafrodita ou da mesma substância que dá aos metabarões sua supremacia tem rápido paralelismo nas Bene Geserit [i], no Kwizatz Haderach [ii] ou na melange [iii] respectivamente do universo criado por Herbert. Além da temática sci-fi A Casta dos Metabarões também retira do realismo mágico, da saga dos Buendía (Cem anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marques), do código bushidô dos samurais e dos pecados e redenções dos grandes mitos gregos nuances textuais para o roteiro.

Em relação às ilustrações, é inegável a liberdade que Giménez teve para criar anatomias, arquiteturas, paisagens, desenhos impossíveis dão aos álbuns um tom único, como no conceito criado em amalgamar estruturas bio e tecnológicas. Outro detalhe é o uso da luz e das cores, há páginas inteiras em que a ação e os balões estão estruturados sobre uma base cromática que abusa das luminescências artificiais, onde os traços são pincelados numa complexidade que sem dúvida se retirássemos todo o texto da obra, teríamos em nossas mãos uma coleção de mais de 500 lâminas ilustradas cuja exposição em qualquer museu não destoaria da qualidade que estes apresentam. Aliás se voltássemos a integrar às páginas o roteiro que impulsionou sua criação, o conjunto torna-se uma das obras mais relevante da ficção científica do comic mundial.

Os quatro volumes saíram por aqui pela Devir, por quarenta e nove reais, preço alto mas mesmo assim bastante justificado pois a editora preparou verdadeiros tomos caprichados, noformato europeu, capa com laminação e vernizada e interior em papel couché, totalmente colorido. Uma qualidade de impressão ímpar.

A CASTA DOS METABARÕES – TOMO UM A QUATRO

[xrr rating=5/5]

 

Os Autores

Alejandro Jodorowsky (1929) é um artista chileno bem popular que focou seu talento como um caleidoscópio e suas várias arestas. Conhecido mais pela carreira de escritor, também seguiu a direção de filmes, a dramaturgia, a filosofia, a terapia e até mesmo o tarô.  Além de ter idealizado a psicomagia como um veículo de cura psicológica baseada em técnicas xamanistas, teatrais e de psicanálise.  Mas vamos centrarmos nosso olhar em sua carreira como roteirista de narrativas gráficas, cuja obra mais importante é O Incal, que fez com o francês Moebius, uma sci-fi composta a partir de algumas ideias e pranchas para uma adaptação cinematográfica de Duna que não deu certo. Outros títulos que podemos destacar são Cara de Luna, Juan Solo, El Lama Blanco, Os Borgias entre outros. Quem publica seus quadrinhos é a francesa Les Humanoïdes Associés, a sua fértil veia criativa não cessa de planejar novas maneiras de

Juan Giménez (1943) é um artista gráfico argentino que trabalhou na publicidade, com formação acadêmica no desenho industrial, há várias décadas tem ilustrado um bom número de quadrinhos, alguns escritos por ele mesmo. Seu estilo é inconfundível pela plasticidade fantástica, como podemos notar nessa série que mostrou a linhagem do metabarão.  Entre suas contribuições às HQs podemos citar O Quarto Poder, Estrella Negra, Ciudad, Leo Roa, Basura, e Juego Eterno.

[i] Bene Gesserit: na saga de Duna, uma organização monástica feminina, que segue um condicionamento físico-mental para obter poderes e habilidades especiais.

[ii] Para a Irmandade Bene Gesserit o ser humano perfeito, o “messias”, convertido em Kwisatz perante manipulação genética controlada por gerações.

[iii] Droga geriátrica que dá ao usuário um longo tempo de vida, maior vitalidade e elevada consciência, mas também pode desbloquear presciência em alguns seres humanos.

9 opinaram!

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  1. jodorowski é em minha opinião o melhor roteirista em atividade nos quadrinhos ,pau para toda obra ,ja assisti varios de seus filmes,li seus livros e sou totalmente viciado em suas bds,seria fantastico se nossas editoras ganhassem um pouco mais de ousadia seguindo o exemplo da devir e nos agraciassem com o maravilhoso lama branco ,tecnopriest e outras guloseimas de nosso querido chileno doidão

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