FOTO 1 Pia Manfroni Foto e visagismo Adriano Manques
AgendaEntrevistasTeatro

Pia Manfroni fala sobre “As Loucas de Copacabana”

Pia Manfroni transita com muita naturalidade entre o palco, a direção e a escuta do mundo. Atriz de trajetória sólida no teatro, na televisão e no cinema, ela também se afirma como diretora sensível ao ritmo da cena, ao tempo da palavra e, sobretudo, à inteligência do humor. À frente da comédia “As Loucas de Copacabana”, que retorna em cartaz para uma temporada de verão no Teatro Cândido Mendes, no Rio, Pia reafirma sua relação profunda com a comédia de costumes — aquela que faz rir enquanto revela, com precisão cirúrgica, os absurdos do cotidiano.

Ambientada em um apartamento de Copacabana nos anos 90, a peça de Gugu Olimecha — autor fundamental do humor brasileiro — encontra na direção de Pia um equilíbrio entre leveza, precisão e humanidade. Mais do que uma simples remontagem, o espetáculo se consolida como um encontro entre gerações: um texto que carrega a memória afetiva de uma época e uma encenação que dialoga diretamente com o público de hoje, sem nostalgia vazia, mas com frescor e agilidade cênica.

Nesta entrevista, Pia Manfroni fala sobre os desafios e prazeres de dirigir uma comédia que já conquistou o público, sobre o trabalho com um elenco experiente e afiado no tempo da gargalhada, e sobre a importância de espaços históricos — como o Teatro Cândido Mendes — na preservação da identidade cultural carioca. Ao mesmo tempo, reflete sobre sua atuação múltipla como artista, mentora de comunicação e empreendedora social, ampliando o entendimento do fazer artístico para além do palco. E assim, Pia Manfroni segue como um exemplo para muitas mulheres, ocupando espaços estratégicos e promovendo grandes mudanças.

Com lucidez e generosidade, Pia compartilha uma visão segura sobre carreira, formação e os caminhos que ainda deseja trilhar. Na entrevista com o jornalista Rodolfo Abreu, Pia revela na conversa não apenas os bastidores de um espetáculo em cartaz, mas o pensamento de uma artista que entende a arte como escuta, presença e transformação. Acompanhe.

Rodolfo Abreu: No início do ano a comédia que você dirige, “As Loucas de Copacabana”, está de volta em cartaz para uma temporada de verão no Teatro Cândido Mendes. O que te motiva a remontar esse trabalho e qual a importância do autor da peça, o Gugu Olimecha, para a comédia brasileira?

Pia Manfroni: Remontar As Loucas de Copacabana é celebrar a comédia brasileira no clima leve do verão. A escolha do texto partiu do Guilherme Del Rio, que faz questão de manter a dramaturgia nacional viva e apresentá-la também a um público mais jovem, que não viveu os anos 90, mas se reconhece nas situações até hoje. A montagem ganha ainda a participação especial da produtora cultural e atriz Isabella Barros, de Teresina, apaixonada por teatro, que transita entre o Rio e o Piauí levando esse amor pela cena. Além disso, trabalhar com um texto do Gugu Olimecha é valorizar um autor fundamental do nosso humor de costumes, que entende o tempo da piada e o absurdo da vida cotidiana. Montar esse espetáculo no Teatro Cândido Mendes, um espaço histórico da comédia carioca, é reafirmar nossa cultura, nossa linguagem e o nosso jeito muito particular de rir de nós mesmos.

Rodolfo Abreu: A história se passa dentro de um apartamento de Copacabana nos anos 90 acompanhando um triângulo amoroso recheado de mal-entendidos e bom humor. Como você enxerga a importância (ou influência) do bairro de Copacabana na narrativa da peça e você acha que a Copacabana de hoje ainda guarda esse espírito da Copacabana dos anos 90? 

Pia Manfroni: Copacabana é praticamente uma personagem da peça. É aquele lugar onde tudo acontece — amores cruzados, vizinhos intrometidos, segredos mal guardados e muita confusão por metro quadrado. Nos anos 90, esse clima era ainda mais explícito: apartamentos cheios de histórias, gente entrando e saindo, e uma vida privada que nunca foi tão privada assim. Ou seja, terreno perfeito pra comédia.

FOTO 3 Pia Manfrone e elenco de As Loucas de Copacabana

Rodolfo Abreu: O texto da peça tem algumas boas reviravoltas e surpresas, que torna o espetáculo ágil. Como a sua direção utilizou isso a favor do ritmo da peça, juntamente com a condução dos atores?

Pia Manfroni: O texto já vem com um ritmo muito frenético, então a direção foi no sentido de não atrapalhar a piada. Gosto de trabalhar o texto em bloco de atenção, atento às reviravoltas, mantendo o jogo rápido, entradas e saídas precisas. E o elenco sempre com escuta, prontos para virar a chave junto com o texto. A condução do elenco foi focada em tempo de comédia: saber quando acelerar, quando segurar e, principalmente, quando deixar o silêncio trabalhar a favor da gargalhada. Comédia boa é igual surfe — se perder o timing, cai da prancha.

Rodolfo Abreu: Além da direção, você contribuiu com a trilha sonora e a iluminação do espetáculo. Como foi equilibrar essas diferentes funções e o que essa experiência trouxe de novo para você como diretora?

Pia Manfroni: Foi um trabalho bem coletivo. Dividi essa construção com o assistente de direção, produtor e ator Guilherme Del Rio, pensando trilha e luz como aliados do ritmo da cena. Tudo entra para ajudar a contar a história, acelerar as viradas e valorizar a comédia.

Rodolfo Abreu: O elenco da peça é um atrativo à parte. Como é para você dirigir Narjara Turetta, Guilherme DelRio, Danton Lisboa, Rose Scalco, Andi Teixeira, Marcos Oliveira e Isabella Barros; e como é o clima dos ensaios com esse time?

Pia Manfroni: Dirigir esse elenco é um presente. O convite veio do Guilherme Del Rio, que também sugeriu o time — ele já tem uma relação artística com todos, tendo escalado Narjara Turetta e Danton Lisboa em outros projetos e acompanhando de perto o trabalho da Rose Scalco e do Andi Teixeira. Temos ainda a participação especial do Marcos Oliveira, nosso eterno Beiçola, um luxo em cena e um mestre absoluto da comédia. A Isabella Barros completa o elenco com frescor e muita paixão pelo teatro. Já trabalhei com o Guilherme em outro espetáculo, Dei a Elza em Você, então existe muita confiança e sintonia. Os ensaios são leves, divertidos e cheios de troca, com atores experientes, afiados no tempo da comédia e com muita vontade de brincar em cena — trabalho sério, mas sempre com gargalhada no caminho.   

Rodolfo Abreu: Nos últimos anos, temos visto um aumento do número de mulheres como diretoras, tanto no teatro, quanto no audiovisual. Como você enxerga o momento atual para as mulheres na direção de trabalhos artísticos?

Pia Manfroni: Vejo esse momento como um avanço real, mas ainda em construção. As mulheres estão ocupando mais espaços na direção porque sempre estiveram prontas, só não eram chamadas. Hoje existe mais escuta, mais troca e mais diversidade de olhares, o que só fortalece os trabalhos. Ainda temos muito a conquistar, mas o mais importante é que não estamos mais pedindo licença. Estamos dirigindo, criando, liderando equipes e contando histórias com a nossa própria voz — e isso já muda tudo.

Rodolfo Abreu: Sua carreira transita entre cinema, TV e teatro. Como atriz, acompanhamos você em papéis tanto dramáticos, como em comédias. O que diria da importância da formação e do estudo para transitar em meios distintos e interpretar papéis tão variados, especialmente para os novos atores?

Pia Manfroni: A formação é essencial porque te dá base, escuta e repertório para não ficar refém de um só registro. Cada linguagem pede um corpo, um ritmo e uma entrega diferentes, e o estudo ajuda o ator a fazer essa transição com consciência e liberdade. Para quem está começando, estudar é o que sustenta a carreira no longo prazo. Talento abre portas, mas é o preparo que mantém o ator em cena — seja no drama, na comédia, no palco, na TV ou no cinema.

FOTO 6 Diversos trabalhos de Pia Manfroni ao longo do tempo

Rodolfo Abreu: Você é um rosto conhecido da televisão brasileira, participando de novelas, séries e outras produções como sitcoms. Também fez trabalhos importantes no cinema, como em De Pernas pro Ar 2, e mais recentemente em Veneza e Querido Mundo. Como é para você alternar entre os universos do cinema, do teatro e da televisão?

Pia Manfroni: Alternar entre teatro, TV e cinema é desafiador e muito estimulante. Cada linguagem tem seu tempo, sua escala e seu tipo de entrega, e isso mantém o trabalho vivo e o corpo atento. No teatro, a troca com o público é imediata; na TV e no cinema, o detalhe e a precisão ganham outro peso. Essa movimentação me mantém em estado de pesquisa constante. Transitar entre esses universos amplia o olhar, afia a escuta e alimenta a atriz — no fim das contas, uma linguagem fortalece a outra. 

Rodolfo Abreu: Você atua também como mentora de comunicação e empreendedora social. De que maneira essas atividades dialogam com sua carreira artística e influenciam seu olhar sobre o fazer artístico? 

Pia Manfroni: Essas atividades ampliam muito o meu olhar artístico. A mentoria de comunicação e o trabalho social me colocam em contato direto com pessoas reais, histórias reais e diferentes formas de expressão, o que alimenta a cena e a direção. Tudo vira escuta, presença e troca. No fim, é tudo sobre comunicar melhor — no palco, na vida e nas relações. O artístico e o humano caminham juntos, e isso deixa o meu trabalho mais consciente, mais conectado e mais verdadeiro.

Rodolfo Abreu: Se você pudesse destacar um momento decisivo — um “ponto de virada” — na sua carreira até agora, qual seria e por quê?

Pia Manfroni: Um ponto de virada na minha carreira foi assumir de forma consciente meu lugar como mentora de comunicação e empreendedora social. Esse movimento ampliou meu entendimento sobre o impacto da arte para além da cena, como ferramenta de transformação, escuta e desenvolvimento humano. A criação do Centro Cultural Infinito nasce desse novo posicionamento: um espaço onde arte, empreendedorismo e inovação caminham juntos. Hoje, dirijo, atuo e crio com mais intenção, entendendo que comunicar bem — no palco e na vida — também é um ato político e social.

Rodolfo Abreu: Quais são seus próximos projetos para 2026 e além, tanto como atriz quanto como diretora? Há novos desafios no horizonte que você ainda não compartilhou publicamente?

Pia Manfroni: Como atriz, 2026 chega com estreias importantes no cinema, como Querido Mundo, de Miguel Falabella, e Missão 171, dirigido por Gualter Puppo, além de participações em filmes como Se Eu Fosse Você 3 e Álibi, todos com elencos incríveis. No teatro, sigo ensaiando a peça Mammas Mia, com atuação de Maíra Charken, atualmente em captação, que estreia primeiro como uma palestra-show cheia de borogodó, além de outros projetos em parceria com a Isabella Barros e o Guilherme Del Rio. No audiovisual, existem novos desafios no horizonte, mas ainda em fase de gestação — e como a gente sabe… palavra voa. Então, por enquanto, fica o suspense – sou dessas – misteriosa kkk

SERVIÇO – As Loucas de Copacabana
Teatro Cândido Mendes – Ipanema
20 e 27 de janeiro (terças) às 20h
5 e 12 de fevereiro (quintas) e 20 de fevereiro (sexta) às 20h

Deixe um comentário

Sugeridos
Lívia Feltre como Duende Dudú, Adriana Lessa como a Rainha da Neve e Carol Romano como Duende Dedé (Crédito João Pedro Hachiya)
AgendaTeatro

Rio Branco recebe “Sonho Encantado de Cordel, O Musical”

Com músicas originais de Paulinho Moska, Chico César e Zeca Baleiro, peça...

Captura de tela 2026 10 13
AgendaTeatro

Luiza Mariani estreia solo autoral O que meu peito carrega sobre mim

O texto da peça nasce de uma experiência pessoal de sua intérprete-autora...

Núcleo Pèrègun, formado por Carol Rocha Ewaci e Wellington Ngunga, participa do Poéticas Pretas 2026. Foto acervo do grupo
AgendaTeatro

Poéticas Pretas 2026 – Territórios em movimento

Com inspiração no pensamento da historiadora Beatriz Nascimento, o evento do NEABI/Célia...

Cinema CENTRAL Anos 1930 Acervo Fototeca Sioma Breitamn MJJF
AgendaFilmes

Os 130 anos da primeira sessão de cinema em Porto Alegre

  Em 5 de novembro de 1896, a primeira sessão de cinema de...

Captura de Tela 2026 10 15 às 15.08.45
Agenda

Atravessando Lugares no Rio de Janeiro

Com criação de Dyego Yamaguishi e Marília Mattos, espetáculo circense explora técnicas...

1 FESTA NO ARRAIAL O MUSICAL
AgendaTeatro

“Festa no Arraial, O Musical” desembarca em Brasília

Livremente inspirado em “Sonho de uma Noite de Verão”, de William Shakespeare,...

João Attuy como o Imperador Sábio, Adriana Lessa como a Rainha da Neve, Carlo Porto como o Rei Vaidoso e Guilherme Carvalho como Andersen (Crédito João Pedro Hachiya)
AgendaTeatro

Belém recebe o espetáculo “Sonho Encantado de Cordel, O Musical”

Com músicas originais de Paulinho Moska, Chico César e Zeca Baleiro, peça...

Diego Esteve e Yasmin Martins Mendes
AgendaFilmes

‘Festival Intl de Cinema de Carazinho’ chega a 2ª edição

Após o sucesso da primeira edição em 2025, o ‘Festival Intl de...

Oceano Limpo, Planeta Feliz
AgendaLançamentos

Lançamento do livro infantil “Oceano Limpo, Planeta Feliz”

O lançamento do livro “Oceano Limpo, Planeta Feliz” – Uma aventura para...

Captura de Tela 2026 10 15 às 15.23.10
Agenda

Retratos Brasileiros leva exposições para São Paulo

Retratos Brasileiros chega a São Paulo com exposições fotográficas ampliadas em quatro...

1 Naiara Martins Divulgação
Agenda

Naiara Martins canta os “Brasis” em show no RJ

O Brasil, em sua pluralidade de sons, se encontra no palco do...

Depoisdoato elenco foto2r de Elias Karabolad
AgendaTeatro

O espetáculo Depois do Ato chega ao Teatro de Arena Eugênio Kusnet

Quem foge? Quem persegue? Quem vence? A peça Depois do Ato da...

Priscilla Colombi em A Vingança é um Jardim Selvagem foto Adriana Marchiori
AgendaTeatro

“A vingança é um jardim selvagem” vai entrar em cartaz no iBT

  Pela primeira vez na capital paulista, A vingança é um jardim...

Captura de tela 2026 10 13
AgendaTeatro

Do Ventre à Cabeça, solo de Luiza Braga, estreia no Sesc Ipiranga

Com dramaturgia e atuação de Luiza Braga, e direção de Victor Mendes...

Écoute
AgendaShows

Buster Keaton em três curtas

Em apresentação única no Teatro B32, músicos franceses executam ao vivo a...

Squel Confissões de uma porta bandeira
AgendaFestivaisFilmes

‘Squel, Confissões de uma porta-bandeira’ participa da 50ª Mostra de São Paulo

Após se aposentar em 2022, Squel Jorgea decide voltar ao Carnaval do...

Foto Mariana Scofano Divulgação
AgendaTeatro

Mariana Scofano integra elenco de Heathers, o Musical, no Rio

A atriz Mariana Scofano integra o elenco de Heathers, o Musical, montagem...

Captura de tela 2026 10 13
AgendaLançamentos

Miriam Mehler comemora 70 anos de carreira na peça “Prova de Vida”

Uma senhora nonagenária precisa se apresentar à agência bancária para continuar recebendo...

JET TOUR PHOTO
AgendaShows

JET pela primeira vez no país

A espera de mais de duas décadas finalmente chega ao fim para...