Ultimate Spider-Man ou como tornar HQs mensais algo significativo

Ambrosia Quadrinhos Ultimate Spider-Man ou como tornar HQs mensais algo significativo

Quando o Universo Ultimate foi lançado quinze anos atrás, sua única proposta era ser uma re-interpretação moderna dos personagens da Marvel. Iniciada por Ultimate Spider-Man (por Bendis e Mark Bagley) e Ultimate X-men (por Millar e Adan Kubert) no ano 2000, logo as séries foram ganhando uma identidade própria e uma popularidade que viria a influenciar diretamente todos os derivados da Marvel nos anos subsequentes, de video-games (como os jogos X-men Legends e Ultimate Alliance) até  os cinemas (The Ultimates é a base do universo cinematográfico do Marvel Studios).

Ainda que o título que Millar escreveu para seus novos Vingadores tenha entrado para a história como um dos melhores quadrinhos de super-heróis das últimas décadas, a revista do Homem-Aranha foi a única que conseguiu manter uma qualidade regular ao longo dos anos. Em grande parte isso se deu pela permanência de Brian Michael Bendis na posição de roteirista e Mark Bagley como desenhista pelas primeiras 111 edições, quebrando o recorde de dupla criativa mais longeva da história dos quadrinhos, cujo os antigos donos eram ninguém menos que Stan Lee e Jack Kirby em seu revolucionário Quarteto Fantástico durante a década de 60.

Bagley tomou a decisão de se aposentar, mas Bendis decidiu seguir escrevendo as histórias de Ultimate Spider-Man por 200 edições, passando praticamente 15 anos escrevendo o mesmo personagem.

Arte de Mark Bagley para a edição número 100 de Ultimate Spider-Man.
Arte de Mark Bagley para a edição número 100 de Ultimate Spider-Man.

Peter Parker é, sem a menor sombra de dúvidas, um dos personagens mais importantes do século XX. Considerado o primeiro super-herói verdadeiramente humano, com problemas reais e emoções reais, seus quadrinhos viriam a revolucionar completamente a indústria e dar a hegemonia do público para a nascente Marvel Comics por 50 anos. A figura de Peter Parker não pode ser desassociada de seu alter-ego, o Homem-Aranha, e os momentos e desafios vividos por Peter como a falta de dinheiro, sua inaptidão social ou seus problemas de relacionamento eram tão importantes quanto os super-vilões que ele encarava mascarado.

A nova pegada de Brian Michael Bendis trazia um Peter um pouco mais adequado para os dias de hoje, um nerd crível para esta geração pós-guerra fria, cujo mundo o permitia ter bons amigos e um pouco mais de manejo social. O que ficou foi o mesmo coração de ouro que torna o Aranha um dos maiores heróis de todos os tempos, com todas as suas dúvidas e incertezas e a tentativa de sempre fazer o certo, apesar dos diversos tropeços da vida.

Alguns dos rascunhos de Mark Bagley para a série.
Alguns dos rascunhos de Mark Bagley para a série.

Nem todas as duzentas edições de Ultimate Spider-Man são excelentes, mas a maioria se mantém muito acima da média do que é tradicional nos quadrinhos mensais estadunidenses. Uma das maiores forças desta série, junto com o personagem título, era a presença de um elenco de apoio completamente estelar. A Tia May do universo Ultimate é uma mulher muito forte e determinada, praticamente um ícone da luta feminista em sua emancipação e em sua capacidade de bancar com seu trabalho uma casa para seu filho adotivo (Peter) e tantos outros refugiados que vieram se abrigar em seu teto ao longo da série. Mary Jane não é mais uma aspirante a modelo e atriz e sim a Nerd da escola interessada em jornalismo político. Gwen continua sendo a mesma pessoa doce e compreensiva que Stan fez com que todos os leitores se apaixonassem na década de sessenta, além de muitos outros personagens.

Uma das principais características de Bendis como autor é suas edições “talking heads” baseadas no fato de que muitas vezes, nenhuma ação acontece e a edição inteira são conversas entre alguns dos personagens. O forte elenco de Ultimate Spider-man e um desenvolvimento consistente de personagens fez com que algumas destas edições paradas, pudessem ser marcadas efetivamente como um dos melhores trabalhos com Hq nos últimos anos, tornando a necessidade de vestir a máscara e bater em super vilões completamente efêmera.

Ultimate Spider-Man sempre fez questão de ser uma celebração do personagem de Peter em seus 50 anos de existência. Bendis se inspirou em todos os grandes arcos do personagem (até mesmo a infame Saga do Clone que rendeu uma excelente personagem para o universo ultimate) além de fontes mais diferentes como o desenho Spider-Man and his Amazing Friends. Apesar de todas as histórias fabulosas, nada se compara a decisão do autor de matar Peter Parker.

A Marvel depositou muita confiança no roteirista para deixá-lo fazer uma coisa praticamente impensável nos últimos 50 anos, matar o personagem mais adorado da editora. O que parecia um malabarismo publicitário acabou se mostrando uma das mais belas histórias já contadas sobre o Aranha, e seu sacrifício heróico na tentativa de proteger aqueles que ele amava. Peter teve um final digno, certamente a mais bem escrita morte de um super herói de quadrinhos, com um excelente título póstumo revelando as diferentes repercussões de seu falecimento para o mundo. As cenas com J. Jonah Jameson são particularmente tocantes, bem como seu discurso a respeito do cabeça de teia.

A morte de Peter, desenhada por Leinil Francis Yu.
A morte de Peter, desenhada por Leinil Francis Yu.

E então veio Miles Morales, um novo Homem-aranha para uma nova década, filho de um negro com uma latina, o novato capitaneou uma tendência inclusivista dentro da Marvel que parece em vigor até agora (com a paquistanesa muçulmana Miss Marvel como fruto mais recente desta corrente), buscando dar voz a novos públicos e desfazer certas injustiças históricas que relegaram todos aqueles que não eram homens brancos ao elenco de apoio do quadrinhos.

Miles Morales, um sucessor digno de Peter Parker.
Miles Morales, um sucessor digno de Peter Parker.

Miles é um personagem muito diferente de Peter, mas como ele, é um ser humano completo com emoções e problemas críveis. Os dois compartilham o mesmo coração de ouro e a vontade de fazer o bem, mas suas histórias (e até alguns dos poderes) não poderiam ser mais distintos. No fim, Bendis fez história de novo e Miles se tornou um personagem extremamente popular e abraçado por todos. Seguindo cautelosamente os passos de Peter, o novo Homem-aranha tentava honrar o nome de seu antecessor, e ao longo dos últimos dois anos ele se provou ser um herói à altura.

Chegamos essa semana no impressionante marco de 200 edições de Ultimate Spider-Man, como não poderia deixar de ser, Bendis decidiu fazer uma edição belíssima em seu estilo “talking heads”, ou seja, nenhum tipo de ação acontece, temos apenas os personagens principais conversando. A ocasião não poderia ser melhor, dois anos depois da morte de Peter, Tia May chama praticamente todos os personagens que já figuraram na revista, para um jantar em memória do homem-aranha original. Aqui, cada um dos personagens fala um pouco sobre a sua relação com Peter, e o que eles imaginam que ele teria sido se estivesse vivo. Cada um dos discursos é ilustrado  por um dos artistas que já trabalhou com Bendis em Ultimate Spider-Man, resultando em uma edição primorosa e nostálgica.

Mais uma vez somos levados a refletir como Peter transformou radicalmente a vida de tantas pessoas a sua volta, como seu coração de ouro foi capaz de tocar completamente a quase todos que tiveram contato com ele. Ultimate Spider-Man 200 é uma elegia ao finado Parker, e uma eficiente recapitulação de todos os personagens que transformaram a série no que ela é hoje. Um marco de estabilidade e qualidade em um mundo que foi destruído pela presença de maus autores (cof… Jeff Loeb) e má gerência editorial. Enquanto todas as linhas do universo ultimate parecem lentamente terem perdido o brilho, o homem-aranha apenas melhorou, garantindo uma consistência absolutamente surpreendente para uma série com 200 edições.

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