ColunasQuadrinhos

A diferença entre putaria e arte

coluna-falando-em-baloes
Muito tempo atrás, após receber uma encomendas de HQs de uma famosa loja virtual, decidi fazer a minha longa trajetória do trabalho / casa enquanto folheava essas compras. No meio dessas obras estavam um trabalho do italiano Milo Manara (mas especificamente “Clic”, da Conrad). Pois bem, uma curiosa senhora que quis olhar o que eu lia atrás de mim não gostou nem um pouco do que tinha em mãos. Me chamou de tarado, pervertido e disse que “puta era mais barato”.
Desci do ônibus constrangido (mas confesso que xinguei “um pouquinho” de volta) me perguntando como eu podia ter passado por aquela situação com um trabalho de um cara premiado, considerado como Mestre por qualquer cu d’água que lê quadrinhos. Como aquilo poderia ter sido considerado uma baixaria tão forte para aquela mulher?
Bem – para início de conversa – entramos em duas questões. Primeiro, ela não devia ter olhado para o colo dos outros. Bem feito para ela! Segundo, que é a questão mais delicada… O contexto. Se eu virar para alguém e falar: “então pensei na seguinte história. Uma mulher odeia sexo, mas um malandro faz um controle remoto da sacanagem e toda vez que liga, ela fica maluquinha para dar uns ‘fócks'”. Essa pessoa me responderia: “É para Brazzers ou Brasileirinhas?”. Mas “Clic” é muito mais do que isso. Possui toda uma crítica social no meio. Aliás, isso é algo que Manara trabalha em outras obras, não apenas nesta quadrilogia.
milo-manara-clic-1
Seu traço e narrativa dispensam comentários. E outro detalhe: ele tá nessa desde os anos 70. O próprio “Clic” é 1982! Falaí quantas HQs você consegue ler com 32 anos de vida? É difícil! E ela em nenhum momento parece ter ficado velha.
Além disso, lá na Europa trabalhos eróticos ganham esse ar. Faz parte de sua cultura. Junto com ele existem outros nomes como Paolo Serpieri e Guido Crepax. Dois artistas também fenomenais, cada um ao seu estilo.
Se o trabalho é sobre pepecas ou sobre super-heróis, não faz diferença para Manara. Quando ele esteve no Brasil, durante o primeiro (e já finado) Rio Comicon, pude trocar 3 palavras com ele. Perguntei qual era a diferença entre desenhar X-Men, com roteiro do Chris Claremont, para seus trabalhos autorais e eróticos. Sua resposta? “Nenhuma! É o mesmo trabalho”.
No Brasil, nós também temos um cultuado quadrinista erótico… Mas seu contexto diferente. Carlos Zéfiro, com seus Catecismos, foi um ícone para nossos pais e avôs nas décadas de 50 a 70. Vendidos (e pirateados) de forma independente (e ilegal), suas histórias não possuíam nenhuma crítica a sociedade e seu traço mal poderia trabalhar em detalhes devido ao pequeno tamanho do papel. Entre suas obras está, por exemplo, a infame “A Gaguinha”. Nela, uma mulher que sofre de gagueira começa a melhorar sua fala durante o sexo anal, soltando inclusive a frase: “mete mais… Quero ficar curada de uma vez”. Se sexo anal cura gagueira, ainda não temos uma resposta cientifica para isso. Mesmo assim, seu trabalho hoje é lançado de forma luxuosa em livrarias brasileiras e serviu como foco para muitos historiadores sobre quadrinhos. Sendo assim, os trabalhos de Zéfiro também podem ser consideradas arte pela sua representação história.
No final, tudo isso é arte, sim! Claro! Só que aprendi que nem toda arte pode ser apreciada em público.
Bolero-Milo-Manara

Deixe um comentário

Sugeridos
LiteraturaNotíciasQuadrinhos

Autora de Persepolis, Marjane Satrapi morreu ‘de tristeza’

É com profundo pesar que o mundo da literatura, dos quadrinhos e...

Evoto
ColunasLiteratura

Por que a ficção ainda invisibiliza mulheres 40+?

A invisibilidade da mulher madura na ficção é sintoma de um imaginário...

Cada Um no Seu Quadrinho
AgendaArtes VisuaisLiteraturaQuadrinhos

Jambo! #01: A Nova Revista que Une Literatura e Arte Visual é lançada no CCBBRJ

Idealizada pelo ilustrador Johandson, a publicação de bolso celebra a democratização da...

AgendaArtes VisuaisQuadrinhos

Exposição que reúne HQ, arte e viola estreia dia 01/11

O público terá a oportunidade de visitar a Exposição “Nos Braços do...

MúsicaNotíciasQuadrinhos

Axl Rose mergulha no universo dos quadrinhos

Enquanto os fãs brasileiros se preparam para receber o Guns N’ Roses...

Exposição Nos Braços do Violeiro tem entrada gratuita e conta com recursos de acessibilidade
AgendaArtes VisuaisQuadrinhos

Exposição Nos Braços do Violeiro tem visitação gratuita

A Exposição “Nos Braços do Violeiro”, do artista visual e músico Yuri...

ColunasCríticasFilmes

Capitão Fantástico: diga sim para sua família!

Ben (Viggo Mortensen) tem seis filhos com quem vive longe da civilização,...

AstrosColunasFilmes

Ressignificar a partir de traumas: Rambo V

John Rambo vive tranquilamente em um rancho no Arizona, mas quando recebe...

AutoralColunasFilmes

O Grito, Regime Disciplinar Diferenciado: Trailer e Significados

O documentário aborda um assunto espinhoso e complexo que afeta diferentes camadas...

MangáNotíciasQuadrinhos

Profecia ou Paranóia? Mangá prevê grande desastre no Japão e faz turistas cancelarem viagens

Um mangá japonês alertando para uma “catástrofe real”, um vidente prevendo destruição...

CríticasQuadrinhos

Gone, de Jock – Uma Odissia Distópica com Luzes e Sombras

Gone, obra inédita no Brasil do renomado artista britânico Jock (pseudônimo de...

ColunasLiteratura

Os benefícios da escrita poética na terceira idade

“A poesia pode servir de ferramenta cultural para ressignificar memórias e experiências....