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A força do presente reinterpretada no musical "Ópera do Malandro"

O musical Ópera do Malandro é a obra teatral mais representativa de Chico Buarque. Ela se notabiliza, em sua essência, pela controvérsia de seus termos. Decalcada das costelas de “A Ópera do Mendigo” (1728) de John Gay e “A Ópera dos Três Vinténs” (1928) de Bertolt Brecht, o musical nasceu da necessidade do autor em metaforizar a máquina política do Estado Novo Varguista, numa esperta alegoria transposta para a Lapa carioca dos anos 40 onde a metáfora do ambiente ordinário retratado cabia (e ainda cabe) ao oportunismo reinante no poder público.
O diretor João Falcão remonta o espetáculo fazendo uma grande mudança artística: com exceção da atriz Larissa Luz, que faz um papel masculino, todo o restante do elenco é de atores, que se revezam em papéis de ambos os sexos. Uma decisão arriscada que se revela ambígua num olhar mais distanciado. A unidade forte conseguida pelo conjunto de atores solidifica a escolha, porém, se tem uma habilidade claríssima no que diz respeito ao que Chico compõe é a forma impressionante como consegue falar às mulheres, por uma embocadura feminina. Daí, não tem como não pensar que números musicais como os das canções “Pedaço de Mim”, “Folhetim” e, mais explicitamente, “O Meu Amor”, ganharia mais consistência dramática se feitas por atrizes.

Foto: Leo Aversa - Crédito obrigatório.

Mas Falcão tem uma ideia firme de seu todo e o espetáculo, com eficiente iluminação de César Ramires, flui de maneira certeira em seu primeiro ato, com destaque para a abertura, com marcações bonitas e ágeis. O figurino de Kika Lopes pouco acrescenta ao universo buscado e a coreografia de Rodrigo Marques, tem boas soluções gerais.
O elenco como um todo está carismático, com o cantor Moyseis Marques – estreando como ator – apresentando segurança na função, Eduardo Landin roubando a cena com sua Geni (personagem já muito bem construída) e mais uma atuação brilhante e personalista de Davi Guilherme (um dos pontos altos de Todos os Musicais de Chico Buarque da Charles Möeller e Claudio Botelho). O único senão fica por conta da fraca presença de Larissa como “oradora” da história. Mas senão mesmo é a segundo ato do musical, onde o roteiro derrapa numa resolução apressada e anti-climática que, mesmo ressaltando o discurso do passado diante do presente um tanto oportuno, artisticamente, resulta bem aquém do que Falcão vinha propondo até ali. Acaba que a diferença entre as partes fica bem evidente. É o resultado de uma aposta no risco. E qualquer adaptação de uma obra de Chico Buarque merece o risco para além de juízo de valor.

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