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Releitura: Ronin, a obra que transformou Frank Miller

No caminho de todo grande artista há um momento que ocorre uma mudança súbita, como um estalo. Uma evolução interna do autor, algo que se traduz em um salto de qualidade em seu trabalho, transformando e renovando esteticamente seu trabalho. É como sair da sua zona de conforto para enfrentar desafios para inovar. E um exemplo, é Frank Miller, com sua minissérie Ronin, publicada pela primeira vez em 1983, uma obra que mudou seu autor quanto o meio.

Quase quarenta anos depois, podemos dizer que, Ronin é, em muitas ocasiões, uma obra esquecida ao fazermos uma revisitação ao trabalho de Miller. Seu trabalho em Demolidor (Daredevil); em Batman: O Cavaleiro das Trevas; em Batman Ano Um; Sin City; e 300 se destaca, monopolizando os holofotes do público, mas é Ronin que mudou tudo, até mesmo o próprio Frank Miller.

Em nossa releitura, procuramos atentar sobre o desenvolvimento da obra e a análise de sua representatividade na História das HQs.

A história por trás da minissérie

Contextualizando, o ano é 1982, Miller estava terminando seu trabalho com o título do Demolidor ao lado do artista Klaus Janson. Após quatro a frente do título, o roteirista estava considerando as possibilidades que tinha como um dos artistas mais importantes do momento.

Enquanto isso, a DC Comics se recuperava, após o fracasso que levou a quase falência no final dos anos 1970. O trabalho da equipe reunida por Jenette Kahn trouxe mudanças, como revitalização de títulos e de personagens, implantação de novas e diferentes estratégias editoriais e de vendas e a busca dos talentos mais cobiçados da indústria.

A então presidente e editora da DC, flertava com Miller naquele período, já que o contrato com a Marvel terminava. E ofereceu ao autor total e completa liberdade para desenvolver a história que desejasse e da maneira que entendesse. Já Miller exigiu condições após o sua experiência na Casa das Ideias, entre elas, ser reconhecido como autor e criador da obra, ter os seus direitos autorais, trabalhar em cor direta sem os processos de coloração mecânica e outros pontos relacionados à editoração.

A DC concedeu a liberdade total e absoluta de criação, e foi na hora certa, quando Miller já sabia exatamente o que fazer; e Ronin se tornou a maneira que o quadrinista teve para abrir novos caminhos, quebrar modelos, definir conceitos e mudar a forma como o quadrinho era visto até aquele momento.

O processo criativo para a minissérie foi um grande desafio para Miller. O autor teve que lidar com problemas que não percebera anteriormente, quando estava na Marvel. Entre elas, temos a concepção da obra, o seu planejamento, a mudança no estilo de desenho, o controle na imprensa, a criação de um novo formato para um quadrinho, entre outros obstáculos.

Frank Miller se destacou por sua capacidade de romper modelos, em moldar um cânone a um novo olhar. E ao chegar na DC, tinha uma quantidade de novas ideias envolvendo o passado e o futuro, honra, sociedade, disciplina, tecnologia, ciência e ecologia. A mente de Miller amalgamou toda essa essência que culminou nessa minissérie, superando qualquer obstáculo e marcando a indústria.

A arte em Ronin

Miller já estava desbravando novos caminhos com novos layouts de página, brincando com o texto, a espessura das linhas, close-ups, planos e quadros cortados, violência, morte e dor como nunca foram vistos e sentidos em uma história em quadrinhos.

Temos em Ronin, um Miller diferente e desconhecido até então. Carregado de energia onde a experimentação narrativa adquire um novo sentido e onde a cor se torna protagonista indispensável de toda a obra.

Ronin é uma minissérie que bate no leitor. Miller sintetiza mais seu estilo, racionalizando o supérfluo, eliminando planos de fundos, para nos dar o mínimo de informações para compor a cena em nossa mente. Um exercício de contenção que rompe com tudo o que Miller fez anteriormente.

Com um traço super estilizado, ousado e quase surrealista. O que levou a uma rejeição à minissérie, mas era preciso pois Miller abria, como um quebra-gelo um novo caminho em termos de narrativa e composição, e inventando novas ferramentas gráficas com as quais seguia na direção do desconhecido.

Mas essa primeira impressão cai, pelo que apresenta o talento de Lynn Varley, uma artista de fora da indústria, que não teve medo em aplicar cores experimentais nas páginas de Ronin.

A cor nos leva a ver além do que está na página, à medida que o traço do lápis, tinta e cor se fundem em uma única unidade que se traduz em dos mais ambiciosas narrativas gráficas da nona arte.

São cores sensuais, atípicas, disfuncionais que abre a porta para novos processos de cor desconhecidos na época. A cor foi tão importante para o desenvolvimento da HQ, que Miller, Varley e seu editor foram ver o processo de impressão para que tudo saísse como Varley havia definido em sua prancheta. Um objetivo que levou os profissionais da indústria gráfica a capturar a versátil e estranha paleta de cores de Varley, mas que foi preciso supervisionar todos e cada um dos números restantes para conseguir o acabamento ideal que a obra merecia.

A DC criava um novo formato para aquela edição, a versão luxo, necessária pois exigia um papel melhor do que o padrão de produção mensal. Tudo isso, roteiro/tarte/cores/edição foi uma mensagem clara aos leitores e editores, que entenderam que surgia um novo tipo de leitor: um público mais adulto, que busca obras onde sua capacidade intelectual seja valorizada.

Capa da edição da Panini, lançada em 2016

História 

Em um passado distante… um importante senhor do Japão antigo é eliminado por uma entidade de puro mal. Um jovem guerreiro jura vingança e torna-se um samurai sem mestre – um ronin – preso em uma luta eterna contra o demônio que assassinou seu patrono. Em um futuro próximo… uma grande corporação da selva urbana de Nova York está se preparando para lançar uma mortal nova tecnologia, e um infantilizado telepata e uma corajosa chefe de segurança são as únicas coisas em seu caminho. Quando esses dois mundos colidem, sonhos e realidade se misturam em uma apocalíptica batalha final – e, no coração desse caos, um solitário guerreiro enfrentará o maior dos testes à sua fidelidade.

Ronin é a história de um passado e de um futuro que se unem por meio da ciência. Do Japão feudal à mais decadente e tecnificada Nova York, um samurai sem senhor, voltará para resolver os erros do passado, seja qual for o poder de alcançá-lo.

Miller traz com Ronin seu interesse que já demonstrava com o Demolidor pela tradição japonesa, moldando um cadinho em que o passado e o futuro se misturam organicamente, quando a tecnologia é o próximo passo na evolução. Nova Iorque é engolfada pela Inteligência Artificial que substitui o obsoleto, o podre e morto, pelo novo e puro. A ideia é avassaladora.

A obra aborda um roteiro denso, mas que se desenvolve leve a longo de suas páginas. Tudo flui em uma direção e o faz de forma natural e orgânica, sem recorrer a textos de apoio e deixa que os diálogos entre os personagens nos forneçam as informações de que precisamos. Os leitores são espectadores de um mundo futuro apocalíptico, onde entendemos as coisas que acontecem à medida que a história se desenrola. Não há nada que nos introduza aos acontecimentos, mas entramos de forma abrupta, para não poder mais sair até terminarmos de ler a obra.

Análise

Se você olhar atentamente para o trabalho gráfico de Miller em Ronin, notará que traços do que mais tarde se tornaria a marca registrada de Sin City. Não é muito difícil ver nessa minissérie uma colagem completa do que Miller nos traria no futuro em um nível puramente plástico e artístico. Portanto, Ronin representa o ponto de inflexão de Miller, seu marco pessoal sem o qual não poderíamos estar falando de obras tão importantes para o gênero como Batman: Year One, 300, Sin City ou a trilogia de Cavaleiro das Trevas.

Ronin foi o trabalho do nunca antes feito e graças a isso hoje podemos dizer que a nona arte mudou para sempre no final de 1983. O resultado final do trabalho é um híbrido entre quadrinhos americanos, europeus e japoneses, algo que foi muito contra tanto na crítica quanto nas vendas. Ronin não conseguiu conquistar seus leitores na época em que foi lançado, apesar de ter uma produção, estética e público-alvo alinhados ao mercado direto, que seria o futuro da indústria.

Por fim, Ronin é uma das obras fundamentais para entender o quadrinho e sua evolução como arte sequencial. Ronin é um dos pilares da nona arte, um ponto evolutivo que mostrou os mecanismos adequados para o que estava por vir. Ler e confrontar Ronin é um ato essencial na formação de todo leitor de quadrinhos.

Avaliação: Obra-prima (5 de 5 estrelas).

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