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Sagrada Família – um clã que em movimentos lentos e explosivos remetem a desumanização

A peça tem inicio no escuro. Um gemido de homem e mulher. A luz no rosto de uma mulher, depois no homem. Eles giram em torno deles mesmo. Escuro.

Me pergunto: e se o amor acabasse?

Cada personagem a seu tempo, tem uma fala resoluta do que papel que representa, porém cifrado.

Não há relação entre os personagens no princípio, falas individuais não revelam vínculo entre eles.

Após ver o espetáculo até o fim, trata-se de uma tomada de consciência individual que as tensões que percorrem a linha do espetáculo, com corpo, luz e som se apresentam.

Há um pai que impõe limites na filha: hora de comer, esquenta no micro-ondas, vai estudar, toma banho, hora de dormir, escova os dentes, acorda, faz isso, aquilo, etc. Do jeito que ele quer emoldurá-la, cenicamente ela responde se contorcendo num possível enquadramento ou impossível ajuste à expectativa.

Ele diz da “graça do feminino, ficaria bem na sala, perto do vaso.”
Faz do ente feminino um objeto de contemplação inerte, que decora a sua própria vaidade.

A dor de ser provedor o faz tudo e nada, o que constrói e o que rui.
Numa fala ensimesmada, ele é o responsável, causa do desencadeamento de um imbróglio de planos físicos.

Detentor das tensões que somente a graça feminina o liberta, também explora a mulher em abusos que respondem ao desejo e realização dele como homem.
Dos seus colecionáveis, a mãe quer que a filha desapareça de sua proximidade, quando some quer a filha acorrentada a ela.

Desta contradição a mãe navega pelo som de braços abertos que abarca toda dor do encontro que vai e vem da filha.

Ela respira caricaturalmente e engendra para as entranhas as expectativas da filha, que se contorce pela expectativa enferrujada dos pais.

A mãe exausta de toda demanda que faz intermédio tem palavras de sabedoria debaixo de chuva cênica na terra germinada, uma delas é olhar para a luz e respirar docemente.

Mas os pais numa partitura que ganha velocidade, do sutil ao violento, levantar a face ao abraço, a interdependência por causa da criatura feminina.

Ela faz da sua consciência toda provocação de uma geração antiga e energia vital física a intimidade moderna.

Dentro de uma redoma de arame farpado.

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Ficha técnica

Texto, direção e cenário: Gabriela Mellão
Elenco: Ester Laccava, Eucir de Souza e Michelle Boesche
Trilha sonora: Raul Teixeira
Desenho de luz: Robson Bessa e Vinícius Passos
Figurino: Thais Nemirovsky
Coreografia: Reinaldo Soares
Produção: Berenice Haddad

Serviço
SP Escola de Teatro – Sala R1 (80 lugares)
Praça Roosevelt, 210, metrô República, 3775-8600
Pré-estreia 6ª (19/2). Sáb. e 2ª, 21h; dom., 19h.
Até 28/3. R$ 10 (a bilheteria abre uma hora antes do início do espetáculo).
14 anos. 60 min.

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