I know this much is true
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Minissérie I Know This Much is True é uma crônica dolorosa da vida real

Quem somos nós? Fazemos esta pergunta a nós mesmos desde o momento em que nos damos conta de que somos indivíduos únicos em meio a bilhões de outras pessoas num mundo caótico em que passado, presente e futuro muitas vezes se confundem.

Essa é a pergunta que o protagonista da minissérie I Know This Much is True se faz, sabendo que “ser único” é relativo, estando em meio a uma série de tragédias pessoais, das quais somos testemunhas e as quais julgamos, mesmo sem querer.

Thomas e Dominick Birdsey (Mark Ruffalo) são irmãos gêmeos que nasceram em dias, meses, anos e décadas diferentes. Thomas nasceu em 31 de dezembro de 1949 e Dominick em 1° de janeiro de 1950.

Eles não conheceram o pai biológico – sobre o qual a mãe deles (Melissa Leo) inclusive se recusava a falar – e foram criados pela mãe e pelo padrasto Ray (John Procaccino). No final da adolescência, na iminência de ser convocado para o exército, Thomas começou a apresentar um comportamento diferente. Ele dizia estar sendo observado pelo governo e que pode provar que teve sensores de espionagem implantados em seu corpo.

No ano de 1990, Thomas, esquizofrênico, faz um ato de sacrifício e corta sua própria mão dentro de uma biblioteca. Dominick impede que os médicos implantem a mão de volta, atendendo a uma súplica de Thomas. Depois de curado da ferida corporal, Thomas é enviado para uma clínica psiquiátrica de segurança máxima, e Dominick fará de tudo para tirar o irmão do lugar ao qual ele não pertence.

Dominick sempre diz que Thomas “deixou de se importar” depois que os delírios paranoicos ficaram cada vez mais frequentes. Na cabeça de Dominick, o irmão não mais ligava para a família ou outras pessoas próximas. Assim como acontece com muitas pessoas, Dominick tem algumas ideias pré-concebidas e preconceituosas sobre esquizofrenia.

O estigma, que ainda hoje existe, era ainda mais forte 30 anos atrás. O cérebro de Thomas funciona de maneira muito diferente, mas isso não significa que ele é incapaz de ser carinhoso, atencioso ou de ter noção do que acontece, como fica claro em alguns momentos da minissérie.

Embora saudável do ponto de vista psiquiátrico – ou seja, não “louco” – Dominick tem problemas graves, como um trauma familiar que ainda o assombra e faz sofrer. Ele tem muito a passar a limpo, a ressignificar; ele tem de entender, como na frase de autoajuda, que “passado é lugar de referência, não de residência”.

Ray, padrasto de Thomas e Dominick, criou-os com violência. De fato, o homem bruto acredita que Thomas não seria “esquisito” se tivesse sido “criado direito”. Além desse preconceito, vemos problemas dentro do próprio sistema que deveria tratar a saúde mental dos pacientes – quando Thomas alega ter sido estuprado dentro do hospital psiquiátrico, por exemplo, uma funcionária diz ser apenas “pânico homossexual”.

Vemos ainda problemas que persistem 30 anos após a história da minissérie ser contada, como corrupção e acordos internos para que crimes não sejam conhecidos e manchem o nome da instituição.

Durante a internação de Thomas, Dominick recebe de volta a autobiografia traduzida do avô – ele havia escrito a história de sua vida em italiano, antes ainda dos gêmeos nascerem, e Dominick pediu que a acadêmica Nedra Frank (Juliette Lewis) traduzisse o manuscrito. Dominick lê o relato ao mesmo tempo em que deixa a TV ligada nos noticiários sobre a então incipiente Guerra do Golfo – um conflito que Thomas havia previsto e com o qual havia ficado obcecado.

Na leitura, Dominick descobre altas doses de machismo, traição fraternal e violência doméstica na história de sua família. A questão é: seria a violência ocorrida no seio familiar tão ou mais catastrófica que as barbaridades de uma guerra?

Como era de se esperar, o papel duplo de Thomas e Dominick é desafiador, e tanto Mark Ruffalo quanto o jovem Philip Ettinger, que interpreta os irmãos no final da adolescência, estão magnéticos em cena. Ruffalo ainda tem a mudança visual para se apoiar – Thomas é mais gordo que Dominick, e não tem barba – de maneira que, ao menos para mim, as nuances na interpretação de Ettinger são as mais impressionantes.

A história contada em um livro de mais de 900 páginas foi condensada em apenas seis episódios. Por causa disso, o episódio cinco inclui um desenvolvimento muito rápido de histórias paralelas e o episódio seis é mais longo que os demais. Isso, entretanto, não prejudica a minissérie, que desenvolve bem seus personagens – com exceção de Joy (Imogen Poots), namorada de Dominick, que aparece pouco na minissérie e bem mais no livro – e amarra as histórias com destreza, fugindo do óbvio.

Magnética desde o primeiro episódio, I Know This Much is True está longe de retratar o lado bom da vida, mas sim o lado doloroso e difícil que todos nós já conhecemos, de uma maneira ou de outra. Com ótimas performances e direção segura de Derek Cianfrance, a minissérie nos leva a repensar nossas próprias relações com as tradições, as crenças e o passado.

Nota: Épico (5 de 5 estrelas) 

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