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Resenha: Prelúdios e Noturnos

Resenha: Prelúdios e Noturnos | Quadrinhos | Revista AmbrosiaDo contrário do que é normalmente afirmado, eu não recomendaria que se começasse a ler Sandman por esse volume. Em particular, acredito que apesar de “Prelúdios” como HQ ser uma obra muito acima da média, ela esteja bem abaixo do padrão estabelecido pela série Sandman. Me lembro que quando ouvi falar nesta obra prima dos quadrinhos pela primeira vez fiquei completamente atordoado pela idéia e pelos conceitos por trás dos Perpétuos, e o primeiro arco que tive em mãos foi o fascinante “Terra dos Sonhos”. Lembro de ver estampado naquelas quatro histórias tudo que hoje eu amo em Sandman, então, acabei comprando Prelúdios depois de já ter iniciado minhas leituras nesse universo.

O resultado é que fiquei bastante desapontado (até por que a edição que comprei originalmente, por algum motivo editorial sinistro, não vinha a edição número oito que para mim é onde a série realmente começa), aquelas histórias não me se pareciam com o mundo fantástico e subjetivista que já havia entrado em contato. Na verdade, tirando por alguns momentos excelentes (como o duelo de Chorozon) parecia um quadrinho da DC comum (o selo Vertigo ainda não existia, e as aparições de personagens da Liga da Justiça ou de Etrigan me incomodavam). Neil Gaiman diz que quando ele recebeu a tarefa árdua de escrever um quadrinho seriado mensalmente, ele ficou bastante perdido sobre o que fazer: “naquela época Sandman era apenas jogar barro na parede. Para todo o resto do que eu fazia, eu possuía uma justificativa a estética, ou pelo menos uma racionalização e um monte de regras  que seriam importantes, na esperança de transformar a mídia HQ de uma maneira positiva. Sandman era apenas meu quadrinho mensal.” Fica claro que mesmo a genial fórmula do título,  um personagem que é uma máquina de histórias (mais sobre isso na minha reflexão sobre a série), ainda não havia entrado em vigor no  primeiro arco (talvez em doses menores como a garçonete de 24 horas, em Sandman #6).

A história, ainda que boa, é muito linear e tem um certo tom de aventura comum. O personagem, é claro, já era intrigante e bem pensado, mas de muito longe a melhor coisa nessas primeiras revistas são as referências para o futuro. É ver Merv Pumpkinhead dirigindo um ônibus, ver Rose e Foxglove sendo citadas, assim como os demais Perpétuos e mais importante, o aprisionamento de Sonho, onde ele parece um feto em um útero, simbolizando sua transformação e renascimento naquele período. Prelúdios e Noturnos era até então uma bela semente para a melhor das histórias, entretanto não perde seu caráter de um trabalho que ainda não floresceu. Sandman número 1 foi a quarta HQ que Neil Gaiman escreveu em sua vida (Começando por “The Green Man” com o Monstro do Pântano, que foi um “exercício” para seu professor e amigo Alan Moore, passando por “Violent Cases “e “Orquídea Negra”, ambas com Mckean) e isso é bastante explicito no texto que foi amadurecendo conforme o caminhar das edições.

Outra coisa interessante de se falar sobre o livro é justamente algumas curiosidades sobre o mesmo. A primeira na verdade só chegou a aparecer na primeira edição do arco seguinte, quando Neil escreve um editorial explicando “a história até agora”. Nela ele explica como uma entidade poderosa como Sonho foi capturada por um maguinho como Burgess. Segundo o autor, ele queria que quem lesse um texto recapitulando acontecimentos ganhasse alguma informação nova. Portanto, para aqueles que só compraram os encadernados e não possuem as revistas originais, o que ele explica é que  no momento do ritual, Sandman estava quase morto depois de batalhar com forças que  já o haviam enfraquecido até exaustão. Que forças seriam essas, ele deixa para especulação.

Uma coisa muito legal da história é que muitas vezes ela é, como em toda boa obra, anti-climática, o esperado raramente acontece. No principio por exemplo, estamos lidando com um ser que vive em meio ao mundo de sombras e devaneios. Ao contrário da típica jornada heróica onde o protagonista vem de uma origem simples e humilde para mergulhar nos mistérios do mundo, sonho faz o inverso. Um monarca de um reino bizarro é aprisionado em um porão do mundo real. Ao contrário de um herói, ele passa seus 70 anos de aprisionamento em silêncio, e ao sair, gasta toda sua energia apenas para se certificar que o filho de seu captor sofra para sempre. Algo com muita simpatia a uma típica vingança Grega, Morpheus não retirou seu nome de lugar nenhum “Deus” grego que atua em sonhos.

Quando chegamos ao fim do primeiro arco e nosso protagonista já se encontra de posse de seus itens, temos uma das edições mais memoráveis e belas da série: “O som de suas asas”, onde Morte faz a sua estréia. A história parece refletir o que se passava na mente de Gaiman. E agora? O que fazer? Meu propósito inicial se acabou. Então temos uma edição sobre amadurecimento, auto-reflexão e filosofia. Acompanhamos a jornada da Morte com seu irmão em uma HQ que quase se torna poesia. Vemos um dos primeiros poemas do mundo, retirado do Livro dos Mortos egípcio, estampar as páginas de uma HQ. No final da edição temos a certeza absoluta (pelo menos eu tinha): “Agora Sandman começou, assim será a série. E se todas as edições forem como a oito, essa será a melhor série em quadrinhos já escrita”.

Felizmente foi. E a semente se tornou a árvore mais bela do jardim.

9 Comments

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  1. Comprei o Vol 1 da Pixel >_<, pelo jeito a Pixel tem mais tantos anos de vida, a edição é boa, mas penca por ser dividia em Vol1 e Vol2
    Foda…o da Conrad está esgotado…glr vende ele por + de 150, sem condições =/

  2. cara concordo contigo quanto aquela imagem que o Prelúdios e Noturnos ligou aos personagens da Liga da Justiça. Realmente era o indicativo de que o Gaiman ainda estava “perdido” quanto ao posicionamento do personagem. Engraçado é que o memso faz uma homenagem a essa fase no Despertar. Olhando bem lá no funeral do Sonho, aparece o Besouro Azul e o Ajax.

  3. Bruno, o Batman, o Supermam e o ajax tem uma conversa hilária no The Wake. Mas realmente é notável o quanto prelúdios e noturnos é ruim perto do resto da série. Excelente artigo.

  4. Sou novo em assusnto de sandman e estou adorando as materias do Ambrosia
    so que tenho uma duvida qual a ordem das coplilacoes de livros da seri pra se ler ?
    so sei o primeiro q é Pleludios e Noturnos qual os outros livros comprar a seguir?

  5. Sinceramente,começei a ler Sandman pelo preludio…e cara,comparado ao resto da serie ate que n é isso tudo,mas tenho que afirmar,me apaixonei por sandman e ainda acho uma das melhores cenas da serie(apesar de que ainda n terminei,vestibular lol) o duelo com chorozon e a saida dele do inferno…putz veio,que moral e que cena &%*! do $#@^

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Publicação Felipe Velloso