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A afinação estética de “O Canto da Sereia”

O Canto da Sereia Rede Globo

Segue louvável a tentativa das emissoras de TV brasileiras em fazer uma dramaturgia para além do melodrama industrial tão vigente em nossa cultura. Vale dizer que isso nem é de todo mal, pois dentre tanto comodismo, digamos artístico, ainda temos obras e artistas preocupados em sair da mediocridade que tão comumente assola o nosso audiovisual. A novela Avenida Brasil, séries como Filhos do Carnaval, Os Normais e afins e nomes como Gilberto Braga, Cao Hamburger, Fernanda Young e Alechandre Machado estão aí para não nos deixar mentir. A TV GLOBO vem abrindo suas portas para uma nova leva de talentos que vêm remodulando sua dramaturgia em séries especiais como O Canto da Sereia, microssérie em quatro capítulos que fez notável sucesso no horário nobre.

Adaptada da obra de Nelson Motta, trata-se de uma história policial, descrita como um noir baiano, na qual o público acompanha as investigações de um chefe de segurança que tenta descobrir quem matou a cantora que ele estava incumbido de proteger. O texto é da trinca  George Moura, Patrícia Andrade e Sérgio Goldenberg, com supervisão de texto de Glória Perez, a minissérie tem direção de José Luiz Villamarim para o núcleo de Ricardo Waddington.

Sereia Maria de Oliveira (Isis Valverde) é uma cantora de Axé que iniciou sua carreira cantando em barzinhos. Logo chamou a atenção de Mara Moreira (Camila Morgado), empresária, Paulinho de Jesus (Gabriel Braga Nunes), produtor artístico, e Tuta Tavares (Marcelo Médici), marqueteiro, que juntos investiram no talento de Sereia, lançando-a como cantora profissional. Consagrada, em dois anos ela se transformou no novo ídolo brasileiro. O assassinato de Sereia leva Agostinho Matoso (Marcos Palmeira), chefe da segurança particular da cantora, a investigar por conta própria os principais suspeitos do crime e assim a história se desenvolve.

O Canto da Sereia Rede Globo

Ainda que tenha tido um primeiro episódio apressado, com problemas visíveis de edição, a trama funciona e representa talvez um novo passo na teledramaturgia da Globo, dado o espaço que a emissora vem dando para talentos menos viciados no traquejo televisivo. Villamarim tem vasta experiência em publicidade e uma cabeça antenada com o cinema e as séries atuais (dá para ver claramente suas referências tanto aqui quanto em Avenida Brasil). A série foi um primor de fotografia (Walter Carvalho) e direção, ainda que cometa erros graves como escalar a cantora Margarete Menezes para atuar sofridamente (!). O problema perceptível vem mais do roteiro, nosso grande calcanhar de Aquiles: a construção dos personagens é frágil  ficando um pouco difícil assimilar certas relações importantes na trama. Mas o mistério é bem defendido e solucionado e os atores deram um banho (Ísis faz do seu carisma uma arma cênica e Camila Morgado nem parece atriz latina, tanto física quanto interpretativamente). Mas o mérito mesmo é do diretor que fugiu da fetichização noir na estética e principalmente da folclorização baiana ao retratar uma Bahia soturna, mas realista e de certa forma bem moderna. A trilha sonora também é espetacular.

Ok, no geral, a série conquista pelo verniz, eu sei… Não é uma obra-prima, entretanto muito acima do que a emissora tem oferecido, sem a pretensão discursiva do correto Brado Retumbante ou a galhofa insípida de Jorge Fernando na desperdiçada biografia de Dercy. Na última cena, inspirada claramente no final de Damages, senti uma ponta de esperança nos rumos de nossa TV, ainda que tenhamos muito trabalho pela frente. Caí no canto da sereia e gostei do que vi!

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