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James O’Barr e O Corvo

james-obarr-06No mundo dos quadrinhos , ou melhor das narrativas gráficas, da mesma forma que outro meio de representação artística, a personalidade do criador (roteirista/ilustrador) é um elemento determinante e decisivo para definir seu trabalho. Princípio por demais óbvio, que pode até ser difícil de ser perceptível no atual mainstream pelas condições e interesse das grandes editoras, mas que é notório no underground, mais propenso à variedade temática e a alternativas introspectivas, onde o autor tem a liberdade de ser um cúmplice com o leitor. O estadunidense James O’ Barr ostenta o título, com o seu The Crow (O Corvo), de narrativa gráfica independente mais vendida da história, são mais de 750 mil exemplares já vendidos. E o cara disse que escreve como uma forma de terapia como uma saída à dor da perda de sua noiva numa imprudência de trânsito. Desta forma, The Crow é, segundo inúmeras declarações do autor, a história da sua relação com sua namorada, com a violência e a sede de vingança.

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O primeiro número saiu em 1989 pela Caliber Press após várias recusas de outras editoras, por acharem a narrativa muito extravagante. A adaptação para o cinema por Alex Proyas e com Brandon Lee como o personagem-título e a conhecida tragédia que o abateu acabariam por imortalizar O Corvo como uma das histórias mais influentes das duas décadas seguintes. O êxito do personagem, um símbolo gótico-punk, proporcionou diversas continuações da série tomando como partida a mitologia que O’Barr criou. Assim ao longo dos anos 1990, uma continuação direta do primeiro filme foi desenvolvida, The Crow: The city of angels/A cidade dos anjos com Vincent Pérez no papel-título e posteriormente uma série de TV, The Crow: Stairway to Heaven com Mark Dacascos como protagonista. E neste século apareceriam The Crow: Salvation(O Corvo: A Salvação, 2000) e The Crow: Wicked Prayed (O Corvo: A Vingança Maldita, 2005) e ainda a intenção de um remake para apresentar a nova geração o personagem.

Mas é nos quadrinhos que iremos analisar por aqui,  atentar ao  trabalho de O’Barr, que deu à posteridade um relato obscuro e marcado pela dor, sentimento este que oprime por toda a trama de The Crow e que leva o leitor de uma maneira desgarrada, irracional e visceral pelo argumento, diálogos e o traço insólitos dos quadrinhos. Temos em mãos uma estranha sacralização do amor perdido e uma forte relação entre a morte e  injustiça que abusa da violência psicológica e crua com uma estética não muito aceita por todo tipo de público.  The crow foi muito criticado pela violência em suas páginas, sendo colocado como uma má influência pelo que expõem em alguns de seus desenhos, e sua resposta foi tão crua quanto suas histórias: “A violência está naqueles que antes de ler uma história ou ver um filme a encontra, se alguém não pode diferenciar entre ficção e realidade esse cara é que tem um problema”.

o-barr_crowFalando da narrativa, The Crow possui um relato mutável e ambíguo, com um ritmo fluido, uma montanha russa de emoções, com ação que podemos até considerar como superheróica, mas que leva o leitor a refletir pela representação esquizofrênica e a personalidade do protagonista. E é neste sentido que o autor consegue fazer sentir a dor, o desespero, a ira e a loucura de sua própria situação pessoal e nos apunhala com sua veia literária pós-moderna.  Por outro lado, as frases e os diálogos centrados na morte e em citações bíblicas revestem a estética punk e no decorrer da série dotam a obra de James O’Barr de uma simbologia e uma mitologia imprescindíveis que conseguiu criar um local no imaginário popular. Para quem não leu, recomendo, e para quem já leu, procure reler, marcante lembrança dos anos 1990.

 

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