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Mort Cinder, uma impactante e indispensável narrativa gráfica

Obra máxima de uma das maiores parceiras da história dos quadrinhos, Mort Cinder é, já há muito tempo, considerado um clássico absoluto da nona arte. Publicada originalmente na década de 1960 na Argentina, vem desde então sendo editada no mundo inteiro.

A Editora Figura trouxe para nosso deleite, pela primeira vez para o nosso país, após uma campanha de financiamento coletivo, uma edição de narrativa gráfica, numa edição luxuosa, que pela obra prima que é merecia todo esse capricho, tanto que ganhou o prêmio HQMIX 2019 de Edição Especial Estrangeira.

A união do roteiro potente e profundamente humano de Héctor Oesterheld com a arte ao mesmo tempo clássica e vanguardista de Alberto Breccia culminou em uma obra indispensável para todo o fã de HQ.

Edição da Figura

Histórico e análise

A dupla desenvolveu Mort Cinder para a revista argentina Místerix, nas edições de 714 (1962) ao número 800 (1964). A narrativa traz um antiquário londrino Ezra Winston que rodeado de diversos objetos antigos que evocam o tempo que pertenceram. Certo dia um misterioso ser entra em sua vida, o imortal Mort Cinder, um personagem que morre e ressuscita e cujas lembranças são avivadas pelos objetos da loja de Ezra. E assim rememora histórias de suas vidas passadas, como um simples ladrilho que o leva ao período da construção da Torre de Babel ou um jarro grego que o arrasta a batalha das Termópilas, na qual foi o único espartano sobrevivente.

Para compreender melhor essa narrativa vamos buscar os antecedentes de Mort Cinder, entre eles uma outra obra dos mesmos autores, Sherlock Time, além de O Eternauta e O andarilho das estrelas de Jack London. Mas são alguns de seus aspectos pessoais com o ar de obscuridade, melancolia e pessimismo que a fazem única para além dos personagens citados. O germe da história foi a fascinação que Oesterheld tinha com antiquários e o que poderíamos encontrar neles. Segundo o próprio: “Sempre gostei de objetos velhos, não pela estética e sim, pelas histórias que encerram; todo objeto está cheio de vidas passadas.

A edição traz todas as histórias publicadas com o personagem. Mas podemos diferenciar em duas partes, a primeira formada por Ezra Winston, o antiquário (uma história curta que serve de prólogo) e Os olhos de chumbo; que apresenta a relação entre Mort Cinder e Ezra Winston e ocupa quase a metade de todo o volume, é uma narrativa de terror e mistério que se torna um sci-fi; e a segunda parte formada pelas demais histórias. Bem menores e com uma estrutura similar entre elas: um objeto, uma noticia ou uma pessoa são os fios condutores para que Mort narre algum história de seu passado.

Essas narrativas nos leva a diferentes épocas, pela Primeira Guerra Mundial em A mãe de Charlie, pelo esplendor da Babilônia em A Torre de Babel, na época da Grande Depressão norte-americana em dois contos Na prisão (Marlin e Frade), na conquista da América em O vitral, pela época esclavista do século XVII em O navio negreiro, pelo antigo Egito em A tumba de Lisis e a Grécia clássica em A Batalha das Termópilas.

A título de curiosidade, convém notar que Alberto Breccia desenhou Ezra com seus próprios traços e Mort com os de seu assistente Horacio Lalia.

Todas as narrativas são contadas com um rigor fora do comum, mesmo com seus elementos fantásticos, o embasamento histórico é rigoroso. Narrativas que misturam o suspense, o mistério, a ficção científica, o terror, etc com uma maestria memorável. Mort e Ezra formam uma parceria que recorda um Sherlock Holmes e Watson amalgamado com Don Quixote e Sancho Pança, respectivamente.

No entanto, Mort está longe de ser um herói, a primeira momento parece mais um assassino. Mort Cinder, morte e cinzas, é o homem das mil e uma mortes, que nos mostrará a história da humanidade em seus momentos mais miseráveis ​​e covardes, sem perder os detalhes, para que possamos observar as trevas que o mundo contém. Em nenhum ele é o protagonista, em alguns é um simples observador e em outros um participante secundário dos acontecimentos, mas incapaz de mudá-los.

O roteiro de Oesterheld têm várias leituras, com diferentes camadas e múltiplas faces, nelas temos os medos da humanidade, a sua falta de escrúpulos, a perseguição dos diferentes, as tentativas de privar os semelhantes da liberdade dos poderosos, etc … Seus roteiros se movem igualmente bem para qualquer um dos gêneros que compõem a obra.

A soma de dois talentos únicos multiplica o resultado, dando origem a um clássico. Oesterheld é mestre do ritmo narrativo, por causa da publicação seriada de suas obras, que embora sigam a estrutura dos folhetins com final de episódios terminando em continuo, na sua leitura nos dá a impressão de ser uma obra planejada e totalmente fechada. Os textos de apoio são abundantes, mas em nenhum momento são supérfluos ou repetitivos, antes sempre acrescentam algo à história. O trabalho é uma descoberta contínua de ideias, com uma grande construção de personagens e uma beleza que, embora sombria, é cativante.

Outra característica que o diferencia dos demais é que, apesar das coisas terríveis que nos contam, nunca há juízo de valor, nem heróis, nem vilões, que avalia são seus leitores.

Breccia dá um salto que o colocou no auge de Will Eisner, Osamu Tezuka, Hergé ou Winsor McCay como um dos autores que ampliam as possibilidades gráficas do meio. Em Mort Cinder, temos um  antes e um depois de Breccia. Encontramos, por exemplo, a partir de uma simples construção de página, composta por três tiras por página nas verticais e duas na paisagem,  uma aula de como fazer uma história em quadrinhos. Vemos como sua linha passa progressivamente do realismo ao expressionismo, evolução que não se deterá neste trabalho, mas acompanhará todos os seus trabalhos posteriores. Esse expressionismo é parcialmente interrompido na última história do volume para desenhar algumas das melhores cenas de ação da história. Todo o trabalho gráfico de Breccia é um reflexo da escuridão que ele sentia dentro dele, já que quando Mort Cinder era desenvolvido sua esposa estava muito doente e esse trabalho serve para, de alguma forma,  exorcizar seus demônios.

Mort Cinder é uma das obras capitais dos quadrinhos, uma obra prima que ganha uma edição a altura. Um trabalho que não pode faltar em sua biblioteca. Recomendadíssimo.

OS AUTORES

Héctor Germán Oesterheld (1919) foi um roteirista e editor argentino, seus primeiros roteiros de quadrinhos saíram nos anos 1950, colaborou com vários desenhistas, destacando Hugo Pratt com Sargento Kirk, Ticonderoga e Ernie Pike; Francisco Solano López com o qual realizou El Eternauta; e com Breccia, que formou um das melhores parcerias da história do meio, do qual surgiu obras como Sherlock Time, Mort Cinder, Vida del Che, Richard Long e uma versão de El Eternauta. Em 1977 foi sequestrado pelas forças armadas durante o regime ditatorial do país, sendo um dos muitos desaparecidos. Suas ideias de liberdade e humanismo sobreviveram aos seus assassinos.

Alberto Breccia (1919) é um ilustrador uruguaio que iniciou suas carreira aos 19 anos. Em 1946  começou a desenhar Vito Nervio, que lhe dá notoriedade. Em 1958 iniciou a sua colaboração com Oesterheld na série Sherlock Time, desta colaboração surgiram obras tão importantes para as suas carreiras como Mort Cinder, Vida del Che, Richard Long e uma nova versão de El Eternauta. Em 1973, junto com o roteirista Norberto Buscaglia, adaptou Los mitos de Cthulhu, de H. P. Lovecraft. Ao longo de sua carreira também foi responsável pela adaptação de obras de Borges, García Márquez, Edgar Allan Poe ou Ernesto Sabato, entre outros. Seu outro grande colaborador nos roteiros foi Carlos Trillo com quem em 1974 criou Un tal Daneri, além de El viaje de Gris, Nadie e Buscavidas. Seus últimos grandes trabalhos seriam Dracula, Dacul, Vlad?, Bah…, Perramus com roteiro de Juan Sasturain e Report on the blind. Breccia faleceu em Buenos Aires em 10 de novembro de 1993.

Nota: Épico – 5 de 5 estrelas

Mort Cinder, uma impactante e indispensável narrativa gráfica
5 / 5 Crítico
Avaliação

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