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Cachalote, de Daniel Galera e Rafael Coutinho

Will Eisner certa vez disse que o processo de leitura dos quadrinhos é uma extensão do texto. Em seu celebrado Narrativas Gráficas (Devir, 2008), diferencia o uso de imagens como linguagem de mero entretenimento visual para com o conceito que Eisner chamou de Arte Sequencial, quando uma série de imagens disposta em seqüência se torna uma narrativa literária. Recentemente, um álbum conciliou dentro dessa linguagem literária as reflexões do narrador para com a profundidade dos seus personagens. Lançado neste ano, Cachalote (Quadrinhos na Cia), escrito por Daniel Galera e desenhado por Rafael Coutinho, consegue interpor um mosaico de tramas e personagens numa singular narrativa gráfica.

Ao longo das quase 300 páginas, conhecemos seis histórias em três capítulos. São histórias paralelas, de argumentos ao mesmo tempo realistas e fantásticos, dramáticos e cômicos. Hermes, um escultor entediado, estranhamente recebe um convite inusitado: protagonizar um filme baseado em sua própria vida. Vitório, um jovem vendedor de uma loja de ferragens, adepto de kinbaku – um estilo de bondage japonesa em que se domina sexualmente com cordas –  se apaixona, cheio de pudores, por Lara, uma bela garota que é particularmente frágil e suscetível ao seu fetiche. Xu Dong Sheng, um astro decadente do cinema chinês, vem ao Brasil para lançar seu último filme e acaba sendo suspeito da morte de Jia Cheung, amigo e companheiro de cena. Ricardo Aurélio, ou melhor, Rique, um playboy mimado e arrogante, é expulso de casa pelo tio e enviado à Europa para se virar sozinho. Um escritor deprimido e sua ex-esposa que ainda se encontram em locais públicos para manter o vínculo que tiveram ou tem. E uma velha senhora, grávida e solitária que tem encontros oníricos e enigmáticos na piscina de sua mansão com uma baleia cachalote.

Cada personagem foi construído com minúcias que inferem ao leitor pelas imagens os acontecimentos drásticos ou misteriosos que transformam suas vidas. Algo bem mais perceptível que as histórias em si é a decadência que cada um passa e o próximo passo para dar rumo ao que perderam.

Depois de quase dois anos e meio em produção, Cachalote consegue amarrar cada trama com temas e subtextos recorrentes, as ilustrações falam, caprichadas, pensadas e criadas com cuidado, autônomas dentro de cada história. Alguns dos quadros possuem belíssimos resultados de uma sofisticada narrativa, bem próxima das storyboards dos filmes.

O mosaico de histórias foi ambiciosamente abordado sem um final propriamente dito. Cada um dos seis contos levanta a curiosidade dos leitores, que acompanharam o desenvolvimento de cada personagem. Entretanto, ao final do álbum, fica a sensação de vazio. Algo novo para muitos amantes do gênero essa de apropriar da expectativa de cada um e, no fim, finais sem solução, abertos à imaginação de cada um.

E a baleia? Fica a pergunta, mas o projeto de Galera e Coutinho usa bem da narrativa literária com destaque na arte do filho de Laerte. Densa e pretenciosa, Cachalote tem estilo, mas será que marca um novo destino aos quadrinhos brasileiros?

5 opinaram!

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  1. Concordo ee primeira leitura ficar até difícil de entender quem está acostumado com algo linera. Mas é arte, né!
    ei, será que terá novos nomes chegando por aí, hein?

  2. bem, soube que logo virá as graphic de Angélica Freitas e Odyr Bernardi, ”Guadalupe”, e Ronaldo Bressane e Fabio Cobiaco, “V.I.S.H.N.U.”. Alguém já tem alguma informação sobre esses álbuns?

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