La Casa de Papel é de fato uma série ruim. Ponto. Por mais que seja sedutora, especialmente pela maneira desavergonhada com que conta sua história, fica muito claro o quanto seu roteiro é frágil, com furos inacreditáveis e ainda com sérios problemas de desenvolvimento de seus personagens. Um grupo de criminosos é reunido por um misterioso personagem (talvez o melhor da série), chamado Professor (Álvaro Morte), para assaltar a Casa da Moeda da Espanha. Um assalto de bilhões de euros.

Cada um deles tem motivações diferentes para o crime. Mas é mesmo o Professor, com seu engenhoso planejamento que manipula todas as circunstâncias que esse assalto provoca, sobretudo diante de sua relação com a inspetora do caso, Raquel (Itzar Ituño, num papel ingrato desde a sua criação). Fica bem evidente que os personagens são rasos dentro de suas motivações, mais preocupadas em alinhavar tipos que aprofundá-los. Nairóbi (Alba Flores) é uma das que mais sofre desse efeito. A própria narradora da história, Tóquio (Úrsula Corberó), se resume a essa função na narrativa. Sua trama é esquecida e esvaziada entre o princípio e o fim.

Os 18 episódios (divididos em duas partes) não foram suficientes para evitar que a narrativa se equivoque sob o roteiro que subestima claramente nossa inteligência. O excesso de coincidência para justificar as viradas dramáticas; o investimento injustificado em melodramáticos romances para tapar os buracos do excesso de personagens (o maior assalto do país acontecendo e a responsável pelo caso se joga num romance “adolescente” com o responsável pelo crime).

A busca pelas viradas são de uma  inverossimilhança irritante – a cena dos reféns no terraço e o retorno de um dos assaltantes a Casa da Moeda, furando o bloqueio policial, chegam a ser desrespeitoso com nosso tempo, e por aí vai. Isso sem contar os personagens ou “núcleos” que esboçam alguma importância para a trama, mas são sumariamente esquecidos, como a refém, filha do embaixador e o fato do centro de inteligência não precisar ao certo – mesmo com alguns dos reféns libertados horas antes – que havia mais de um túnel de fuga dos assaltantes.

Tecnicamente bem feitinha e dirigida (apesar de nas cenas de tiroteio, a montagem ser bem esquisita), La Casa de Papel não se difere em nada das novelas. Só que as novelas são assumidamente folhetins, o que diz muito sobre a sua estrutura. A série que a Netflix comprou de uma canal espanhol não. Ela até bebe muito da fonte de clássicos filmes de assalto. Mas na verdade, o intuito parece ser só divertir, mesmo que para isso tenha que prescindir de sentido. Ou apenas de inteligência mesmo.

Obs: diferente da TV espanhola, onde surgiu e foi primeiramente exibida, a série fez tanto sucesso e barulho que a Netflix produzirá uma nova temporada. Não saber o que isso significa acaba fazendo parte de sua graça.

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