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Black Hole – as sombras da adolescência em uma narrativa de terror ousada

Arredores de Seattle, extremo noroeste dos EUA, anos 1970, uma praga inominável e traiçoeira se alastra entre os adolescentes locais através do contato sexual e parece não poupar ninguém. Ela se manifesta de maneira diferente em cada um dos infectados ― enquanto alguns apresentam apenas manchas na pele, algo sutil e fácil de ocultar, outros se transformam em grotescas aberrações, vagas lembranças do que foram um dia.

Análise

Black Hole de Charles Burns inicia com uma cena que abre num corte de onde brilha uma lâmina de luz, como o buraco da fechadura em que o leitor pousa o olho. Através desse quadro entramos na vida de Keith, de quinze anos, um desajeitado rapaz, que apaixonado por Chris, por trás da fachada de aluno modelo, compartilha as mesmas angústias existenciais. Tudo normal, se não fosse uma terrível epidemia que afeta só os adolescentes.

Vencedor do Eisner Award de Melhor Álbum de 2006 e de nada menos que nove Harvey Awards e outros dois Ignatz Awards, além do prêmio Les Essentiels d’Angoulême (2007), Black Hole é a mais importante graphic novel de Charles Burns (Big Baby).

Publicada de forma seriada durante uma década, o título foi reunido em 2005 em um volume único pela Pantheon e reforçou o lugar do artista como o mestre dos quadrinhos independentes de horror. Esse volume foi publicado por aqui pela DarkSide em 2017, no seu selo Graphic Novel.

Burns e sua obr-prima

O início e o fim de Black Hole, tão especular mas assimétrico, já sugere a interpretação do título, como se dimensiona a adolescência. Seria um buraco negro? Dotada de um campo gravitacional tão forte que engole toda a luz, aquela que emanava até então e aquela que ilumina o futuro. O autor nos leva a interpretar ao entrarmos nesse espaço estreito e confinado que é a adolescência e indaga se realmente saímos. Nadando no mar aberto que é a vida adulta.

A narrativa nos leva aos anos 1970, na cidade de Seattle (EUA), quando a vida dos adolescentes virou de cabeça para baixo com a chegada de um vírus sexualmente transmissível que deforma o corpo de várias maneiras. Uma segunda boca no pescoço, cauda de lagarto, pele como de uma cobra, são algumas das deformações que surgem nos jovens. Quem não consegue esconder os sinais da doença está condenado a morar na mata.

O que Black Hole traz é a história da adolescência como um período negro, mas temporário, do qual, porém, nem todos saem com os ossos inteiros, quando saem. Os jovens protagonistas são retratados com sinceridade, são vívidos a cada página, atormentados como seria de se esperar (Keith experimenta a primeira paixão não correspondida, assim como Chris e Dave, por Rob e Keith, temos álcool, drogas, sexo), mas sem cair no enjoo.

Aqui partimos de uma premissa de um filme de ficção científica dos anos 1950 com intuito de propaganda, e acabamos numa história de amores adolescentes, mas então as voltas que a história toma, contínuamente e na negação das expectativas do leitor, são tudo menos convencionais.

O autor Charles Burns, no entanto, não apenas remove aquela composição idílica geralmente associada à infância e à adolescência, colocando os jovens em comunhão com os lugares típicos da adolescência, a paisagem urbana e a natureza intocada, despojando-os também de vários estereótipos.

Publicado entre o final dos anos 90 e o ano 2000, Black Hole faz parte dessa linha de produções que desmontou a retórica do norte dos Estados Unidos, aquela longa linha entre a América e o Canadá, como produto de uma simbiose entre a paisagem e sua habitantes.

O obstinado terror existencialista da obra de Burns é composto apenas pelo trabalho em pincel, de alto contraste em preto e branco, que presta homenagem ao horror sutil dos primeiro filmes do gênero, e desde cedo se tornou um dos estilos mais reconhecidos de toda a arte sequencial contemporânea, instantaneamente familiar assim que é visto em alguma antologia ou na capa de revistas como New Yorker e The Believer.

A história em quadrinhos se passa em Seattle, a casa do grunge e na cidade fictícia de Twin Peaks. Nesse tipo de expressões artísticas, os jovens estão no centro da história, empenhados em subverter a imagem de tranquilidade da região. Aquele planeta Xenon que no início do volume é descrito como um idílio acaba justaposto, fundindo-se com o cenário natural de Seattle, feito de mutantes e resíduos regurgitados .

Os lugares onde Keith e os demais passam a habitar, à margem da civilização, as matas que escondem a verdadeira natureza dos adolescentes. Mesmo a paisagem urbana torna-se um lugar de segredos, repressão e violência, nos lugares privados da casa e do quarto. A sujeira, o lixo e os destroços que povoam as cenas são um tapa na cara para as visões ambientais utópicas demais da região – Seattle foi um dos focos do movimento ambientalista nos EUA.

O olhar existencialista

De estilo freudiano, Black Hole espalha símbolos gráficos nas páginas. Na abertura de cada capítulo, Burns justapõe duas formas semelhantes que dialogam entre si. Abrindo o primeiro capítulo, de um lado encontramos uma fenda com ecos vaginais, de outro um corte feito com bisturi no estômago de uma rã que expõe as entranhas do animal.

Sexo, violência, horror físico ricocheteiam um no outro, num cenário bem opressivo. E assim a ferida de um pé e as veias de uma árvore são uma reminiscência do órgão feminino, enquanto as armas e cobras são uma reminiscência da masculinidade. Escolhas tradicionais que, no entanto, neste contexto aparecem como metáforas novas e perturbadoras. Burns insere imagens sexuais em toda a história, infundindo a história com um toque paranóico. O resultado leva o leitor a questionar continuamente as imagens, sejam elas símbolos ou não, um pouco como um adolescente durante um despertar sexual.

A edição da DarkSide é caprichada, em capa dura, com tradução de Daniel Pellizzari.

Inspirado na iconografia dos anos 1950, nos quadrinhos de terror de Al Feldstein e Johnny Craig, mas também na clareza das linhas de Hergé, Burns desenvolve sua história com um estilo pessoal, claro, controlado e homogêneo, baseado no contraste do P&B. O autor afia os fundos, traceja cada buraco, cada folha das árvores, folha de grama ou primeiro cabelo no rostos de um adolescentes.

Black Hole é uma daquela graphic novels essenciais, como Persépolis, Retalhos ou Maus. Exemplos de narrativas gráficas que evocam sentimentos diversos, entre eles a tristeza e a perseverança, já o trabalho de Charles Burn explora intensamente o amor, a intriga, a inconsequência, a incerteza, o medo, o ódio e o desejo… as emoções explosivas e expansivas da juventude. E o terror está inserido nesse contexto, como uma sombra no vazio, e em tempos de pandemia, com estigmas sociais se tornando reais, é uma leitura crua, pesada e real.

Nota: Fantástico – 4.5 de 5 estrelas

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