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Os quadrinhos que o governo dos EUA queria proibir

Acusadas de incentivar a delinqüência juvenil, as histórias em quadrinhos de horror foram banidas das bancas norte-americanas em meados do século passado. No início dos anos 1950, movimentos populares já tinham conseguido proibir a venda de quadrinhos violentos em algumas cidades, como Oklahoma e Houston. Esses movimentos ganharam mais força e popularidade após a publicação, em 1954, do livro “Seduction of the Innocent”, escrito pelo psiquiatra Frederic Wertham, que afirmava ter constatado que a leitura de quadrinhos estimulava o comportamento violento.

A pressão aumentou quando, ainda em 1954, o Subcomitê de Investigação da Delinquência Juvenil do Senado dos EUA realizou uma série de audiências com o objetivo de provar a influência negativa que as HQs exerciam sobre os jovens leitores. As audiências foram transmitidas pela TV e vários políticos espertalhões se aproveitaram da situação para aparecer em rede nacional fazendo ridículos discursos moralizantes. Para evitar algum tipo de punição por parte do governo, as editoras criaram o Comics Code Authority, uma forma de autocensura que praticamente proibia cenas de violência e erotismo nos quadrinhos.

O livro “The Horror! The Horror! Comic Books the Government Didn´t Want You to Read”, do escritor e editor Jim Trombetta, é uma coletânea que investiga os quadrinhos que atormentaram os EUA no início dos anos 1950. Trombetta selecionou e comentou 16 histórias completas e mais de 100 capas de gibis da época. A primeira parte do livro mostra como os quadrinhos de horror foram uma evolução dos quadrinhos de crime e gangster publicados desde os anos 1930. Dois ótimos capítulos abordam a criação do Comics Code e a desastrada participação de William Gaines, proprietário e editor da lendária editora EC Comics, nas audiências do Subcomitê de Investigação da Delinqüência Juvenil do Senado. Na segunda parte da coletânea, Trombetta analisa cada subgênero das HQs de horror (lobisomens, vampiros, zumbis, etc). Embora suas opiniões sejam sempre interessantes, algumas são questionáveis e deverão provocar polêmica. No capítulo “The Tale of the Head”, por exemplo, Trombetta associa os quadrinhos em que aparecem cenas de decapitação, comuns no período pós Segunda Guerra Mundial, a um suposto costume dos soldados norte-americanos: as cabeças de alguns combatentes japoneses mortos eram cortadas, e os crânios enviados para os EUA como troféus de guerra. Segundo o autor, os soldados japoneses tinham um costume semelhante.

As HQs escolhidas para ilustrar cada capítulo são uma boa amostra de como eram as narrativas de horror daquela época. Embora as cenas desses gibis pareçam inofensivas nos dias de hoje, durante os anos 1940 e 1950 nenhuma outra mídia veiculava imagens tão violentas; nem mesmo o cinema, que já possuía seu próprio código de autocensura desde os anos 1930.

Editores, roteiristas e desenhistas se esforçavam para mostrar seus personagens sendo mortos das mais diferentes e arrepiantes maneiras. Cabeças e membros decepados eram mostrados com detalhes sangrentos, assim como pessoas torturadas, enterradas vivas e afogadas. Mas por mais apelativas que fossem as cenas vistas nessas revistas, os roteiros eram sempre moralistas e nada do que era publicado poderia ser visto como elogio da criminalidade.

“The Horror! The Horror!” reúne trabalhos obscuros e interessantes de alguns grandes artistas como Steve Ditko, Johnny Craig e Basil Wolverton. Ditko, que anos depois ajudaria a criar o Homem-Aranha, desenhava de modo meio grotesco e retorcido. Craig possuía um traço realista, preciso, que seria muito imitado. A arte de Wolverton era inconfundível, inundando cada milímetro dos quadrinhos com diferentes texturas, deixando suas ilustrações com certa aparência de gravuras antigas. O livro também traz trabalhos de artistas menos talentosos, mas que são interessantes pelo seu valor histórico. A ingenuidade dos enredos algumas vezes era compensada pela imaginação quase delirante dos roteiristas, em histórias sobre pessoas que derretiam, alienígenas parasitas e vermes gigantes que dominavam a Terra.

O ponto fraco da coletânea é não trazer nenhuma história completa da EC Comics, uma das poucas editoras que tentaram injetar criatividade no gênero, abordando temas polêmicos como racismo, linchamentos patrióticos e corrupção policial. Talvez por ser a mais bem sucedida editora de HQs de crime e horror da época, a EC foi a maior vítima do Comics Code. Todas as suas publicações do gênero foram canceladas antes do final de 1954, recusadas pelos distribuidores que temiam protestos públicos e retaliações legais. Dois anos após a criação do código de autocensura, apenas uma revista da EC podia ser encontrada nas bancas: um novo gibi de humor chamado MAD.

A censura dos quadrinhos de horror obviamente não ajudou a baixar os índices de delinqüência juvenil. Foi apenas uma medida populista e equivocada que iludiu os pais durante algum tempo. Poucos anos depois, imagens muito mais chocantes seriam amplamente divulgadas em revistas e jornais “sérios”, ilustrando matérias sobre guerras como as da Coréia e do Vietnam.

Em 1971 o Comics Code foi reformulado pela primeira vez. Tornou-se gradativamente menos rigoroso, até ser abandonado em 2011 pelas editoras DC e Archie Comics, as únicas que ainda o adotavam.

“The Horror! The Horror!” traz como bônus um DVD com um curioso e obscuro programa de TV de 1955, apresentado por um sujeito canastrão que repete a ladainha de sempre contra os gibis. O clímax do programa é uma precária encenação na qual algumas crianças, após lerem revistas de quadrinhos, torturam um garoto menor. Os pais que assistiram à cena devem ter vasculhado suas casas em busca dos temíveis gibis que transformariam seus filhosem criminosos. Hoje, esses gibis parecem inocentes, ingênuos, até mesmo cômicos. Horrível é constatar que a população de um país pode ser facilmente manipulada por políticos e apresentadores de televisão.

Título: The Horror! The Horror! Comic Books the Government Didn´t Want You to Read

Editor: Jim Trombetta

Editora: Abrams ComicArts

Ano de Edição: 2010

304 páginas

[xrr rating=3,5/5]

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Publicado por Gustavo Guimaraes

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