Um encontro com Obama

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A já chamada Obamania é explorada pela mídia estadunidense – e também mundial – de forma quase ofensiva ao cidadão comum. Independente de suas idéias para a política e soluções para as mazelas econômicas mundiais, socialmente Obama é visto como um salvador, e é normal que num país em que presidentes são vistos como o máximo de sucesso pessoal e profissional, alguém tão promissor vá parar nas capas de todas as revistas, inclusive em quadrinhos.

Savage Dragon e Barack Obama.
Savage Dragon e Barack Obama.

Recentemente o presidente eleito em 2008, Barack Hussein Obama, encontrou-se com um importante personagem dos anos 90 chamado Savage Dragon. Criado por Erik Larsen em 1986 e um dos personagens mais famosos da Image Comics, o policial mal encarado não só conheceu Obama como também apoiou sua candidatura em seu fictício universo. Agora foi Joe Quesada, editor-chefe da Marvel Comics, que falou à CNN sobre a participação do novo presidente em uma curta história do ícone máximo da editora, o Homem-Aranha, que o salvará uma ameaça à cerimônia de sua posse envolvendo o vilão Camaleão.

Para quem não acompanha quadrinhos, outros presidentes já estamparam muitas HQs, como Bill Clinton no Retorno do Superman e George W. Bush em algumas HQs da Marvel, editora que faz questão de usar presidentes do mundo real em seu universo. Um dos casos mais famosos envolve o assassinado John Kennedy, que se encontrou com Superman na mesma época em que foi morto.

A questão que fica no ar é: a política e as histórias em quadrinhos são tão indissociáveis assim? A princípio não, já que a função mãe de uma hq é pura e simplesmente entreter o leitor. Porém, fica claro o quanto reflexos sócio-culturais influenciam na escrita, arte e desenvolvimento de uma história, seja ela boa ou ruim. Além dos exemplos acima, tivemos ainda em 2008 uma minissérie voltada exclusivamente à política na DC Comics, chamada DC Decisions, escrita por Judd Winick. Ainda na DC, o próprio Arqueiro Verde já se meteu à ser prefeito de sua cidade, Star City. O ponto chave dessas reflexões é o quanto elas podem ser parciais ou uma grande influência para leitores despreparados ou desprovidos de uma opinião mais concreta e concisa.

Propaganda de Oliver Queen para Prefeito ao fundo

Bush é informado dos atentados
Bush é informado dos atentados.

Por mais que artistas possam, e devam, usar-se de coisas à sua volta para formular seus trabalhos, a política, bem como a religião, merece um toque delicado e cuidadoso por parte de quem vai utilizá-la. Ver seus heróis favoritos tendo encontros amigáveis e humanos com um candidato pode fazer com que o fã dê a esse candidato seu voto, mesmo não conhecendo a história e as propostas desta pessoa para o cargo que almeja. A verdade é que é impossível dissociar duas coisas que andam tão juntas: na década de 60, tínhamos o auge da Guerra Fria e histórias que mostravam o oposto disso, com divertimento e inocência, para uma população tão assolado pelos males da batalha sem fim. Passados 20 anos, o inimigo passou a ser o próprio governo, como podemos ver em O Cavaleiro das Trevas, Watchmen e V de Vingança – nesta última, o governo inglês.

Obama e o Amigão da Vizinhança
Obama e o Amigão da Vizinhança.

A Era Bush trouxe à tona uma série de inimigos e vilões que não eram tão comuns nos quadrinhos, o vilão do mundo real: terroristas e aficionados religiosos que matam em nome de um ser de maior grandeza. A batalha política de Bush pós 11 de Setembro gerou uma desconfiança e uma raiva no povo estadunidense que foi impossível de ficar de fora das histórias que lemos, com heróis lutando entre si, altas traições e espionagem.

Tudo isso aproxima ainda mais o leitor do mundo real e são meios de informar e conscientizar os fãs de que o mundo está aí debaixo do nosso nariz e não devemos voltar às costas para a realidade, mas sim encará-la, absorvê-la e tratar dela com seus próprios pensamentos. Entretanto, que certos pontos mostrados na história sirvam apenas como entretenimento ou informação

Mas uma questão fica no ar: passada a Era Bush e seus afegãos terroristas, quem será o novo inimigo? General Zod fará Obama se ajoelhar perante ele? É esperar pra ver.

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5 thoughts on “Um encontro com Obama

  1. É uma grande questão mesmo, principalmente quando você fala sobre influenciar leitores apenas pelo herói endossar tal candidato como no Savage Dragon. Muito bom para reflexão, começou com o pé direito heim Morcelli 😀

    PS: Em Ex Machina o herói também é prefeito, aliás ele é prefeito por ter sido herói…

  2. A maioria das HQ pode ser uma obra de expressão e pode entreter , mas não concordo que TODAS as HQs são para entreterimento. Proporcionar uma experiencia estética e ou senvivel não é entreterimento para mim. E algumas HQs são verdadeiras obras de arte e arte pode entreter , mas não tem essa função. Alias, ao meu ver, arte não tem função.

    Tirando isso, maravilhosa reportagem, HQs tb sempre estiveram vinculada a contra-cultura mas também a reafirmação da cultura estadounidense.

  3. Nenhum bem cultural é isento. Os quadrinhos, como bens culturais, são expressões de ideias e sentimentos dos indivíduos imersos nos vários caldeirões culturais. Essa celeuma das HQs serem veículos de posições só tem sentido, quando se analisa o quão explicita é a expressão ou o vínculo da HQ com a ideia cultural que ela quer transmitir.

  4. Eu acho importante esse tipo de posicionamento, para mim toda imparcialidade soa como falsa, e HQs não são apenas entretenimento são uma forma de arte, que podem ser tão politizadas como qualquer outra forma de literatura…

    Mas o artigo ficou legal..

  5. Eu acho que no caso do Homem-Aranha é muito mais promoção do que qualquer posicionamento político Felipe, principalmente pois fizeram isso só depois que o cara ganhou as eleições e não antes.