em

Demolidor 45 Anos: Chegam Brian Bendis e Alex Maleev

O melhor escritor do Demolidor em toda a história. Mesmo, sem nenhuma exagero. As origens de Brian Michael Bendis como roteirista partem desde sua infância, quando ele dizia aos seus amigos que seria o novo George Pérez um dia. Muita gente pode não ter dado nenhum crédito para aquele garoto de 13 anos mas hoje ele é uma das maiores estrelas de quadrinhos do mundo todo e o maior nome na Marvel desde o início da década passada.

Ao começar a fazer seus primeiros roteiros ele sempre teve influências muito pesadas em histórias de crime escritas por Jim Steranko e Jose Munoz, até um dia descobrir o documentário sobre filmes noir Visions of Light, passando a incorporar todos esses elementos em seus roteiros cada vez mais. A descoberta de seu trabalho pela Marvel foi um verdadeiro achado e ele foi começar logo no Demolidor, título no qual embasou toda sua sólida carreira nos quadrinhos mainstream e também provocou uma das maiores revoluções já vistas no universo de super-heróis, colocando o herói em todos os planos em que já esteve desde o começo mas de uma forma totalmente revigorada, inovadora e surpreendente. É legal citar aqui que nesta época ele tinha muita amizade com David Mack, que mostrou uma edição de Jinx a Joe Quesada que se apaixonou pelo material. As negociações com o escritor começaram e Bill Jemas, na época editor da Marvel, quis o homem dentro da editora.

Os diálogos numa HQ sempre foram a forma de comunicação do personagem com o leitor e não há influência melhor para diálogos que as antigas histórias de crime e filmes noir, que também são uma grande fonte para o diretor Quentin Tarantino, o maior mestre no quesito diálogos. Bendis tem muito desta escola também e desenvolve seus diálogos como mais ninguém dentro desta mídia, fazendo com que conheçamos muito dos personagens que usa com apenas boas frases bem colocadas.

A partir daí, seu nome começaria a virar história dentro da editora. Ao lado dele estaria o desenhista Alex Maleev, que já trabalhou por algum tempo na DC e tinha um estilo próprio não mundo trabalhado, mas que se tornou algo absolutamente inovador quando assumiu o Demolidor junto com o novo escritor, fazendo traços um pouco sujos mas realistas, sendo muito criativo com o jogo de sombras, cenários e layouts de páginas. Tendo uma dupla de gente nova e pronta para fazer trabalhos diferenciados era hora da revista decolar. Ambos estiveram à frente do título por 5 anos seguidos, fazendo um total de 55 edições mensais muitas vezes premiadas e capazes de tornar leitores da Marvel completamente loucos pelo material. Cada arco é espetacular e tem sua particularidade, formando uma verdadeira odisseia, mas citaremos aqui alguns que marcaram a vida do personagem para sempre.

Revelado

Quando um capanga mafioso que tentara derrubar o Rei do Crime é preso pelo FBI ele começa a caguetar todos os que pode e dá aos agentes o maior segredo de todos: a identidade do Demolidor. Ao contarem para seu superior o que estava acontecendo, mesmo não tendo acreditado a primeiro instante, ele pede que aquela informação jamais saia dali pois, por bem ou por mal, o Demolidor era um grande ajudante mesmo sendo fora-da-lei. Mas um dos agentes precisa melhorar sua vida e vende a informação para o tabloide Globo Diário que faz disso um espetáculo.

A vida pública de Matt acaba ali e tudo vira um circo do avesso, mexendo com a comunidade super-heróico e com seu papel como um dos maiores advogados dos EUA.

O Julgamento do Século

Não bastasse a dificuldade de ter que lidar com o fato de sua identidade ter sido revelada, Matt ainda aceita ser o advogado de defesa do Tigre Branco, acusado de roubar uma TV e matar um policial num loja que estava sendo assaltada por dois latinos quando, na verdade, ele estava tentando salvar o policial e colocar a TV no lugar. Aqui Bendis mostra toda sua força com os diálogos mostrando Matt como um advogado inacreditavelmente bom, com argumentos precisos e corretos, além de também deixá-lo na berlinda com as acusações certeiras do promotor. É a partir daqui também que o autor coloca Luke Cage e Danny Rand, o Punho de Ferro, como coadjuvantes das histórias do advogado endemoniado novamente, algo que não acontecia desde os tempos de Frank Miller.

O processo recebe visitantes ilustres como o Dr. Estranho e Reed Richards para . Todo o julgamento é acompanhado pela mídia que é mostrada para os leitores como os verdadeiros abutres que são loucos por uma desgraça. E infelizmente, a desgraça acontece: não tendo sido inocentado do crime, o Tigre escapa no meio do evento e acaba morto nas escadarias do fórum numa cobertura ao vivo por toda a mídia. É um caso monstruoso para a vida de Matt.

Era de Ouro

O fato mais incrível deste arco é a mistura de narrativa do passado com o presente e a quantidade de fatos históricos da máfia italiana que tomou os EUA no começo do século XX que somam elementos reais à narrativa feita por Bendis. Mais legal que isso é também a forma como Maleev faz sua arte, utilizando um tipo de traço e finalização diferentes para cada época. Por exemplo: para os anos 1920 é tudo mais caricato e preto-e-branco; já para os primeiros anos do Demolidor (ainda com o uniforme amarelo) o traço é mais a cara dos anos 1970, no estilo Jack Kirby e John Buscema e a pintura é toda pontilhada, como era na época. No quesito roteiro vemos o mafioso Bont, capturado por Matt em seus primeiros anos como herói, sair da cadeia após cumprir sua pena, e ele volta à Cozinha do Inferno para mostrar quem manda ali. Tendo a identidade do seu arqui-inimigo em mãos ele captura Matt e começa a torturá-lo ao vivo pela TV, com a ajuda do Gladiador, que outrora foi inimigo do herói mas se tornou seu amigo tendo desistido da vida do crime, mas foi coagido a fazer isso pelas chantagens de Bont.

A ligação do mafioso com todos os mafiosos reais criada por Bendis é tão plausível que muitos desinformados podem acreditar que ele realmente existiu e se tornou um personagem de luxo na história. Independente disso, a aventura é tão fantástica que facilmente daria um filme sobre crime, violência e máfia em Nova York.

Decálogo

Numa história de cinco partes Brian Bendis usa de forma incrível sua capacidade de gerar grandes diálogos e narra sua ideia sem mostrar o protagonista até o final dela. O contexto aqui é mostrar um grupo como os alcoolicos anônimos reunidos para conversar sobre o que viram na Cozinha do Inferno e como o poder deste símbolo do demônio mudou cada uma de suas vidas. É impressionante como todos os capítulos se resumem apenas aos diálogos das pessoas num mesmo lugar fechado e claustrofóbico e ele consegue contar a vida inteira de cada um deles e seus medos da força de Matt Murdock com apenas frases bem feitas e gags de rua de Nova York.

Se existisse uma fórmula matemática para definir o trabalho de Bendis com o Demolidor ela seria: diálogos primorosos + acontecimentos chocantes + influência do melhor que o crime americano tem a oferecer + transformar um super-herói num humano crível = histórias perfeitas.

É curioso que hoje o trabalho dele é o mais influente com o personagem, tornando-se a principal bíblia para a passagem de Ed Brubaker pela revista, também tão boa quanto a de Bendis, mas que não seria nada sem tudo que o careca criou. E assim fechamos nosso especial de 45 anos do herói (um pouquinho atrasados) focando nos principais momentos de sua carreira e citando os grandes criadores que passaram por suas revistas. Felizmente quase 100% desse material saiu no Brasil e o que recomendamos para nossos leitores de mais importante são as fases de Frank Miller, Ann Nocenti/Romita Jr. e, claro, a de Bendis/Maleev.

Agradecemos a todos que estiveram conosco até aqui e esperamos que todos tenham se sentido saciados com este pequeno especial. E claro, não deixem de ler Demolidor!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

2 Comentários

  1. Bom, acho que devia ser citado o que houve entre o julgamento do Tigre Branco e a vingança de Bont, quando o Matt pirou de vez, arrebentou Wilson Fisk e se nomeou o novo Rei da Cozinha do Inferno… ao menos até tomar uma surra homérica de um exército da Yakusa e ter que ser levado pra Enfermeira Noturna.
    Isso sem contar que ele CASOU!

    Teve também uma minissérie, se não me engano, entre as fases de Kevin Smith e Brian Bendis e escrita pelo Paul Jenkins, que eu gostei muito. Nela o Rei do Crime mais uma vez tentava voltar ao topo, era vítima de um atentado e ficava temporariamente cego.
    Nisso o Demolidor e o Homem-Aranha investigavam e descobriam que se tratava de uma conspiração para dominar Nova York encabeçada pelo Coruja, o Mocassim e um outro que eu esqueci. O final é MUITO psicodélico, captou bem aquele aspecto onírico e religioso do Homem Sem Medo. Aqui saiu dentro da revista do Aranha na Fase Premium da Abril.

    E o Bendis que me perdoe, mas depois do que aconteceu com o Coruja no final daquela história eu achei uma tremenda babaquice ele reparecer como se nada tivesse acontecido no início da nova fase Bendis/Maleev disputando território com o Rei. Ele podia ter usado qualquer outro personagem, foi falta de respeito do Joe Quesada e próprio Bendis com o público.

  2. Morcelli esse artigo foi o melhor, traduziu toda a fase sendo bem precisa. É sim a mais importante na vida dele, e por uma coisa que eu gosto, que é mostrar o lado humano do herói. O Bendis é incrivel nisso. E a arte do Maleev, não podia ser mais perfeita para o estilo da hq. Enfim essa fase foi uma perfeição.