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A violência pulsante de Mesmo Delivery e a criação de um novo gênero narrativo

Alan Moore escreveu uma série de “tratados” no final da década de 80 sobre a arte de escrever histórias em quadrinhos, principalmente roteiros, sua especialidade. Um desses ensaios, publicado pela Avatar Press em 2003 com o título Alan Moore’s Writing for Comics, exibe uma retórica extremamente direta e objetiva. Logo no começo do segundo capítulo, intitulado Reaching the Reader: Structure, Pacing, Story Telling, o mestre instrui ao óbvio, utilizando exatamente esse vocábulo para definir a impossibilidade de atingir o gosto de todo o leitor que se dispuser a ler a obra de quem Moore, no caso, está instruindo em seu texto; e eu cito:

“Obviously, since we are talking about a mass audience of thousands of individual people, there is no way that the artist can understand the likes and dislikes of every single one of them.”

Não há, de fato, como deduzir as predileções de cada possível leitor de uma obra, em qualquer mídia da indústria do entretenimento. E foi exatamente este impacto que a obra de Rafael Grampá, Mesmo Delivery, me causou. Ela me agradou em muitos sentidos, mas não plenamente.

A história gira em torno de um ex-boxeador chamado Rufo, que é contratado pela empresa Mesmo Delivery para fazer um serviço de entrega que inicialmente não é revelado. Uma das condições do serviço é que a carreta do caminhão não seja aberta em hipótese alguma. Para acompanhar Rufo, a companhia designa Sangrecco, o braço direito do chefe. Em uma típica parada num bar no meio do nada, Rufo se mete em uma pancadaria sem igual. A trama então decola e revela, posteriormente, um plot twist bem interessante.

Capa da edição da Dark Horse

Há um ponto de separação nessa obra que possui a função semelhante à de uma peneira. O grosso, impeneirável, é tudo o que não me agradou; o que passa, o fino, são todas as características – desconexas ou não – que me impressionaram, e que distanciam a obra de Grampá do lugar-comum. O bruto que jaz na parte interna da peneira pode ser definido em poucas palavras: roteiro extremamente violento. A “violência gratuita”, ao contrário do que muitos advogam, não deve ser completamente abominável. É uma forma particular de expressão artística que, dentro do que é socialmente aceito, deve sim existir. Em uma análise mais profunda, o vocábulo que modifica violência, ou seja, “gratuita”, é simplesmente um Deus ex machina, e está presente em vários modelos de roteiro; do terror clássico às comédias românticas. Afinal, as situações que reafirmam a classificação destas histórias geralmente surgem de uma situação por demais inverossímil; nesse caso, não seria prudente utilizarmos as expressões “comédia gratuita”, “romance gratuito”, “mistério gratuito”, etc? Segundo a visão geral da sociedade, não. Objetivamente falando, não vejo muita diferença na “gratuidade” do exagero.

O problema de um roteiro Deus ex machina é que o tratamento argumentativo recorre sempre ao clichê de seu gênero. E em Mesmo Delivery, não é muito diferente. O enredo se mostra meramente como um recheio de uma obra que pretende apenas mostrar uma violência visceral – seja para chocar os desavisados ou agradar os amantes desse tipo de história. O argumento é fraco, não possui muita ambição, logo não se compromete; quando arrisca, já ao final, descreve um agradável plot twist que não empolga tanto, mas contribui para que isso não atrapalhe a bela arte do álbum. Os dois personagens principais são bidimensionais: Rufo, o típico brutamonte com muito músculo e pouco cérebro; e Sangrecco, o clássico assassino estiloso que não se importa com nada. Apesar de personagens por demais vazios, a escolha cabe à narrativa despretensiosa, já que em momento algum vemos uma solicitação por parte do roteiro de uma inclinação ideológica definida ou postural moral específica por parte dos protagonistas. Aqui, tudo foi pensado para ser algo simplista. Infelizmente, como muitos, necessito de uma justificativa para encarar tanta violência. Apesar de condenar o termo “violência gratuita”, já que muitas outras obras são “outras coisas gratuitas”, entendo que esse tipo de “gratuidade” não é para meu paladar.

As inimagináveis posições de câmera concebidas por Grampá

Mas se o roteiro deixa a desejar, a arte impressiona. E muito. Com um desenho estilizado e bem caricato, Grampá utiliza muitos traços em suas ilustrações, e volta e meia mescla excelentes metáforas visuais com a crueldade de composições realistas – em uma página em especial, Sangrecco arrasta um corpo pelo chão enquanto um Diabo que ocupa 90% da página se delicia com o banho de sangue.

Certamente a narrativa cinematográfica é o ponto mais forte da obra. Grampá possui uma visão incomum para um ilustrador, já que sua HQ é praticamente um storyboard. O autor consegue conceber ângulos de câmera praticamente infilmáveis, o que acaba por elevar o papel da narrativa gráfica perante a sétima arte. Como era de se esperar, há uma onipresença do vermelho nas cores – obra do próprio Grampá em parceria com o também brasileiro Marcus Penna.

A realidade em contraste com o imaginário

A HQ foi lançada inicialmente em 2008 pela AdHouse Books nos EUA, e pela editora Desidrata no Brasil no mesmo ano. Em 2010, foi relançada pela Dark Horse com uma capa bem mais bela e um pequeno Making Of no final, o que acrescenta bastante à publicação.

Altamente recomendado para adoradores de uma boa violência, ou os que se contentam em admirar uma contundente narrativa gráfica. Seja você quem for, se pretende ler Mesmo Delivery, aqui vai apenas uma dica: prepare o estômago!

[xrr rating=3.5/5]

 

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