Quem já viu Adriana Calcanhotto em palco, acompanhada apenas pela sua guitarra, sabe que não precisa de mais nada para dar um concerto incrível. O escritório do Tiny Desk Brasil parecia feito à medida para a receber. Mas Adriana tinha outros planos. Montou uma banda especialmente para o programa, dando novos contornos às músicas.
Na escolha dos instrumentistas, ela considerou não só a habilidade técnica, mas também a capacidade de cada um contribuir com as suas próprias ideias, respeitando o equilíbrio do conjunto. “Gosto de trabalhar com músicos que têm esta capacidade de intervir, sem necessariamente a traduzir numa quantidade de notas”, diz Adriana. E ela resume a sua maneira de conduzir esta formação: “É possível fazer uma apresentação com banda em que não precisas de te destacar à banda. A banda acompanha a tua voz.” Sobre a experiência no Tiny Desk, ela observa: “O som torna-se quente, cheio de personalidade.”
Esta atenção à escuta reflete-se nos arranjos, que incluem piano, baixo acústico, clarinete e até sons produzidos pela água. Uma pequena fonte e percussão aquática acrescentam texturas invulgares à apresentação. “O nosso silêncio já não é silêncio absoluto. A água leva a mente a um lugar muito bom.”
Cantora, compositora, intérprete e artista multifacetada, Adriana Calcanhotto dedica-se também à literatura, às artes plásticas e ao ensino. Como Adriana Partimpim, lançou quatro álbuns para crianças de todas as idades e ganhou o Grammy Latino para Melhor Álbum Infantil. A sua curiosidade artística reflete-se num repertório que combina composições próprias, colaborações e versões muito particulares de canções de outros autores.
Pergunto se os três papéis de compositora, intérprete e colaboradora orientaram a escolha do repertório para o programa. Ela confirma: “Sim, pensei nisso. Numa situação destas, vês como funciona uma música que é minha, uma que não é minha e uma que é, de certa forma, minha”, explica. Entre os muitos êxitos de uma carreira de quatro décadas, escolheu “Mentiras”, da sua própria autoria, que começa com a frase “Nada ficou no lugar”, inspirada no verso “tudo ficou fora do lugar”, de “O Nosso Amor a Gente Inventa”, de Cazuza. Estão ainda incluídas “Esquadros” e “Vambora”, ambas compostas por Adriana, bem como “Inverno”, uma colaboração com o poeta Antônio Cícero, e “Devolva-me”, de Renato Barros e Lílian Knapp, uma canção do movimento Jovem Guarda que ela resgatou para o seu repertório.
A liberdade dos músicos é evidente nos pequenos detalhes e nos espaços entre os instrumentos. Adriana insiste em preservar a espontaneidade de cada interpretação. “Não vais tocar aquele solo exatamente como tocaste na gravação. O que eu quero é o contributo do músico escolhido, para aquela situação, para aquele arranjo.” Um exemplo é “Inverno”, que ganhou um novo arranjo com o piano de Vitor Araújo, instrumento que já tinha um papel de destaque na gravação original. Durante a nossa conversa, referi que o Vitor parecia estar a “desvendar” as teclas do piano. A Adriana concordou de imediato.
Habituada a compor apenas com voz e guitarra, a artista aproveitou o conjunto alargado para explorar as possibilidades de tocar em grupo num ambiente intimista. “Como sempre suspeitei, é possível trabalhar com uma banda e ainda assim conseguir ouvir-se. É algo que valorizo muito, a dinâmica do volume, que não está tão presente na música pop. Conseguimos explorar esta dinâmica mais sinfónica aqui, e foi muito especial.”
por LORENA CALABRIA
Músicos
Adriana Calcanhotto – Voz e Guitarras
Guto Wirtti – Contrabaixo
Jorge Continentino – Clarinete, Flauta e Pífaro
Leonardo Reis – Percussão
Pupillo – Bateria
Vitor Araújo – Piano





Deixe um comentário
Você precisa fazer o login para publicar um comentário.