Uma reflexão sobre a composição da personalidade de um dos maiores vilões dos quadrinhos e sua relação com a Reforma Protestante.
Reflexões, referências ocultas, interpretações adversas e releituras. Toda obra vinculada a qualquer mídia está obrigatoriamente sujeita à diferentes avaliações e aplicações. Entretanto, a análise pura e desprovida de um sentido reflexivo inercialmente revolucionário não possui grande valor, se olhares para um clássico, naturalmente. A proposta da interpretação deve conter a fagulha que iniciará a queima de um curto pavio rumo à explosão de um grande barril de novas idéias; não necessariamente na criação de uma completamente nova, mas ao menos na revelação pública de um pensamento latente. Eis que lhe apresento Superman: O maior herói dos quadrinhos. A personificação da bondade e o símbolo máximo do altruísmo; em oposição a seu antagonista eterno: Lex Luthor. O gênio do mal, renegado e sempre motivado a desconstruir a imagem do salvador. Mas e se, na verdade, a interação essencialmente paradoxal entre estes dois personagens não fosse tão concreta e previamente definida assim? E se a orientação do caráter de ambos não fosse disjunta, mas passível de ser interpretável? Será que é possível invertermos os valores desta equação dcnáutica?

Para isso retornemos à França do século XII, e olhemos para um ato aparentemente inocente, mas que desencadeou uma série de eventos responsáveis pelo surgimento de uma nova religião cristã. Foi quando um comerciante chamado Pedro Valdo encomendou uma tradução da bíblia, utilizando-a posteriormente para ele próprio pregar a palavra de Deus; opondo-se aos preceitos da Igreja Católica, visto que Valdo não era um sacerdote oficial. Ele logo inspirou um movimento que começou a defender o direito dos povos de possuírem traduções do livro sagrado, ao mesmo tempo em que alimentava um pensamento crítico que tendeu a questionar alguns valores e dogmas da Igreja. O fato de cada um poder ler a bíblia e interpretar a palavra de Deus cada qual à sua maneira representava um grande perigo à inquestionabilidade da doutrina cristã; hoje, tal fenômeno resume e metaforiza a proposta deste artigo.
Eis que quatro séculos depois, o monge alemão Martinho Lutero (do alemão, Martin Luther), fazendo uso das idéias dos Valdeses, proferiu três sermões às indulgências e, mais tarde, escreveu as 95 teses, que desafiavam os ensinamentos da Igreja; Lutero foi responsável por promover um debate teológico sobre os dogmas, o primeiro de toda a história do Catolicismo. Eis o início da Reforma Protestante. Dito isto, centremo-nos apenas sobre uma questão da reforma: a crítica do culto às imagens. Inicialmente levantado pelos pré-reformistas, esta crítica se estendeu por séculos e foi abertamente advogada por Lutero.
Olhemos então para imagem de salvador na qual Superman se define e traçamos um paralelo com os santos católicos ou com o próprio Jesus Cristo. A alcunha super-heróica de Clark Kent representa o poder supremo e resguarda a esperança da humanidade; expõe a vigia absoluta e a essência da irresponsabilidade do homem expressa na premissa de que não importa o que aconteça, sempre estará lá o Super-Homem para resolver o problema. Isenta a humanidade da culpa, e traz para si a obrigação de ser um salvador. Lex Luthor – Lex, do latim, lei; e Luthor, derivado de Luther –, de comportamento completamente humanista, ufaniza as fraquezas humanas e defende, talvez, em um primeiro momento, não a queda do salvador em si, mas a independência entre sua imagem e a humanidade. Posteriormente sua argüição mostra-se completamente em função da destruição completa do herói, e o humanista se torna vilão assim como os reformistas de outrora. A composição do nome de um dos maiores vilões dos quadrinhos se traduz na expressão “Lei Lutero”, e ironicamente atribui a conotação de um ser que advoga à favor da humanidade, nada mais. Um homem que deseja ver seus semelhantes caminhando independentes e almejando sempre o desenvolvimento pleno. Apenas um idealista, a personificação de um reformista protestante perante uma imagem cultuada.
Seria ele então um vilão, apenas por possuir uma opinião? É culpado por abandonar a crítica e buscar mudanças? Ou sua vilania cresce junto à raiva diante de constantes fracassos? Quem é Lex Luthor?
O conflito de opiniões sempre foi um problema na história da humanidade, e em um ambiente ficcional não é diferente. É razoável questionar se, a longo prazo, o Homem de Aço de fato fora de grande valia ou se simplesmente sua passagem pela terra deu-se por eras onde a humanidade foi mimada e acostumada a não ter de resolver seus próprios problemas. O que faz questionar o propósito do super-herói em si, um tema amplamente abordado em diversas obras em quadrinhos; mas neste caso não sobre o óculo do imediatismo, e sim de uma reflexão sobre um vislumbre do futuro. A motivação de Lex, no entanto, não se dá completamente sobre a função do Superman, e sim sobre o que ele representa para o homem comum; a cegueira que ele promove e o comodismo que sua presença traz. Neste caso, devo concordar com Lex: Morte ao Superman ante ao retardamento do desenvolvimento humano. Pois se fores analisar, o que melhor do que a independência e a capacidade de reparação, inerente ao desenvolvimento? Certamente não diria ajudas pontuais e imediatas promovidas por um ser alienígena super-poderoso por oportunismo. Portanto, neste caso, não seria Lex Luthor então, o verdadeiro herói?









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