O Fim do Reino Sombrio

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O Fim do Reino Sombrio | Quadrinhos | Revista Ambrosia[Este artigo contém muitos spoilers para aqueles que não acompanham o andamento original das HQs da Marvel]

Hoje a Marvel finalmente encerrou seu grande ciclo de sagas iniciadas com “A Queda” dos Vingadores lá em 2004, seis anos depois desta empreitada, a mais poderosa equipe da Marvel volta finalmente a se unir (quer dizer, pelo menos os três Vingadores que realmente importam, Homem de Fero, Capitão América e Thor).

O caminho foi longo e repleto de altos (Civil War, House of M, Secret War) e baixos (World War Hulk, Secret Invasion), mas o status quo do Universo 616 finalmente voltou ao normal, depois de quase seis anos de intensas mudanças. Nós aqui do Ambrosia iremos assumir que o leitor está familiarizado com este longo percurso, a idéia com este artigo é emular aquele que escrevemos ao fim da Invasão Secreta, onde fizemos uma crítica geral sobre a série e suas conseqüências. Portanto, façamos deste artigo uma espécie de continuação daquele escrito há dois anos atrás.

Antes da crítica per se, farei um pequeno apanhado dos acontecimentos para organizarmos um pouco as idéias.

O Fim do Reino Sombrio | Quadrinhos | Revista AmbrosiaO Reino Sombrio

A fase iniciada com o fim da Invasão Secreta não pode ser descrita por menos que excelente. Se a idéia da Iniciativa era boa, um mundo dominado por Osborn e seus vilões era ainda mais interessante. Os Vingadores, reflexos distorcidos da equipe original, possuíam uma química intensa e protagonizaram a mais vendida série mensal da Marvel nestes dois anos. Osborn se mostrou um grande líder para um grupo de assassinos e desajustados que tomou de assalto o Universo Marvel.

A resistência também viveu a altura, em Novos Vingadores, tínhamos uma equipe perseguida e consumida por sua aversão ao status quo, Clint Barton crescia para se tornar um líder duro e amargurado com o mundo que se desdobrava perante a ele, decidido a limpar o nome dos Vingadores e do Gavião Arqueiro (Hawkeye) personificado pelo Mercenário (Bullseye, como eu odeio essas traduções de nomes de heróis), Clint e seus companheiros enfrentaram bravamente todos os desafios que lhe foram impostos.

Acho que outro destaque importante deste momento na Marvel foi a série do Tony Stark, onde ele viveu o homem mais perseguido do planeta, a caçada do Osborn em cima dele é fantástica (leia mais sobre o Stark aqui). Um papel de importância também foi representado pelo excelente Capuz, novo Rei do crime e aliado de Norman, assim como a perigosa relação que o líder da Hammer manteve com o Dr. Destino.

O Fim do Reino Sombrio | Quadrinhos | Revista AmbrosiaO início de Siege

Todos sabiam no entanto que Norman Osborn era louco, mesmo que ele verdadeiramente estivesse tentando manter o mundo mais seguro, havia a certeza de que em algum momento a coisa toda iria descarrilar.

Loki, desde o início um dos grandes manipuladores do Reino Sombrio, percebeu que o momento era certo. Thor havia deixado Asgard, que se encontrava bem menos protegida do que na época em que seu irmão era rei. O deus da trapaça não só convenceu Osborn de que atacar Asgard era necessário como também arrumou uma desculpa para ele poder seguir adiante com este plano (o acidente onde Vollstag acaba destruindo um estádio), Loki também dá poderes aos aliados do diretor da Hammer (notoriamente o Capuz, que munido das pedras norn consegue aumentar o poder de fogo de todos os super vilões sob seu comando) e faz barganhas suspeitas com Hella e Mephisto para seu próprio benefício.

E assim temos o início dessa curta (felizmente) saga, as forças de Norman viajam até Oklahoma para derrotar Asgard. Em lugar de destaque estão os Vingadores Sombrios, particularmente o excelente Ares, que desde a Guerra Civil se tornou um dos personagens mais legais do elenco de Bendis, já que Osborn teve de mentir para o deus covencendo-o que Loki havia virado Rei de Asgard.

A invasão é bem sucedida tão somente pela presença do Sentinela, um ser de poder ilimitado que está domado por Norman. Ares, descobrindo que haviam mentido para ele, se volta contra Norman, mas o próprio Sentinela se encarrega de mata-lo em uma das mais sangrentas cenas das Hqs.

Quando tudo parece perdido os heróis chegam ao cerco, liderados por Steve Rogers e contando com a reunião de Homem de Ferro e Thor o dia começava a mudar.

O Fim do Reino Sombrio | Quadrinhos | Revista AmbrosiaO lado sombrio do Sentry

E então Robert Reynolds, o Sentinela já há muito dominado por sua contraparte maléfica o Void (acho que aqui é Vácuo), resolve libertar todo o seu poder, e em um único instante ele destrói toda a Asgard.

Loki se faz de acuado com a situação e pega de volta as pedras mágicas que havia dado ao Capuz e resolve as usar para ajudar os heróis e salvar Asgard. No processo Loki parece se sacrificar e morrer como um herói (mas sobre isso na crítica a seguir). Depois de uma luta intensa o Homem de Ferro através de seu extremis usa o grande aeroporta-aviões da Hammer como uma bala, finalmente conseguindo abalar o Void fazendo com que Bob voltasse ao comando em seu corpo. Bob implora por sua morte e parece não agüentar os atos de sua contraparte que luta pelo domínio do corpo. Thor finaliza a luta, e leva os restos inconscientes do Sentinela para o Sol.

Nos epílogos os heróis estão de luto pela morte do grande Robert Reynolds (The Golden Guardian of Good) e relembram sua memória. Steve Rogers é apontado pelo presidente como substituto de Norman nas questões de segurança meta-humana e a lei de registro é revogada.

O Fim do Reino Sombrio | Quadrinhos | Revista AmbrosiaSegredos e críticas

Bem, a primeira crítica positiva que tenho fica para a parte visual. Siege é muito bonita pelos traços de Oliver Coipel (House of M) e graças a sua importância na revitalização da revista do Thor acredito que ele tenha sido a escolha certa para uma saga protagonizada em Asgard.

Em termos de roteiro, assinado mais uma vez por Brian Michael Bendis, acredito que também estamos diante de uma boa obra. A história é bem contada, possui um ritmo funcional e tem bons diálogos. Atrapalha um pouco saber com meses de antecedência que a Saga já havia sido escrita para estabelecer a Heroic Age, afinal, torna a coisa toda um pouco previsível, mas confesso que mesmo sabendo o final, me surpreendi com várias atitudes tomadas no caminho.

É importante dizer que acredito que Siege tenha sido uma boa história para unir os três grandes heróis da Marvel. Todos passavam por um período de renascimento que finalmente era estabelecido aqui. O vilão, apesar de ter vindo da revista do homem-aranha se transformou rapidamente em uma ameaça pessoal aos Vingadores, principalmente Tony e Thor. Para o primeiro, ele foi o homem que lhe tirou seu trabalho para logo em seguida caçá-lo, destruir sua firma e levá-lo ao momento mais baixo de sua carreira, Norman fez de Tony seu inimigo pessoal e por isto este precisava confrontá-lo. Já Thor teve seu Reino invadido, saqueado e destruído pelo maníaco. A menor motivação talvez venha de Steve, que simplesmente voltou a vida para ver seu mundo destruído e seus amigos acuados, mas convenhamos que esta razão é mais do que suficiente.

Devo mencionar que eu gostei muito da participação de Ares, ele já havia se tornado um dos meus Vingadores preferidos por roubar muitas cenas na equipe (tanto em Mighty Avengers quanto em Dark Avengers) e por estrelar excelentes mini séries. Ares só foi para a guerra por causa de uma mentira de Norman. De muito longe ele era um dos poucos membros do grupo com valores bem definidos e um pesado senso de honra. Ao descobrir o engodo, o Deus da Guerra se volta contra seu chefe e acaba tendo de enfrentar o Sentinela (destaque para Ares dizendo para Bob: eu pensei que nós fóssemos amigos). Vou sentir falta do personagem, pelo menos no tie in dos Secret Warriors vemos a reação de seu filho Fobo, o Deus do Medo, e ele mostra uma cena que diz que nenhum deus pode realmente morrer. Ares fala a seu filho que ele vai apenas passar um tempo no Hades, mas que um dia ele vai sair de lá. Eu fico na espera, pelo menos, Fobos mostra ser um personagem tão legal quanto o pai.

Sobre o Sentinela eu já falei um bocado. Mas gosto de reafirmar o quanto gostava do personagem, mesmo ele tendo sido muito mal usado em diversas sagas. Até hoje não entendo como a Guerra Civil durou mais de dois minutos se ele assumiu um lado (para que fazer um clone do Thor quando se tem um Sentry?). Ainda sim, achava ele muito interessante e sua relação com Osborn foi muito bem desenvolvida, afinal, assim como Bob, o diretor também tinha uma contraparte maléfica que ele aprendeu a domar.

Gostei da morte do Sentinela, era algo necessário. O personagem era legal, mas ao mesmo tempo poderoso demais para existir na Marvel. A revista que mostra seu epílogo é até tocante, mostrando milhares de coisas sobre a história dele que nunca tivemos chance de ver, como o fato dele ter ajudado Tony com seu alcoolismo, ou ter tido um caso com a Vampira, a razão do porquê o Coisa o odiava, etc… A impressão que deu é que realmente tivemos uma morte grandiosa e impactante, mesmo nunca tendo relembrado suas histórias. Mesmo dominado por Void, Bob acaba ficando marcado como um grande herói.

Norman também protagoniza uma excelente cena, dessa vez em sua cela da prisão, onde ele demonstra que realmente tudo o que ele desejava era proteger o mundo, mas que sempre havia um duende no caminho.

O Fim do Reino Sombrio | Quadrinhos | Revista AmbrosiaA grande verdade é que o maior vilão, como deveria ser nas melhores histórias do Vingadores, é Loki. O “irmão” de Thor não só apoiou e ajudou a solidificar todo o Reinado Sombrio, como também teve em Siege um grande palco para sua atuação. Mesmo que tudo que tenha acontecido seja culpa de Loki, ele também conseguiu se sacrificar e “morrer” aos olhos de todos como um herói. E acredito que todo o esforço do personagem para fazer o cerco à Asgard foi justamente por isso. No tie in de Loki, descobrimos que ele não mediu custos e conseguiu de Hella o dom da imortalidade. Garantido esta condição ele não hesitou de criar uma guerra onde ele aparecia para salvar o dia no final, se “sacrificando” no processo. Fico pensando que tipo de trapaças Loki irá realizar agora que é um deus tido como morto e herói.

Por fim, o grande e quase abissal defeito do final, repousa na situação dos heróis no mundo Marvel, ou o fim da lei de registro. Primeiramente, o que mais me incomoda é: eu tinha a impressão de que nos tempos do Nick Fury a Shield era um órgão internacional, tipo uma super Interpol, ou uma iniciativa atrelada a ONU. Aparentemente não, a Shield não passa de mais uma das muitas agências de segurança estadunidenses (como o FBI, a CIA, o NORAD e etc) já que seus diretores podem ser nomeados ou demitidos de acordo com a vontade do presidente. Foi o que aconteceu com Tony e é o que acontece agora com o Steve, que é solicitado por Obama para ser o novo chefão. Só que agora que ele manda na Shield de novo (não sei se vão ressuscitar a Shield, mas é bem provável) ele simplesmente revogou a lei de registro, uma lei que como foi mostrada originalmente transitou durante anos na Casa Branca até finalmente ser aprovada majoritariamente não só pelos senadores, mas também pelo povo? Mas hein? Tipo acho que combina com o personagem lutar conta esta lei, mas isso podia ser uma luta política dentro da revista do personagem e que levasse algum tempo para ser revogada ou modificada (a lei de registro apareceu por alguns anos na revista do Vingadores e do Homem de Ferro até ser aprovada).

É sério, o total descaso político que Bendis teve aqui, apenas para trazer a Marvel de novo ao seu status quo padrão foi completamente indesculpável. Estou ansioso para ver como será esta nova Era Heróica, mas ainda que Siege tenha sido uma boa saga, esse desastre político me fez começar a nova era com o pé esquerdo.

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