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Lost: Constantes, variáveis e viagens no tempo

[o artigo contém spoilers]

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E finalmente acabou a quinta e penúltima temporada de Lost. Como não poderia deixar de ser, ficamos completamente “perdidos”, com o perdão do trocadilho. Lost é um seriado que nos intriga por sua complexidade. Os mais variados conceitos científicos e filosóficos abordados, somados aos mistérios da ilha, nos faz refletir sobre diversas questões pertinentes ao passado, futuro e presente dos sobreviventes do vôo 815.

Frente a isso, inúmeras teorias tentam explicar – o que até agora os roteiristas não fizeram por completo, por motivos óbvios – os grandes mistérios que se relacionam de forma tão íntima à vida pessoal dos personagens. O plot de Lost diz que a série tem como tema, a ficção científica. O mais estranho é que a maioria das teorias feitas por fãs não possuem em seu cerne, explicações de cunho científico. Este artigo talvez não seja uma teoria propriamente dita, e sim, apenas uma interpretação de alguns conceitos que foram abordados nos episódios finais. No entanto, quero deixar claro que este texto não tem o intuito de comentar a temporada atual da série, apenas fazer algumas considerações sobre alguns pontos relevantes, que talvez, o ajudará a compreender Lost como um todo.

daniel_faradayÉ interessante observar que até a 4ª temporada, mais precisamente na chegada do Dr. Daniel Faraday, as explicações científicas dadas pelos próprios roteiristas eram praticamente irrelevantes. A série se propunha a discutir questões obscuras sobre os próprios mistérios encontrados na ilha: A milagrosa capacidade curativa que o local causava a quem ali vivia e, paradoxalmente, os males a quem ali deveria nascer; ursos polares em um local de clima tropical, um monstro de fumaça que se espreitava por entre as árvores vitimando pessoas sem nenhuma razão aparente, um povo nativo aparentemente selvagem, instalações diversas de uma finada organização chamada Iniciativa Dharma, etc. Todos os mistérios, e até as pequenas explicações, se centravam nestas questões e ignoravam, de certa forma, o tema principal da série: A ficção científica. Muitos fãs se questionavam quando estas questões começariam a aparecer, já que o fim da mesma estaria para ocorrer em 2010. Até o momento, a única “explicação” deste tipo havia acontecido no 1º ARG, que no seu fim revelou que os misteriosos números presentes constantemente nos episódios, eram a resolução de um teorema proposto por Enzo Valenzetti, que regia o fim do mundo. Da forma que a resolução da equação deste teorema produzia o resultado exato do número de anos e meses até o fim da humanidade. Mas, perceba: Uma das principais explicações científicas não aconteceu no decorrer do seriado, e sim, em um jogo de realidade alternativa. O foco era claramente outro. As discussões filosóficas sobre idéias de pensadores modernos como Sartre e seu enunciado: “O inferno são os outros”, que funcionava como uma clara alusão ao comportamento do povo nativo, chamado pelos sobreviventes de: Os outros, as questões acerca do destino e a redenção de certos personagens… Simplesmente a ciência ficou de lado em um primeiro momento. Isto é fato. Mas possui explicação.

Enzo Valenzetti
Dr. Enzo Valenzetti em um dos seus experimentos

Se você acompanhou o fim desta quinta temporada, percebeu o conceito de constantes e variáveis explicado por Faraday. Já a algum tempo ficou claro para nós que os personagens são as engrenagens dos mistérios. Da forma que estes, só seriam explicados por completo, através da história de vida dos próprios personagens. Então, todo o foco filosófico claramente abordado nas primeiras temporadas tinha razão de ser, afinal, o que melhor do que a mãe das ciências para estudar o comportamento humano? Como, para compreender o todo, deveríamos primeiro entender a história de cada um, a filosofia e psicologia funcionaram muito bem para tal objetivo. Mas Lost não seria desvendado por conceitos filosóficos, apenas complementado. Observe que, na matemática por exemplo, se tivermos uma compreensão maior da lógica aristotélica, o aproveitamento do estudo dos números e variáveis torna-se mais proveitoso, já que muitos enunciados matemáticos utilizam da lógica para se auto-definir. Este é o sentido do seriado ter explorado primeiro a filosofia ao invés de conceitos científicos – que estão sendo mais utilizados nas temporadas atuais – pois, agora temos nossos pré-requisitos para entender de maneira mais clara os mistérios que envolvem a ilha. E é assim que vamos entender esta série: Com matemática.

Entendendo as equações

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Faraday disse no décimo quarto episódio algo extremamente interessante. Já sabíamos que existiam as constantes – abordadas desde a quarta temporada – mas Daniel inseriu outro fator a esta equação: As variáveis. Ele explicou que estas representam “eles”, os personagens. Este enunciado é deveras importante para entendermos esta teoria. Sabemos agora que as constantes podem ser representadas por pessoas ou coisas, que sirvam como referência a um viajante do tempo. As variáveis são apenas pessoas, ou melhor, seres vivos – já que no último episódio vimos que o cão Vincent também viajara no tempo -, e a teoria de Faraday dizia que por possuir o livre arbítrio, as pessoas poderiam mudar seu destino, justamente por serem as variáveis desta equação. Explicarei melhor as variáveis mais adiante. Vamos primeiro ao significado matemático das constantes:

Em toda equação existem constantes, que são valores inalteráveis, não importa o valor das variáveis. As constantes em Lost representam pessoas, eventos ou objetos situados no tempo que representam uma referência lógica à variável. Da maneira que, se hipoteticamente uma pessoa viaja no tempo, esta deve possuir uma referência para que esta viagem tenha um fim, em algum lugar do tempo. Este ponto final é estipulado pela constante daquela variável no tempo. Não importa o que aconteça, em teoria, a constante daquele “tempo” é inalterável, ela deverá existir naquele momento, independentemente dos valores das variáveis. Se um viajante não possui uma constante, as oscilações temporais tornam-se indeterminadas até o momento em que este ser morre. Matematicamente falando, a inexistência de uma constante implica na existência de outras variáveis, o que significa para aquele viajante, ou seja, para aquela variável, existirá diferentes valores no tempo, logo, a solução da equação é indeterminada. Seria o mesmo que igualar duas incógnitas. Você não terá a solução da equação, terá apenas a identidade, da maneira que, para diferentes valores de uma variável, existirá outros diferentes valores para a outra variável. Uma inconstância, daí o fato da necessidade dos viajantes do tempo possuírem suas “constantes”.

carta_sawyerComo já foi falado anteriormente, as variáveis representam as pessoas que possuem liberdade para tomar decisões e através disso, mudar o curso da história, assim acreditava Daniel e Jack. Faraday ao final do 14º episódio diz que estava tão concentrado nas constantes, que se esqueceu das variáveis da equação. Sendo assim, baseado neste dom de liberdade que possuímos, o doutor concluiu que seria possível sim, mudar o passado. A idéia tomada como correta por Jack, e levada à risca até o fim do episódio final, a meu ver, está errada por diversos motivos. Pensemos um instante: Se admitirmos que para cada momento no curso temporal, exista um valor que resolva a equação que rege os acontecimentos para cada variável, ou, “o que acontece com cada pessoa”, concluiremos que não importa o que essa pessoa tente fazer, ou seja, não importa que valor coloquemos para a variável, a equação só será resolvida para determinado valor. Voltamos então à antiga teoria de Faraday: As conseqüências das viagens no tempo estão inseridas na história e é sim, impossível mudá-la. Pensando agora pela teoria das constantes: Se um viajante do tempo “escolhesse” a escotilha como sua “constante” e Juliet conseguisse que esta nunca fosse construída, a constante então não existiria, ou seja, ela transformaria uma constante em variável, o que é matematicamente impossível. Isso faz alusão à questão do destino, que inclusive foi sugerido por Jack à Kate no 15º episódio. No 16º/17º episódio, esta teoria é confirmada diversas vezes. Primeiramente vemos um homem conversando com Sawyer enquanto criança, ele diz, pausadamente: “O que está feito, está feito”. O mesmo Sawyer repete isso à Jack quando eles lutam, já nos minutos finais.

Se tivesse que interpretar matematicamente Lost, diria que para cada momento no tempo e para cada pessoa, existiria uma equação correspondente que relacionaria a pessoa ou um grupo de pessoas, como variáveis; e elementos do meio, como constantes. A resolução deste sistema de equações resultaria no teorema de Valenzetti, descrevendo o fim do mundo. É interessante observar que nem todas as pessoas conseguem viajar no tempo, o que nos leva a concluir que certas pessoas são constantes e outras variáveis. Isto também explica o “erro” de Faraday ao concluir a questão do livre arbítrio porque neste caso, todas as pessoas seriam variáveis.

Sabendo um pouco mais sobre Jacob, e à clara referência logo no início deste episódio 16/17 do “tear do destino”, diria que ele é alguém que consegue ler estas equações do tempo, e sendo assim, insere eventos à sua escolha que afetarão o futuro.

Viagens no tempo

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Existem inúmeras referências a viagens no tempo na literatura de ficção científica. Vou me ater à possíveis “tipos” de fenômenos temporais abordados em Lost.

i) Passado imutáveltime-machine

Seguindo a lógica apresentada pelo seriado até agora, este exemplo clássico de viagem no tempo é o que encaixaria melhor aos acontecimentos mostrados até o momento. A teoria de variáveis, constantes e equações, explicitado neste artigo, considera tal teoria, a utilizada pelos roteiristas. Ela foi abordada pela primeira vez no seriado “Túnel do Tempo” e afirma que as viagens no tempo estão inseridas no curso da história, sendo assim, é impossível mudar algo que já aconteceu. Também foi explorada no excelente filme “A Máquina do Tempo”.

ii) Universos Paralelos

back_to_the_future_part_ii_ver2Caso a bomba de hidrogênio exploda e ocorra alguma mudança nos acontecimentos do futuro, esta teoria seria a abordada em Lost. Talvez uma das mais famosas, pois é utilizada em uma dezena de filmes e livros, entre eles o famigerado “De Volta Para o Futuro”. Aqui, mudanças no passado criariam uma nova linha temporal e um futuro totalmente novo com eventos e pessoas diferentes, coexistindo paralelamente com um outro universo: o universo “original”. O Dr Brown explica melhor que eu em: “De Volta Para o Futuro II”.

Com o fim desta temporada, ambas as teorias poderiam vir à acontecer. A primeira já foi abordada até o momento, mas com a explosão da bomba de Hidrogênio no minuto final, o que Faraday descreveu poderia de fato ocorrer. No entanto, pela interpretação que compartilhei nas linhas anteriores, diria que isto muito provavelmente não ocorrerá, mas em se tratando de Lost, é possível.

*****

É importante lembrar que assim como qualquer teoria, em Lost nada é definitivo. As idéias abordadas aqui são apenas palpites. Entretanto, não importa quais mistérios fiquem esquecidos, Lost já me cativou por sua audácia. Audácia em ousar e mostrar ao público inúmeras questões que nos exigem a prática do pensar. Diante de tanta sujeira que a televisão nos mostra nos tempos atuais, é interessante ver algo assim. Ficam ainda diversos mistérios para serem revelados na temporada final, mas pessoalmente consegui encaixar quase 70% da série com estas questões de constantes e variáveis. Acho que este ano, Lost nos trouxe muito mais respostas do que questões. Antes tarde que nunca! 🙂

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7 Comentários

  1. nunca vi ninguem falar de lost dessa forma! =D as idéia são bem interessantes se eu tentendi bem né??? hehehehehe
    complicado de entender coisas de viagens no tempo, mas acho que vc explico direitinho! faz sentido mesmo cada ter sua prórpia equação não tinha pensando nisso…….

    excelente site esse aqui,,,, parabens a todos!
    abraçoss

  2. Eu assisti as três primeiras temporadas de Lost; nas duas primeiras temporadas (e no começo da terceira) eu ainda achava que os roteiristas trariam uma solução ‘limpa’ para o tal mistério da ilha. Infelizmente eles perderam a mão, e se perderam na própria história (com o perdão pelo trocadilho duplo). As viagens no tempo, quando não planejadas desde o início, são uma gambiarra clássica para consertar situações insolúveis — espero que eles tenham conseguido, mas mas não era essa a saída que eu queria ver para esse seriado.

  3. Vale dizer que a teoria do Dr. Brown e aquela do Exterminador do Futuro são completamente diferentes. A idéia por trás do exterminador é um futuro em looping. A guerra contra as máquinas só aconteceu por que elas foram para o passado. Por sua vez elas deram origem a si mesmas. No péssimo T3 eles entram na idéia de que a guerra vai acontecer por que o futuro é inexorável e incapaz de ser evitado.

  4. Notas do Artigo:
    variavel[varaiaveis] 28 vezes
    equacoes 15 vezes
    constantes 27
    pessoa’s 18 vezes
    viagem 2 vezes viagens 10
    tempo, temporais e etc. 47 vezes
    teoria[teorema] 18 vezes

    o artigo é excelente mas deu um laço no meu cerebro q me complico mais em lost do que nunca

    vo esperar a seria acabar aew vo assistir todas as temporadas!!!!

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