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Um é pouco, dois é bom, “Três Entas” é demais

Honoré de Balzac publicou “A Mulher de Trinta Anos” no longínquo 1842. Isso bastou para que o seu nome fosse atrelado ao das jovens senhoras que se veem nesta faixa etária. Esses seres emblemáticos que integram o sexo feminino conseguem despertar ainda dramas dentro de si quando adentram a casa dos famigerados “entas”. São cinco casas ao todo – a peça trata de apenas três, como o próprio título indica – que nos reservam as mais diversas experiências. Os homens estamos aí incluídos, pois podemos não sentir literalmente, mas basta dividir a vida com uma “enta” para viver as agruras e as delícias deste perturbado e enriquecedor, quando não enlouquecedor, período.

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Baseado no livro “Entas – Parece que foi Ontem”, de Jô Salgado, que assina a adaptação e a codireção, juntamente com Mauricio Alves, o espetáculo se desenvolve no exato dia do aniversário de 40, 50 e 60 anos de Lúcia, Emília e Tereza, respectivamente. O universo feminino, como não poderia deixar de ser, é o pano de fundo para os questionamentos levantados pelo texto e também a munição para as piadas que apresentam-se cada vez mais eficazes à medida que as personagens vão despertando a empatia do público.

O texto da peça é bastante ágil e dotado de atualidade. Temas do momento, populares nas redes sociais, são inseridos com facilidade nos diálogos da peça. Tudo graças à estrutura adotada pela autora, calcada nas conversas íntimas e despojadas entre o trio de amigas, que permite a inserção dos famosos “cacos” sem maiores prejuízos à história, garantindo, na verdade acentuando, a atemporalidade da obra. Essa característica somente vem a facilitar uma aproximação do espectador com o que ocorre em cena, tornando a experiência teatral muito mais rica e palatável.

Há tempos que as interações entre os atores de carne e osso e projeções são utilizados na dramaturgia. Em “Três Entas”, no entanto, o uso deste recurso cênico é legítimo: ilustrar de forma prática o relacionamento das protagonistas com pessoas-chave em suas biografias. O resultado alcançado é bastante satisfatório. Logo nos primeiros momentos da peça temos um panorama bastante amplo das inquietações que afligem as moças.

Toda a condução do espetáculo é feita acertadamente não de maneira simples, mas intimista, o que casa perfeitamente com a tônica dominante nos diálogos, mesmo com os mais pretensiosos que pretendem não expôr, mas definir um tópico qualquer levantado.

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Feliz é o encontro que vemos se desenrolar no proscênio durante os aproximadamente setenta minutos – seria a peça uma espécie de quarta “enta”? – de duração do espetáculo. As três protagonistas executam seu trabalho com uma naturalidade que salta aos olhos e cumprem o papel de entreter e divertir o público mais popular.

Em linhas gerais, este trabalho nos mostra com muita competência e bom humor que mesmo passada uma fração de tempo considerável da nossa existência, independente do sexo, nunca estaremos completos. Somos criaturas complexas, não definitivas. E que bom que seja assim.

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