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Missa Leiga, de Chico de Assis, com direção de Marcio Boaro, está em cartaz no Teatro Teatro Arthur Azevedo, na Mooca

Com direção de Adhemar Guerra e produção de Ruth Escobar, a estreia de “Missa Leiga” em 1972, foi realizada em São Paulo em uma antiga fábrica abandonada. A montagem havia sido concebida para ser na Igreja da Consolação, porém, às vésperas de ser encenada recebeu uma negativa – os católicos não permitiram.  A peça, com música de Cláudio Petraglia, cenários e figurinos de Joel de Carvalho e um elenco de 30 atores, entre os quais estava Armando Bógus e Buzza Ferraz e, posteriormente, no Rio, Sérgio Britto.

Missa Leiga ganha montagem do diretor Marcio Boaro, a partir de 25 de março no TEATRO PAULO EIRÓ em temporada até 10 de abril. Em seguida, parte para o TEATRO ARTHUR AZEVEDO ficando em cartaz de 14 a 24 de abril e de 05 a 08 de maio. “Estamos comemorando a curta temporada de estreia no Paulo Eiró, tivemos uma média de 83 espectadores por apresentação, totalizando um público de quase 1000 pessoas, diz o encenador Boaro.

Considerada, por muitos, obra prima do autor, Missa Leiga driblou a censura ao se utilizar da estrutura de uma missa católica para falar sobre o que acontecia no país em pleno regime militar, bem como materializar o entrecruzamento das diferentes crises que eclodiam no mundo no início da década de 1970, que economicamente rumavam ao neoliberalismo. O texto empregava os choques do “tempo do templo com o tempo do mundo” de maneira a criar tensões úteis para se pensar o Brasil.

É um complexo desabafo do homem para Deus. Antioração de nossa destruição e Chico de Assis esclarece que é uma “peça sobre o Tempo do Mundo. Tem a estrutura da missa católica, laicizada. Trata da responsabilidade humana diante da vida”.

Chico de Assis ao identificar claramente os males do novo modelo de acumulação capitalista dá a Missa Leiga uma força duradoura. A frase em epígrafe, parte de uma fala do Corifeu, oferece uma chave de reflexão sobre a peça e o mundo neoliberal: “Só uma consciência em cacos entende um mundo despedaçado”.

“Chico soube criar obras que uniam uma profunda reflexão sobre o país a formas artísticas genuinamente brasileiras. Essa combinação é a grande força de Missa Leiga”, diz Boaro, que já montou As Aventuras e Desventuras de Maria Malazartes durante a Construção da Grande Pirâmide, também de autoria de Assis.

Chico de Assis acabou se tornando um interlocutor fundamental ao longo dos anos da Cia. Ocamorana em conversas, reuniões, palestras, aulas que fizeram com que o coletivo apreendesse de forma privilegiada seu pensamento criador.

A Cia. Ocamorana trabalhou desde o início em Missa Leiga com a perspectiva do teatro épico, e concebeu uma montagem profundamente fiel ao texto de Chico sem deixar de abrir espaços de criação na obra, de forma a ressaltar as tensões de sua transposição para o tempo presente. O objeto de estudo e pesquisa foram os cacos citados na epígrafe acima.

“Hoje temos nossas graves mazelas; pandemia, guerras e fascismo; a força conservadora sendo imposta e nossa montagem deve resgatar um pouco do sonho hippie presente naquele momento, e ir além, dando sentido ao novo em uma sociedade mais plural, mais “feminina”, revela Boaro.

 

Marcio Boaro fala de sua ligação com Chico de Assis

Eu e Chico nos conhecemos durante uma temporada do espetáculo A Máquina de Somar, na Funarte, em 1998, com a Companhia Ocamorana de Teatro. Imediatamente ele nos convidou para participar do SEMDA (Seminário de Dramaturgia do Arena), do qual era fundador e coordenador, e a afinidade nos fez naturalmente começar a trabalhar juntos. Era um homem de teatro, egresso do Teatro Arena, fundador do Centro Popular de Cultura e autor de grandes sucessos, com uma cultura vasta e com uma grande consciência política e preocupação social.

Durante esses anos, pessoas que conhecíamos por pesquisas nos foram apresentadas por Chico, como seus amigos Zé Renato, Gianfrancesco Guarnieri e Fernando Peixoto. Foram anos de convivência e aprendizado contínuo; Chico se apresentava mais como companheiro do que como mestre, sem arrogância ou relação hierárquica. Neste período pensamos em montar uma peça de Brecht, mas Chico, com grande cuidado, fez um gesto de generosidade e nos ofereceu As Aventuras e Desventuras de Maria Malazartes durante a Construção da Grande Pirâmide, texto que ele escreveu para descrever as implicações políticas e sociais da construção de Brasília e que foi censurado pela ditadura, pouco antes da estreia. Apesar de a peça ter sido escrita nesse contexto, permanecia totalmente atual há 16 anos (como ainda é, mais de 50 anos após ter sido escrita). O próprio Chico de Assis nos dirigiu, durante nossa estada no teatro de Arena. Na mesma época, dissemos que gostaríamos de montar uma peça infantil e ele escreveu para nós Quebra Vento e Dorminhoco – O triunfo da amizade. Com o passar dos anos, tomamos nosso caminho, mas sempre permanecemos próximos dele.

Apesar dessa proximidade e dos anos de grande convivência, podemos nos distanciar e ver o grande dramaturgo que é Chico de Assis. Ele, em suas mais de 30 obras, passeia pela dramaturgia, experimenta diversos conceitos e o faz sempre com sucesso. É um dos maiores dramaturgos brasileiros, além de ter criado um método didático de análise e criação dramatúrgica único. Esse grande Homem de Teatro ainda têm suas palavras frescas e seus discípulos abundantes.

Evoé, Chico!

 Este trabalho é uma oração pelo destino do mundo e do homem. Cada parte deste texto segue as partes tradicionais da missa Católica Apostólica Romana. A secularização de muitas partes é uma mensagem direta ao tempo do mundo e os textos sagrados fazem parte do tempo do templo. Na busca da síntese não encontramos mais nada senão medo e fuga. É possível que existam outras soluções, mas estas que se seguem nos parecem imediatas e inevitáveis. Conscientes de nossa profunda ignorância diante de Deus e do universo, nos confessamos errados e iníquos.

Nosso gesto e nossa atitude representam apenas uma corrida para longe de Deus, para podermos gritar o que não basta mais ser sussurrado e dito em voz meiga. Entre conhecer o homem e Deus, temos mais oportunidades de conhecer o homem e a humanidade. Esta missa leiga tenta representar esta ideia e este vínculo. Se a verdade começa dentro de mim pela centelha divina da vida, então este testemunho é verdadeiro. Se o homem é uma fraude, então é fraudulento. Diante do limite da morte geral da humanidade que se autodestrói, nossa oração tem seu sentido. Transportarmos o tempo do mundo para o tempo do templo é a ligação maravilhosa que tentamos. Espantar-nos diante da absurdidade da sociedade atual é a ligação perplexa que sofremos.

Recorrermos ao efêmero e ao eterno com a mesma simplicidade é a nossa forma de verdade.

 

São Paulo, 1972.

Chico de Assis

 

Este projeto foi realizado com o apoio do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para a Cidade de São Paulo – Secretaria Municipal de Cultura.

 

FICHA TÉCNICA

Texto: Chico de Assis

Músicas: Cláudio Petraglia

Direção Geral: Márcio Boaro

Assistente de Direção: Eduardo Campos

Elenco:

Alessandra Siqueyra

Amanda Nascimento

André Capuano

Arô Ribeiro

Atton

Cecília Barros

Demian Pinto

Ernani Sanchez

Joaz Campos

Luiz Campos

Maíra Chasseraux

Manuel Boucinhas

Mônica Raphael

Rodrigo Ramos

Theófila Lima

Toni D’Agostinho

Direção Musical e músico-ator: Demian Pinto

Assistente de Direção Musical e músico: Daniel Baraúna

Músicos e atores: Alberto Eloy e Ernani Sanchez

Cenógrafo e Direção de Palco: Antonio Marciano

Concepção de Luz: Luciana Silva

Operação de Luz: Luciana Silva

Figurino: Kleber Montanheiro

Preparação Corporal e Coreografia: Kátia Naiane

Fotógrafa: Fernanda Ayodelê Procópio

Assessoria de Imprensa: Adriana Monteiro

Designer Gráfico: Toni D’Agostinho

Direção de Produção: Mônica Raphael

Produção: Vanda Dantas

 

Serviço:

TEATRO ARTHUR AZEVEDO
Datas: 14 a 24 de abril e 05 a 08 de maio de 2022
Horários: Quintas, Sextas e Sábados às 21:00 e Domingos às 19:00
Endereço: Av. Paes de Barros, 955 – Mooca

Tel: 11 2605-8007

Horário da Bilheteria: Apenas no dia da apresentação, abre com 1h de antecedência do espetáculo.

Preços:R$ 20,00 inteira e R$ 10,00 (meia-entrada)

Indicação: 14 anos

Duração: 80 minutos

https://www.sympla.com.br/evento/missa-leiga-chico-de-assis/1530367

Encerrada —-TEATRO PAULO EIRÓ
Datas: 24 de março a 10 de abril de 2022

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