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O retorno do Monstro do Pântano de Alan Moore

monstro-do-pantano-panini-comics-01-alan-mooreFinalmente relançado o 1º volume da Saga do Monstro do Pântano, escrita pelo lendário Alan Moore e transformada em imagens pelos extraordinários Stephen Bissette e John Totleben. Marco dos anos 80, quando os quadrinhos passaram por uma revolução no gênero – começando finalmente a ser encarados como literatura adulta – foi o cartão de apresentação de Alan Moore, autor até então pouco conhecido.
O Monstro do Pântano, criado por Len Wein e Berni Wrigthson em 71, já nasceu, de certa maneira, como uma afronta ao Comics Code – numa volta ao gênero de terror – e apesar de marcar época, rapidamente perdeu o fôlego. Suas estórias tinham um tom melancólico e, apesar de uma vasta galeria de estranhos e ricos personagens, giravam sempre em torno do desejo de vingança do nosso infeliz herói, fugitivo eterno, preso ao corpo de um monstro.
Moore dá uma guinada de 180º e, com uma ousadia parecida com a de Frank Miller e seu Demolidor, revoluciona toda a concepção do Monstro de maneira magistral, tornando-o um Ser Elemental: não um HUMANO preso num corpo vegetal, portanto, mas um VEGETAL com resquícios de consciência humana. Com estórias de cunho psicológico, Moore faz Alec passar por uma auto-descoberta, aceitando sua nova condição para, só a partir daí, viver suas aventuras, agora com uma outra perspectiva. No arco American Gothic, o Monstro conhece John Constantine (criado pelos três artistas e que, em pouco tempo, teria revista própria, virando um dos personagens mais badalados da atualidade, com filme em Hollywood e o escambáu), um mago poderoso que traria maturidade a esse aprendizado no Verde. Durante essa saga – quando eles cruzam os EUA, revisitando a América, sua história e mitos (escravatura, conquista do oeste, vampiros, lobisomens, serial killers…) ele amplia então seus poderes, descobrindo toda a verdade sobre sua origem: não um acidente, como pensava, mas algo propositalmente reincidente, que fornecia ao mundo do Verde, de tempos em tempos – num autêntico ciclo de morte e renascimento – seu campeão e protetor.
saga-monstro-01A Saga do Monstro do Pântano de Moore/Bissette/Totleben deu origem ao selo Vertigo da DC Comics – enterrando de vez o Comics Code – e fez parte desse período de ouro, na década de 80, quando Moore ainda nos brindaria com Watchmen, V de Vingança e Miracleman (inédito no Brasil, também a ser editado pela Panini). Ao lado de artistas como Frank Miller, Neil Gaiman, Art Spiegelman, Dave McKean, Grant Morrison, Bill Sienkiewicz, os irmãos Hernandez (entre outros) ajudaria a cunhar – de modo involuntário – o termo Graphic Novel, uma tentativa dos críticos de definir obras muito mais elaboradas formal e conceitualmente, que já não se encaixavam mais como o “velho e bom comics”. Vale lembrar que foi nessa mesma década que Art Spiegelman ganhou o prêmio Pulitzer – de Jornalismo – com Maus, passando a ser editado pela Penguin Books, e que Moore recebeu o Hugo – de Literatura de Ficção Científica – todos, até então, INÉDITOS para Histórias em Quadrinhos.
A edição da Panini Comics tem uma qualidade gráfica muito boa – muito necessária para aproveitarmos cada centímetro da arte-final refinada e inovadora de John Totleben que, em conjunto com Bissette, criou um estilo visual bastante exuberante, pequenas obras de arte em painéis que servem belamente à estória e nos fazem sentir – quase tocar e cheirar – os musgos e folhas de cada recôndito pantanoso. O papel, infelizmente, é o ponto fraco – principalmente se comparada a qualidade do lá de fora – e realmente não ajuda na fixação das cores. Outro detalhe perdido são os títulos de cada estória (principalmente o nome do protagonista SWAMP THING) que, ao invés de serem preservados no original – foram feitos ao melhor estilo Will Eisner, se integrando belamente ao resto da imagem, mais uma vez num trabalho incrível da dupla de desenhistas – foram simplesmente trocados por MONSTRO DO PÂNTANO em português, numa solução gráfica, digamos, bastante tosca.
saga-monstro-01Esperamos também que não aconteça a mesma coisa que houve com “Monstro do Pântano – Raízes”, lançada há pouco tempo pela própria Panini, com as primeiríssmas estórias do nosso herói, ainda de Len Wein e Bernie Wrightson. O primeiro volume com a metade das estórias foi lançado, mas o segundo – que completaria o arco – simplesmente não deu as caras até hoje, sem maiores explicações, frustrando os leitores.
Apesar dos percalços, é uma bela edição – principalmente pra quem só tinha a saga da época da Abril, no famoso formatinho. Bem cuidada, tem a introdução e prefácio preservados, além das capas originais antes de cada estória, com um bom trabalho dos nossos profissionais brasileiros no resto do letreiramento e na tradução. Parabéns aos editores pela iniciativa; é, com certeza, um RELANÇAMENTO IMPERDÍVEL para os amantes da 9ª arte (ou mesmo para quem simplesmente gosta de uma boa estória de Horror, visto sob uma perspectiva diferente). Depois de lê-la, vc nunca mais vai olhar para um pântano da mesma forma. Ou mesmo, quem sabe, para uma samambaia…
 

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