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"Amores Roubados" e a esperança de vida inteligente na teledramaturgia brasileira

A TV aberta brasileira, tão conservadora e previsível em sua teledramaturgia, nem deixando para as séries curtas sua maior evolução artística. Claro que por trás desse novo enfoque está também uma necessidade de mercado. Assim como o NetFlix vem obrigando o mercado de TV (aberta e fechada) norte-americano a se reinventar no diálogo pregresso com sua audiência, aqui, com a cada vez maior democratização e acesso da TV fechada, em sua pluralidade, à todas a s classes, fez com que uma parcela maior da população, ou seja, de telespectadores, tenha acesso à dramaturgias e programas mais bem elaboradas e instigantes.
Isso ressoou não só sobre a TV como produtora de conteúdo, como também para os profissionais que atuam nela. Depois da ótima “O Canto da Sereia”, que uniu excelência e ótima audiência nos primeiros dias de janeiro de 2013, a TV Globo lançou no comecinho de 2013 a notável “Amores Roubados”.
Com médias admiráveis acima da casa dos 30 pontos, a série também tem o roteiro de George Moura (que roteirizou o filme “Linha de Passe”, de Walter Salles), uma fotografia lindíssima de Walter Carvalho (que vem se tornando habituê em produções “globais”. Bom sinal!) e a inspirada direção de José Luiz Villamarim (um dos responsáveis pelo êxito técnico da melhor novela recente “Avenida Brasil”), por sinal o mesmo trio da citada “O Canto da Sereia”.

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Livremente inspirada na quase parábola “A Emparedada da Rua Nova”, romance de Carneiro Vilela que retrata com virulência a sociedade pernambucana do século XIX , a série acompanha o sommelier Leandro (Cauã Reymond) um conquistador nato que se entrelaça com três mulheres (mas que ama apenas a mais jovem e vivaz delas, personagem de Ísis Valverde) quase que num vício do risco e da propulsão sexual que isso lhe traz, sobre as margens das contradições regionais e afetivas do Rio São Francisco.
Um ponto de destaque na trama é o enfoque que foge totalmente dos clichês nordestinos na TV: trata-se de um visão fictícia porém moderna da região, com uma vinícola próspera, uma classe alta com sofisticação livre de caricaturas e sem gags cômicas regionalistas. Moura quer mostrar um Brasil profundo que se identifica no implícito da divisão de classes, na objetividade das arestas sociais e na humanidade de seus seres.
O elenco traz um trio de mulheres que roubam todas as cenas: Dira Paes, se valendo de uma impressionante sensualidade (muito explorada no cinema, mas retraída na TV), para marcar a força de sua atuação; Patrícia Pillar, numa perturbação até mais orgânica que o texto que toma posse e Cássia Kiss Magro, fazendo com os olhos o que muita atriz pena para fazer com o corpo inteiro. Murilo Benício e Irandhir Santos são outros destaques já esperados. O roteiro, ao longo de seus dez capítulos, dá umas leves derrapadas, principalmente na conclusão de alguns personagens como o de Murilo ou até insubstancialidade de certas soluções dramáticas, entretanto, são senões que não diminuem a força de sua história, a precisão de sua execução e sobretudo, a sensação de que a TV aberta do país pode sair de sua zona de conforto (The XX na trilha sonora principal – ocasionando a explosão de vendas de CD do grupo por aqui –  é um sinal claríssimo) e vislumbrar uma teledramaturgia adulta e sem o domínio irresponsável do melodrama. Oremos.

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