Minha Experiência Lésbica com a Solidão, de Kabi Nagata

Resenha do mangá , lançado pela NewPOP

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Com a democratização da leitura, campos, como os quadrinhos, conseguiram chegar a um maior número de pessoas, sem ter que apelar só para o que é mais difundido entre a maioria. Assim, outros grupos de consumidores, antes desprezados, conseguiram ter posses culturais e é algo que ao longo dos anos crescente. No entanto, essa democratização gera o risco de que o meio se banalize, que se vulgariza e passa a ser produzida e consumida em massa, perdendo parte da preciosa essência artística que lhe dá origem e a diferencia de outras formas culturais.

Não podemos esquecer que toda vez que lemos uma história em quadrinhos, temos uma pequena obra de arte em nossas mãos. E não apenas mencionando os desenhos que estão em sua capa ou recheiam o miolo. Estamos se referindo também ao valor da HQ como veículo para expressar o sentimento ou a experiência de um autor que deixa parte de si naquelas páginas.

Kabi Nagata traz essa forma de entender essa trama da arte em Minha experiência lésbica com a solidão, um mangá de uma coragem e ousadia incríveis que não tem medo de contar, do ponto de vista pessoal da própria autora, um leque variado de temas delicados e carentes de visibilidade de forma adulta e crua, sem frivolidades. Uma história intimista e impactante, na qual Nagata se desnuda para os leitores e abre uma janela para todas aquelas pessoas que no seu dia a dia não conseguem ver mais do que portas fechadas.

A primeira coisa que deve ser destacada em Minha Experiência Lésbica com a Solidão (NewPOP, 2019) é a necessidade de não se deixar levar pelas aparências. Tanto o título quanto a capa, vistos de lado e sem se aprofundar muito na sinopse, fazem com que o leitor não saiba muito bem o que vai encontrar. Seria uma comédia picante? Um yuri com casos de amor entre garotas do ensino médio? Uma história divertida sobre liberdade sexual? Bem, com esta última pergunta estaríamos nos aproximando mais do que o mangá traz. Nada de morbidez, ou de estereótipos e frivolidades. Estamos diante da história pessoal da autora, Kabi Nagata, e sua luta interna e externa para encontrar seu lugar no mundo, sua identidade e, acima de tudo, sua felicidade e sua vontade de viver.

Um mangá tremendamente sincero que fala sem rodeios sobre temas como depressão, solidão, transtornos mentais e físicos, fobias e filias, gênero, identidade sexual, necessidade de se valorizar, aceitação… Muitos aspectos que compõem uma pessoa ao longo de sua vida e como é incrivelmente complicado juntar todas as peças do quebra-cabeça que fazem de você quem você é, especialmente se você é alguém que não é muito parecido com o que a sociedade, o mundo espera de você, o ambiente familiar, os amigos ou você mesmo.

Para quem não passa por certas adversidades, o mangá traz situações para que seus leitores possam se colocar no lugar de quem sofre 24 horas por dia e 7 dias por semana por não poder fazer coisas que não são importantes para a maioria, como amarrar um sapato ou atender o celular. Problemas que são até difíceis de descrever pela pessoa que os sofre, tornando a superação de uma situação como essa ainda mais complicada, tornando ainda maior o embasamento da depressão e do isolamento. E o que esse mangá aborda é justamente a incapacidade da autora em contar o que aconteceu com ela, e sua maneira de se expressar é através das páginas deste mangá.

A narrativa traz assim uma autobiografia de grande parte da vida de Kabi Nagata, desde o final do ensino médio até a época da publicação da obra. Nagata é uma jovem que sofre de uma série de problemas de todos os tipos, tanto psicológicos quanto físicos, derivados dos primeiros. Após terminar o ensino médio e sem rumo em sua vida, Nagata começa a trabalhar em empregos de meio período, e a sensação de fracasso em sua vida a leva a cair em uma depressão que é agravada por uma tremenda crise de identidade, uma tendência ao isolamento que a faz perder amigos e a joga no solidão de sua casa, sem querer sair. Mesmo assim, ela se obriga a ser uma pessoa “normal” e continuar trabalhando em trabalhos que não gosta, o que por sua vez gera ansiedade, que em conjunto com sua depressão leva a uma série de transtornos como a tricotilomania (tendência compulsiva puxar fios/tufos de cabelo), bulimia nervosa e danos físicos autoinfligidos. No final, a autora acaba se isolando na casa dos pais com todo esse coquetel de problemas e com a autoestima totalmente destruída.

Nagata narra muito bem o processo psicológico que leva uma pessoa aparentemente normal a cair no mais profundo poço da depressão, e o faz com uma naturalidade, coragem e crueza que assusta e surpreende. A maneira que a autora trata o assunto é arrepiante, pois ela apresenta que o maior problema quando se tem um problema psicológico é a impossibilidade de explicar a alguém para te ajudar, ou de alguém perceber por conta própria, já que não há evidências físicas. E que, quem sofre com isso começa a infligir danos físicos para tornar visível de alguma forma o dano principal, o mental. E não só para que os outros vejam, mas para que também sinta, como afetado, os estragos, já que a sociedade tende a banalizá-lo e o próprio paciente acaba fazendo o mesmo.

E vai além, o mangá aborda muito bem toda a temática da necessidade de aceitação pelos outros, a sensação de não ser suficiente para aqueles de quem gostamos, a solidão, a sensação de fracasso por não ser o que supostamente deveria ser… Nagata sofre com tudo isso e chega a uma situação extrema, até que um dia, um estalo em sua cabeça e, como não pode afundar mais, inicia um processo de “autopsicanálise” que lhe permitirá se desconstruir e entender por que é assim e o que pode fazer para direcionar sua vida.

Apesar de ser uma biografia em formato de quadrinhos e também por vezes usando um tom mais casual do que seria de se esperar diante da situação, Nagata faz uma dissecação perfeita, estágio por estágio, das coisas que fez de errado em sua vida que o levaram ao fundo do poço. Ela começa a entender que tem que parar de viver para agradar os outros, que tem que começar a se amar, a fazer coisas que a façam se sentir bem. Ele começa a eliminar, com as dificuldades que isso acarreta, tabus que lhe foram incutidos com a educação (levando também em conta que a cultura japonesa é muito mais fechada em muitos assuntos do que a cultura ocidental). Ela chega à conclusão de que precisa do contato com o resto do mundo, que precisa amar e ser amada para ser feliz. E com isso chega a um ponto muito importante da obra: deixa de ver seus desejos sexuais com mau-olhado e começa a entender, aos 28 anos, que se sente atraída por mulheres, e que não há nada de errado nisso.

Mas é claro que as coisas não são tão fáceis, e Kabi Nagata tem mais problemas. Em primeiro lugar, se no Ocidente infelizmente continua tendo problemas para mostrar abertamente a homossexualidade, imagine numa sociedade muito mais fechada como a japonesa. E apesar de querer romper com seu eu depressivo, a mangaká não quer magoar os seus e procura algo discreto, e como a possibilidade de conhecer pessoas é muito reduzida… Nagata segue um caminho aparentemente simples, mas que precisa ter coragem, contrata os serviços de uma fūzoku, espécie de relação sexual paga para tal.

Esses momentos são explicitamente mostrados de forma sentimental e emocional, mas não tão visualmente. Dá para perceber o nervosismo de Nagata , seus medos, a força de vontade que ela tem de se colocar na situação. A autora também acerta nessa forma de representar sua homossexualidade, pois consegue se, leviandade ou clichê, fugir também de sua sexualização, e consegue dar a ela uma tremenda visibilidade e normalidade, principalmente quando paramos para pensar. que esses problemas de identidade sexual também vêm do mesmo lugar de onde veio a maioria dos transtornos: uma sociedade e uma cultura que não aceita o que está fora de seu padrão, e prefere invisibilizá-lo ou mesmo ridicularizá-lo e persegui-lo, antes de aceitá-lo e ajudar as pessoas que sofrem muito com esses comportamentos.

Apesar da bela mensagem que passa, não podemos esquecer que a história é bastante dura e que reflete a realidade sem embelezamentos. Nagata não é tão hipócrita a ponto de colocar um final feliz da história e frisa no final a necessidade de trabalhar constantemente no caminho que escolhemos, sem relaxar para não cair no buraco. Apesar de a obra ser bastante dramática, em certo sentido, e de haver passagens em que os cabelos se arrepiam, a verdade é que se trata de uma obra muito fácil e agradável de ler. A autora introduz alguns elementos da comédia, sendo o humor um aspecto muito necessário na hora de superar as dificuldades.

A tradução de Thiago Nojiri ajuda muito para a sensibilidade LGBT, conseguindo um texto que mantém o tom original e o localiza perfeitamente, e que também nos permite ser precisos no uso de termos. Um trabalho muito cuidadoso neste aspecto, bem como na diagramação e lettering (um processo magnífico em alguns quadros, pela complexidade de combinar o desenho e a cor mais o texto), conseguindo uma edição de um nível impressionante que deixa todos satisfeitos. O desenho é muito simples mas ao mesmo tempo muito expressivo e adequado ao que nos dizem, e também ajuda a diminuir a tensão gerada pelos momentos mais difíceis.

Possivelmente uma das licenças mais necessárias e essenciais na cena atual do mangá. Kabi Nagata assina um relato corajoso, real e humano de sofrimento e superação com o qual é impossível não sentir empatia. Uma obra que não pode ser esquecida.

Minha Experiência Lésbica com a Solidão

Minha Experiência Lésbica com a Solidão
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Nota: Fantástico 9/10 Estrelas
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Cadorno Teles
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Cadorno Teles

Cearense de Amontada, um apaixonado pelo conhecimento, licenciado em Ciências Biológicas e em Física, Historiador de formação, idealizador da Biblioteca Canto do Piririguá. Membro do NALAP e do Conselho Editorial da Kawo Kabiyesile, mestre de RPG em vários sistemas, ler e assiste de tudo.

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